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Mais de dois mil anos de consumo do vinho
Sexta-feira, Março 17, 2017

Bocal de ânfora de tipo “Haltern 70”, recolhido por Martins Sarmento na Citânia de Briteiros.

A cultura do vinho, com todos os aspetos etnográficos que lhe estão associados, é algo que caracteriza praticamente todas as regiões do país. Converteu-se a vitivinicultura num ponto central da nossa atividade agrícola,  com diferentes reflexos na cultura e na economia. Isto ao contrário da cerveja, produção industrial reintroduzida nos últimos cem anos, e cuja cultura tradicional tinha praticamente desaparecido.

Historicamente, porém, a cerveja terá sido produzida muito antes do vinho, pelo menos no Norte de Portugal. Estrabão, o geógrafo grego que descreveu, no século I, alguns hábitos dos povos pré-romanos desta região da Península Ibérica, menciona expressamente o consumo de cerveja, que seria produzida a partir de cevada. Quanto ao vinho, menciona apenas que tinham pouco e, quando o tinham, o consumiam rapidamente, simples. Nesses tempos, beber vinho sem o misturar com mais nada (mel, especiarias, ou mesmo água) era algo de chocante para uma mente mediterrânica considerada mais civilizada.

A introdução do cultivo da vinha no Norte da Península na época romana, não é uma evidência, na medida em que o cultivo da videira poderia ter ocorrido antes. O que é certo é que, pelo menos nos primeiros tempos da romanização, uma grande parte do vinho que se consumia por estes lados era importado. E era importado através dos agentes económicos romanos, naturais antecessores de qualquer contacto militar ou administrativo. Existem mesmo referências, em diferentes regiões da Europa, a chefes locais que adquiriam vinho para depois o distribuírem em festas e banquetes que ofereciam, como forma de contentar a populaça e de promover a sua própria imagem.

Nas escavações que temos realizado na Citânia de Briteiros, nos últimos anos, temos recolhido consideráveis quantidades de fragmentos cerâmicos de um tipo muito específico de ânfora vinária. Conhecida como “Haltern 70” (derivado do nome de uma localidade alemã, onde este tipo de recipiente foi primeiramente classificado), é uma ânfora que foi fabricada no sul da Península Ibérica, na região do Guadalquivir, entre 60/50 a.C. e 120 d.C. A partir daí, as ânforas transportavam o seu conteúdo para regiões distintas da Europa Ocidental, chegando mesmo às ilhas britânicas e à bacia do Reno.

Segundo estudos recentes, sintetizados por Rui Morais, estas ânforas teriam servido para transportar uma gama variada de produtos, designadamente derivados de uva, como o defructum (bebida doce obtida a partir da cozedura do mosto) e sapa (vinho cozido até à redução de dois terços), bem como azeitonas (em defructum) e muria (salmoura).

Curiosa foi a recolha, em camadas arqueológicas associadas a estes fragmentos de ânfora, de grainhas de uva carbonizadas. Restos , portanto, do seu conteúdo original. Não haja dúvida que os nossos castrejos apreciavam vinho, fosse ele importado, mas também eventualmente de produção local.