José Fonseca: “A sensibilização ambiental será sempre um trabalho inacabado”
José Fonseca: “A sensibilização ambiental será sempre um trabalho inacabado”
Paulo Dumas
Quinta-feira, Julho 25, 2019

José Fonseca, 50 anos, tem sido a face mais visível da implementação nas Caldas das Taipas de um projeto tendente à melhoria do meio ambiente. Porta voz da Brigada Verde, o professor de física e química abraçou o desafio de tornar a freguesia “mais verde”. Tem pela frente desafios importantes que avalia de forma destemida, assumindo que não tem a pretensão de “resolver todos os problemas de uma penada”.

A Brigada Verde de Caldelas foi apresentada publicamente em outubro de 2018. Qual é o balanço que faz desde então?
A primeira medida que desenvolvemos foi elaborar um plano de ação, que esteve baseado, logo à partida, nos dez domínios do Eco-Freguesias. Tínhamos a ideia, generalizada que a Brigada Verde só atua nos domínios da biodiversidade e dos recursos naturais. Mas o plano de ação é muito mais abrangente e trata domínios como a mobilidade ou a participação cívica. Elencamos 33 medidas para serem desenvolvidas previsivelmente num período de quatro anos. Temos neste momento uma concretização de 58%, ou seja, 19 medidas. Em desenvolvimento estão oito e por concretizar temos seis.

Dentro dessas concretizações, há alguma que goste de destacar?
Nós entendemos que a intervenção na Ribeira da Canhota foi uma conquista – aceder a um terreno privado, com autorização do proprietário, e fazer a limpeza da ribeira. Os recursos hídricos estão blindados em termos de atuação. Essa terá sido a medida que nos deu mais gosto em termos de resultado. Um resultado que é ambiental, mas também social, com impacto na freguesia. Também o parque de lazer da zona da Faísca, valorizando aquele espaço. Gostava de salientar também uma medida que desenvolvemos, que foi o Taipas Bio, no antigo mercado. Foi uma ação em que firmamos parcerias na comunidade, que é sempre uma preocupação que temos. Correu muito bem a venda de produtos naturais da região.

Será uma medida para continuar, portanto.
Sim, será para continuar. Será um evento anual, para que não tenha impacto negativo no comércio local. Temos que ter o cuidado de desenvolver algo que dinamize, mas que não substitua o comércio existente.

E a limpeza das margens das linhas de água, será um trabalho sistemático, para continuar?
Sem dúvida. A Brigada Verde tem preocupações que são permanentes. Dou o exemplo dos copos reutilizáveis que estamos a implementar em várias frentes, seja nas escolas, seja na Festa das Associações. Há sempre a necessidade de acompanhar aquilo que se vai fazendo na freguesia e perceber o que se pode fazer. Na Ribeira da Canhota e agora também na Ribeira da Agrela, com a criação do parque junto à Praia Seca, vamos fazer uma intervenção nas margens, que passará pelo corte de espécies infestantes e de biomassa que esteja em excesso. Na Ribeira da Canhota vamos continuar para montante, depois da Rua do Pinhel. Queremos prolongar a limpeza ao longo da Rua da Igreja Velha. A nossa postura relativamente às linhas de água, da Brigada Verde, mas também a Junta de Freguesia (que é uma força motriz da Brigada Verde), passa por as devolver, pelo menos visualmente. No futuro, gostaríamos que essas linhas de água estivessem acessíveis e que fossem valorizadas. Mas para já temos que começar por algum lado, sem perder de vista esses objetivos. Não temos a pretensão de resolver todos os problemas de uma penada.

A freguesia teve o melhor resultado a nível nacional no concurso Eco-Freguesias. Qual foi o processo que levou à participação da freguesia?
O desafio de nos candidatarmos a Eco-Freguesia surgiu em janeiro de 2018, durante um seminário dedicado às Eco-Escolas onde participei, decorrente da minha ligação à escola como docente. Nessa altura, a Associação Bandeira Verde da Europa (ABAE) aproveitou o seminário para prestar informações sobre o poder local e o Eco-Freguesias. A ideia de uma candidatura surgiu aí. Surge também do desafio lançado pela Câmara Municipal de Guimarães para a apresentação de candidaturas. É importante dizer que a autarquia assumiu os encargos de inscrição de todas as freguesias do concelho. Depois começamos a desenvolver ações que se encaixassem em cada um dos indicadores que são avaliados na candidatura. O resultado é calculado com base na diversificação de ações que são apresentadas. A nossa estratégia foi fazer concorrer as valências de todos os parceiros que fazem parte da Brigada Verde e da nossa freguesia para todos os dez indicadores. Foi dessa forma que conseguimos somar o resultado expressivo de 87%. Tenho que realçar que esta é uma candidatura das instituições da vila. Por exemplo, na área social e do que são os serviços prestados à população, o Centro Social das Taipas deu um contributo muito importante. Nas outras freguesias talvez seja este o domínio menos alcançado. Por isso que digo sempre que este é um prémio da freguesia.

A Brigada Verde tem meios próprios?
Não tem. Trabalhamos com os meios que são disponibilizados pela Junta de Freguesia e com o apoio da Câmara. Também é importante referir que as pessoas que se envolvem na Brigada Verde fazem-no como voluntários, gerindo o tempo que têm livre, além das suas obrigações profissionais e familiares.

Para além do Eco-Freguesias a ABAE também promove o concurso Eco-Famílias. Como é que estes dois processos se cruzam?
Foram seis as famílias que aderiram ao projeto nesta primeira edição. O formulário é um pouco complexo de se responder e receio que isso tenha sido dissuasor. Essas seis famílias que participaram tiveram todas mais de 50% de pontuação. A pontuação mais baixa foi de 67% a mais elevada teve 90% – sendo esta a segunda melhor classificação nacional. Inicialmente tínhamos prémios para atribuir aos três melhores classificados, mas conseguimos premiar todas as famílias participantes. No caso do Eco-Famílias pontuam comportamentos que vão da separação seletiva dos resíduos, os hábitos de mobilidade até à participação cívica.

Mas o Eco-Famílias tem alguma relação com o Eco-Freguesias?
Tem, sim. O Eco-Famílias é um dos indicadores que contribui com pontuação para o Eco-Freguesias. Por exemplo, se não tivéssemos o Eco-Famílias não ficaríamos classificados em primeiro lugar. Não queria valorizar um indicador em relação a outros porque todos foram importantes. Agora, há que continuar o trabalho que começou a ser feito e sensibilizar cada vez mais pessoas. O objetivo de salvar o planeta é muito mais vasto.

Faz questão de salientar que é um trabalho coletivo, mas tem assumido um papel de divulgador e feito um esforço em envolver e sensibilizar a população. Que dificuldades tem esse trabalho de sensibilização para as matérias ambientais?
A sensibilização há de ser sempre um trabalho inacabado. Ou seja, nós nunca poderemos pensar que está terminado. Mesmo em termos da separação seletiva, que é algo que nos parece adquirido, mas quando avaliamos os comportamentos do dia a dia verificamos que há ainda muito por fazer. Podemos falar dos descartáveis ou das pontas de cigarro e até mesmo ao nível da separação do lixo. Eu creio que a sensibilização ambiental começou com a Brigada Verde, sendo um processo que é necessário incrementar.

Quais as resistências que mais encontra?
Aquilo que eu noto é que os maus comportamentos estão quase sempre relacionados com o comodismo. Mas também há mudanças de comportamento que importa destacar. Este galardão da freguesia trouxe-nos um ânimo muito grande e também uma maior responsabilidade para os taipenses para continuarem este caminho de aproximação, nomeadamente no que respeita à redução dos resíduos e à deposição dos resíduos nos locais adequados. Este é o principal foco em que a Brigada Verde terá de insistir.

Que outras áreas necessitam de ser trabalhadas em termos de sensibilização?
Nós, na Brigada Verde, vamo-nos preocupar mais em trabalhar com a população mais adulta, porque as escolas já estão a trabalhar esses assuntos muito bem. Esse trabalho irá focar-se em coisas muito simples como o consumo da água da rede pública, a poupança da água, a poupança energética, os hábitos saudáveis…

A acompanhar esse trabalho de sensibilização há alguma mediatização para assuntos relacionados com o ambiente que são cíclicos. Por exemplo, agora temos as pontas de cigarro, tivemos os plásticos e os oceanos, a camada do ozono e o aquecimento global. Há algum risco de estes temas serem banalizados?
Aquilo que eu penso é que a sensibilização tem que ser acompanhada de legislação. A sensibilização por si não é suficiente. Se não houver legislação que limite ou proíba certos comportamentos, não há uma legitimação para apontar o que está bem e o que não está. Por muita sensibilização que se faça, só quando passa a haver uma legislação que proíba é que os comportamentos começam a ser alterados. Relativamente à sua questão, eu acho que a exposição nunca é excessiva…

Qual será o papel da tomada de posição de figuras públicas ou que se tornam públicas como é o caso de António Guterres e da jovem ativista sueca Greta Thunberg, respetivamente?
Essas tomadas de posição são a nível global e planetário, mas não sei se surtirão efeitos ao nível local. Tenho dúvidas que alguém ao nível local e individual mude de comportamentos ao travar conhecimento das causas que essas figuras defendem. Claro que é importante que as instituições a nível global se envolvam, como a ONU, por exemplo, que define um conjunto de objetivos de intervenção. Acredito antes que são os círculos de relação de proximidade que são mais eficientes e têm mais capacidade para incentivar a mudança de comportamentos.

Ainda ao nível da mediatização e dos ciclos com que os temas são trazidos. Quando se começa a falar de um novo tema, os anteriores são quase esquecidos. Ou não é assim?
O tratamentos desses temas deverão ser cíclicos. Se falamos de tudo ao mesmo tempo, torna-se demasiado abrangente. Há questões urgentes, como o caso dos plásticos e é preciso dar um maior enfoque a esses temas que se tornam mais críticos. Claro que os outros temas não deverão ficar esquecidos e penso que as medidas que vão sendo tomadas vão ficando. Trazer novos temas serve também para que os governantes se sintam pressionados a tomar medidas.

Regressando ao nível local, em termos de medidas e de política de proteção do ambiente a nível local, quais são as metas mais imediatas?
Temos o plano de ação da Brigada Verde, que queremos concretizar. É importante dar consistência temporal às atividades. Não vamos inventar muito, aquilo que fizemos neste primeiro ano queremos dar continuidade e se possível melhorar. Será, portanto, uma política de continuidade, dentro dos domínios que temos no plano de ação. Nestes próximos meses queremos trazer a sociedade, os taipenses, a participar no projeto Taipas a Florir. É um trabalho que já iniciamos e que gostaríamos de executar. Estou esperançado que haja uma boa adesão a este projeto e que vão cuidando que pequenos espaços públicos. Quem cuida valoriza e protege.

O regulamento do Taipas a Florir já foi aprovado e portanto já é público, mas quer resumir como é que as pessoas interessadas poderão aderir?
Agrupamos a sociedade civil em dois grupos – as empresas e as pessoas individuais. As empresas tratarão de espaços de maior dimensão e podem assumir os trabalhos ou contribuir para que os trabalhos se façam. As pessoas ou grupos de pessoas poderão cuidar dos pequenos espaços ajardinados da freguesia. Terá de se fazer uma abordagem direta às pessoas, não podemos ficar à espera que apareçam e se mostrem interessadas, apesar de haver moradores que já tratam de alguns espaços. É importante ir ter com as pessoas e perceber desde logo quais as necessidades e que condições existem.

Ao falar destas matérias é forçoso que se fale também do Rio Ave. Dizer que o rio será despoluído é dar falsas expectativas às pessoas?
Como eu dizia no início da conversa, os rios e as ribeiras estão, do meu ponto de vista, blindados. Importa perceber aquilo que, dentro das nossas possibilidades, poderemos fazer pelo rio. Por exemplo, o tratamento das margens, a limpeza de resíduos. Isso é o que nós podemos fazer nas margens. O rio é um domínio inter concelhio em que a própria Câmara Municipal de Guimarães necessita de mais autonomia para atuar, por exemplo ao nível da fiscalização. É uma legitimidade que enquanto não for dada ao município muito pouco será possível fazer, porque os poderes estão distribuídos por várias entidades. Em termos de Junta de Freguesia e de Brigada Verde, só temos de trabalhar em função dos poderes que temos sobre a linha de água. Tivemos a iniciativa Primavera no Parque, onde foi feita a limpeza das margens e a plantação de novas árvores.

O que é podemos fazer como comunidade para que não se deixe de falar no Rio Ave como um problema que precisa de solução?
A principal arma é exatamente fazer chegar aos decisores políticos comunicações daquilo que sentem e daquilo que testemunham. Estes decisores não são de proximidade e esse é logo um problema. Se o decisor fosse, por exemplo, a Câmara Municipal de Guimarães, nós conseguíamos ter maior capacidade de intervenção. Quando o decisor é uma instituição a nível nacional e até um pouco abstrata ou sem rosto, é uma tarefa muito difícil de concretizar.

Esta entrevista foi originalmente publicada na edição de julho de 2019 do jornal Reflexo.