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Legionários em Tresminas
Quinta-feira, Novembro 19, 2020

As duas aras romanas recolhidas em Tresminas, expostas no Museu Martins Sarmento

O canto Noroeste da Península Ibérica era conhecido, na Antiguidade, pela sua riqueza mineira. O ouro, a prata, o estanho, metais que foram sendo explorados, eventualmente em pequenas quantidades, ou à medida do consumo existente, pelas populações que habitaram este território desde a Pré-história. Naturalmente, a riqueza mineral foi também alvo da cobiça exterior e crê-se que os líderes das “potências” mediterrânicas, se assim lhes podemos chamar, sabiam da existência destas ocorrências metálicas. Também os protagonistas políticos do Império Romano teriam conhecimento destas, literalmente preciosas, informações e conta-se que esta terá sido uma das razões para o alargamento territorial do Império na Península Ibérica.

É neste contexto, no seguimento da integração do atual Norte de Portugal na esfera administrativa do Império Romano, que surgiu o complexo mineiro romano de Tresminas, Vila Pouca de Aguiar, em funcionamento pelo menos nos séculos I e II da nossa Era, bem como de outra área próxima, em Jales, no mesmo Concelho, onde se explorou ouro até há perto de trinta anos.

O conhecimento sobre estas explorações mineiras na Antiguidade, particularmente em Tresminas, conheceu uma franca evolução nos últimos anos, reunindo investigadores de diferentes áreas e diferentes países e permitindo a implementação de um sistema de visitas turístico-culturais com particular sucesso. Há, contudo, muitas questões em aberto sobre a evolução deste interessante conjunto.

Quis um feliz acaso que duas aras romanas fossem oferecidas pelo Dr. Henrique Ferreira Botelho, de Vila Pouca de Aguiar, ao então ainda recente Museu Arqueológico da Sociedade Martins Sarmento, no ano de 1894. Ali se mantêm desde então, por entre os numerosos monumentos epigráficos de várias proveniências.

Mas há outro acaso extraordinário sobre estes dois pequenos altares de granito, contendo ambos inscrições que os dedicam a Júpiter. É que ambos foram erigidos por legionários romanos. Num dos casos por soldados da célebre legião VII Gemina, pela mão de um certo Pullinus, no outro por membros da coorte I Gallica, parte integrante da mesma legião, com carácter de força auxiliar. Foram as duas peças recolhidas perto da povoação da Ribeirinha, na freguesia de Tresminas, não se conhecendo o local onde se encontravam originalmente. Certo é que estes dois monumentos são testemunho da presença militar romana no que seria um coto mineiro detido pelo estado.

Serão estes os únicos indícios da presença militar romana na zona de Tresminas e Jales? Esta é uma de muitas questões que se mantêm.