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João Martinho, arte taipense em forma de sopro na Alemanha
Sábado, Novembro 21, 2020

Começou na Banda Musical de Caldas das Taipas e hoje integra a Orquestra Filarmónica de Hamburgo como Primeiro Trombone Solo, para além de lecionar na Universidade das Arte de Berlim. Aos 29 anos o trombonista taipense fala ao Reflexo sobre o seu percurso e sobre as sensações dos feitos alcançados.

Como se dá a entrada na música, o que levou a enveredar por esse caminho?

O meu pai toca guitarra, pertenceu muitos anos ao Conjunto Rio Ave, das Taipas, e em casa sempre tive contacto com a música. Sempre que havia festas de aniversários, casamentos e batizados, quando se juntavam muitas pessoas da família eu percebi que uma pessoa com uma guitarra podia fazer quase uma festa, isto numa altura em que não havia colunas com Bluetooth e outras tecnologias. Quando o meu irmão, que também é música, o Carlos Martinho, entrou no ciclo o professor de música era o presidente da Banda das Taipas, Fernando Matos, que entretanto faleceu. O meu irmão tinha algum talento, tinha bom ouvido, e foi convidado a entrar para a banda. Sempre foi um exemplo para mim e queria fazer tudo o que ele fazia e foi aí que entrei para a música, pela mão dele.

E o trombone, como se dá a escolha deste instrumento em particular?

Foi também no seguimento do meu irmão e pelo facto de eu querer fazer aquilo que ele fazia. Ele começou com trompete, eu também. Lembro-me que aos seis ou sete meses de estar a tocar trompete não estava a gostar; não tinha muito jeito. Lembro-me de o Fernando Matos chegar à minha beira, pegar-me na cara e dizer que eu tinha mais cara para tocar trombone. Não sei bem o que foi aquilo, quase que a adivinhar o que seria melhor para mim. Comecei a ver, achei piada à questão de ter uma vara, que é uma característica do instrumento, e então aceitei.

Deu os primeiros passos na Banda das Taipas. Foi importante?

Recordo esses tempos com uma grande nostalgia. Tenho muito boas memórias e muito a agradecer à Banda das Taipas, naquilo que a ela significa. Entrei com sete anos e havia lá pessoas com setenta anos. Uma associação deste género ensinou-me a crescer, neste caso musicalmente, mas também como pessoa, transmitiu-me valores como o respeito. Tinha um grupo mais da minha idade e continuamos a ser amigos, sendo a banda como um ponto de encontro para nós. Ainda bem que as Taipas tem uma instituição desta importância quase com duzentos anos de história.

Continua a frequentar a Banda das Taipas?

Sempre que estou em Portugal falo com o Charles Piairo, o maestro, pergunto se posso ir ao ensaio, se posso participar. Às vezes também ensaio a orquestra juvenil, também para estar em contacto com os mais pequenos. É importante eles ter a ajuda de alguém mais experiente, dar um pouco de motivação, algo que eu quando era pequeno sentia. Penso que é um trabalho importante e não me custa nada estando aí pelas Taipas.

Seguiu-se o Conservatório Calouste Gulbenkian e Escola Superior de Música e Artes do Porto. Custou muito abdicar de algumas coisas para seguir a carreira musical?

Custou-me ir para Braga aos dez anos, quando ainda era pequeno, tinha os meus amigos da Charneca, e fui para um sítio diferente. Como era uma criança os meus pais disseram que era o melhor para mim. Dois dias depois de chorar um pouco acabei por ir, mas custou porque tinha de ir autocarro muito cedo e chegava muito tarde. Estudei no Conservatório até ao 12.º ano e depois fui para o Porto e vinha todos os fins-de-semana a casa, estava lá a morar. Quando comecei lá a estudar ganhei um contrato na Orquestra do Porto e tinha muitos concertos, o que me fez perder um pouco a vida de estudante, uma vez que tinha a responsabilidade de trabalhar numa das melhores orquestras do país, mas ganhei também muita experiência profissional e pessoal, e consegui também com o dinheiro poupar para vir para a Alemanha, porque no primeiro ano, quando vim, não tinha nenhuma bolsa.

Como se dá a ida para a Alemanha?

Quando estava no Porto o meu professor era meu colega na orquestra, o espanhol Severo Martinez, e tinha estudado na Alemanha. Ia-me dizendo que como era ainda novo tinha potencial e deveria ir estudar para a Alemanha, dizendo que deveria abrir o meu leque de possibilidades para poder evoluir e tentar fazer o mestrado. Foi um pouco a partir daí que começou a curiosidade pela Alemanha, pelos excelentes músicos que tem, pelo ambiente cultural que tem, o que é importantíssimo, mesmos os apoios financeiros que a cultura tem, o que faz com que seja um trabalho seguro. Tentei conhecer o professor de Berlim, fiz duas masterclasses com ele em Espanha, e a partir daí disse que queria estudar com ele e ele disse-me para ir fazer a prova. Correu bem, entrei, fiz mais dois anos de licenciatura e depois o mestrado.

Conseguiu ser o Primeiro Trombone Solo da Orquestra Filarmónica de Hamburgo, como surgiu essa possibilidade?

Depois de ir para Berlim ainda estive um ano e meio em Dusseldorf, fui academista de uma orquestra de ópera, foi aí que ganhei o lugar em Hamburgo. Em Berlim há três trombonistas com trabalho em casas de ópera, na Áustria há outro. A Alemanha está a ficar bastante bem representada com pessoas de Portugal na música. Fiz provas em vários sítios, em Barcelona, na Suíça, e acabou por resultar em Hamburgo. É fruto de muito trabalho, muitas horas que não se veem, um trabalho solitário que se faz numa sala com um instrumento. Mas, estou numa cidade fantástica, adoro estar aqui. Tenho uma grande sala onde tocar, a Elbphilarmonie de Hamburgo, onde fazemos programas sinfónicos. A minha orquestra é de ópera, tocámos ópera, e uma vez por mês temos programas sinfónicos, aqueles concertos que as pessoas estão habituadas a ouvir no palco.

Qual a sensação de poder estar num palco como este, como a Elbphilarmonie?

É uma sensação ótima de realização profissional, a todos os níveis. A sensação de subir ao palco numa sala enorme, acusticamente bem preparada que te ajuda na performance, estar com aquela adrenalina, aquele nervosismo bom, aquela ansiedade. Depois o aplauso final, muitas vezes com as pessoas de pé, os gritos de bravo da plateia é uma satisfação enorme.

Tem dado aulas numa universidade conceituada em Berlim, a universidade que frequentou. Como se proporcionou e o que significa aos 29 anos estar já a transmitir conhecimentos?

Apanhou-me um pouco de surpresa. Desde 2017 estou em Hamburgo e a atividade pedagógica tem sido feita a alguns alunos particulares aqui em Hamburgo. Fiz algumas masterclasses em Portugal, uma delas na Universidade do Minho, em Lisboa, no Porto, mas era uma área que nunca pensei muito. Estava de férias, a falar com o meu professor, ele disse-me que tinha dois alunos que tinham feito masterclasses comigo. Passado dois dias enviou-me uma mensagem a questionar se queria ser professor este semestre. Estava na praia e pensei que não podia ser. Fiquei, claro, muito contente. É para mim um privilégio. Se eles aprenderem metade do que eu aprendo a fazer isto já fico muito contente. É, como disse, um privilégio enorme trabalhar com esta classe de trombone de Berlim, uma das melhores classes da Europa. Tenho esperança de continuar este tipo de trabalho pedagógico, porque é algo que me traz muito.

Quando será possível ouvi-lo nas Taipas?

Este ano era para ir tocar no São Pedro, na banda, mas não foi possível. Não sei. Culturalmente as Taipas não é muito forte. O concelho de Guimarães está cada vez mais forte, o que se deve ao facto de em 2012 ter sido Capital Europeia da Cultura, deu para ver que as pessoas apreciam cultura, gostam de música, e têm vontade. Nas Taipas, curiosamente, a cultura é um bocado como o rio: está morto. É difícil organizar qualquer coisa nas Taipas, mas não impossível. Onde costumo tocar maioritariamente é na banda, até porque quando vou às Taipas não é em trabalho, é mais uma visita a casa, mas tinha todo o gosto em tocar nas Taipas, apresentar um projeto de música de câmara, fazer um recital a solo, seja o que for. Com isto da pandemia é mais difícil e nem depende de mim dizer quando posso apanhar um avião.

Que sonhos e objetivos tem para o futuro?

Não sei (risos). Neste momento sinto-me realizado, dou muito valor ao que tenho e sei a importância que isso tem para mim. Há coisas que gostava de experimentar, coisas novas, outro tipo de projetos, música de câmara, coisas diferentes, algo fresco no mercado e que possa ter um grande impacto. São ideias que estão ainda muito vedes, que tenho de maturar. Tenho alguns objetivos, de tocar em algumas orquestras, para mim a Filarmónica de Berlim sempre foi um sonho, adoraria e se algum dia houver a possibilidade de me apresentar numa prova, ou assim, estarei lá. Mas não tenho nada delineado e vou vendo as possibilidades e o caminho pelo qual posso enveredar. Penso que o importante será mesmo isso, não parar, ir apanhando aquilo que o caminho traz e até agora tenho ido bem neste sentido. Se continuar penso que as coisas vão continuar a aparecer e vou continuar a sentir-me realizado.