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Mais uma canhota na fogueira
Quinta-feira, Dezembro 12, 2019

Já não é somente uma “pirralha” a anunciar o fim do mundo e a dizer que a “casa está a arder”. Agora, é também o Secretário-Geral das Nações Unidas que vem perguntar se queremos ser lembrados como a geração que enterrou a cabeça na areia enquanto o planeta ardia. Diz ele que precisamos de seguir um caminho onde mais combustíveis fósseis permaneçam no solo, e que devemos começar hoje e não amanhã, e numa abordagem transformacional e não incremental. Diz que temos as ferramentas, a ciência e os recursos, e que só falta mesmo a vontade política. Foram palavras de António Guterres na abertura da COP25, a Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas que está a decorrer em Madrid.

E foi também na COP25 que a jovem Greta Thunberg (apelidada de “pirralha” pelo Presidente do Brasil) reafirmou acreditar que no combate às Alterações Climáticas o maior perigo não é a inação. Ela diz que o verdadeiro perigo é quando as corporações e os políticos nos fazem acreditar que existe ação real, quando de facto quase nada é feito, a não ser esperteza contabilística e relações públicas criativas.

Não foi na COP25, mas foi também esta semana que ficamos a conhecer as linhas gerais do Pacto Ecológico Europeu que pretende levar à neutralidade carbónica da União Europeia em 2050. Este Pacto será o grande referencial das políticas e financiamentos europeus para os próximos anos.

Em Guimarães, o referencial para os próximos anos são as Grandes Opções do Plano e Orçamento, aprovadas na última Assembleia Municipal, e onde se pode constatar que a rede viária irá consumir a fatia de leão dos investimentos.

Temos as organizações mundiais e europeias com orientações que refletem a urgência da redução de emissões de CO2, e em consonância, temos um município que diz pretender aumentar o uso do transporte público e modos suaves pela redução do transporte individual motorizado. Mas a realidade é que continuam a planear e a criar infra-estruturas para acomodar e facilitar o atual parque automóvel, num convite ao seu uso.

Num cenário de redução do transporte individual motorizado (TIM) seria necessário construir as vias rodoviárias projetadas? É claro que não! Vamos sair sempre a perder: ou falhamos o desígnio de reduzir o TIM ou temos estradas às moscas.

Em Guimarães, a esperteza contabilística e as relações públicas criativas de que a “pirralha” fala merecem ser um caso de estudo.

Com o planeta em crise climática por excesso de emissões de CO2, a solução é ensinar as crianças a andar de bicicleta, mas entretanto fazem-se estradas para facilitar a circulação automóvel. Temos a casa a arder, ensinam-se as crianças a usar (quando crescerem) o extintor mas atira-se mais uma canhota para a fogueira.

Basta de desculpas e adiamentos. É justo, necessário e urgente que cada um de nós assuma as suas responsabilidades com coragem e determinação.