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Jacinta, um doce…
Sábado, Dezembro 19, 2020

Depois de hesitar muito sobre o tema a explorar, resolvi escrever uma crónica narrativa que assenta numa personagem que conheci há muitos anos; porém, com uma atualidade…

Ao longo da vida, todos nós encontrámos pessoas que nos alegraram a existência e outras que a infernizaram. Uns só com a sua presença, o seu bom-dia, um mero sorriso nos lábios, uma palavra amiga transformam o dia mais sombrio num solarengo e colorido; outras só com a sua breve aparição estragam o melhor dos dias, a melhor das disposições.

Se a humanidade fosse muito linear, eu limitar-me-ia a dizer que era constituída por duas categorias de pessoas: as pessoas boas e as pessoas más. Infeliz ou felizmente, não é assim e, a grande maioria pertence (ainda bem!) a uma outra categoria – a das pessoas mais ou menos, nem sempre boas nem sempre más. E depois… há as exceções. Se não houvesse onde estaria a regra?

A Jacinta era uma delas. Um doce de pessoa, que a todos cativava – novos e velhos – com o seu sorriso, uma palavra amável, um ombro caridoso, um olhar compreensivo, um conselho útil, uma crítica construtiva… mais psicóloga do que muitos que têm o canudo. Ouvia mais do que falava e usava as palavras exatas no momento certo.

A vida recheada de escolhos q.b. ensinara-lhe que a partilha, a solidariedade, a aceitação sem revolta, a amizade eram bens incalculáveis e insubstituíveis. Perdera o marido muito jovem com uma tuberculose fulminante, o filho mais velho morrera bebé ainda e o segundo fora atropelado por um condutor alcoolizado, quando regressava da escola. Uma tragédia! Colegas de escola, o Joel tinha apenas quinze anos, fomos todos ao funeral, o primeiro a que assisti…

No entanto, ela nunca baixou os braços e continuou a puxar a carroça da vida, com coragem e, sorrindo, acrescentava “com a ajuda dos amigos”.

A Jacinta era a florista lá do bairro. Tinha mãos de fada e delas nasciam arranjos e ramos, palmas, coroas, ramalhetes,… de sonho. Ria e comentava com espírito que estava presente nas horas boas e amargas da vida. Pura verdade! As flores acompanham-nos nos grandes momentos, sejam eles felizes ou infelizes. E até já a tinha ouvido comentar com certo cinismo “Qualquer dia até para os divórcios há flores. À velocidade a que se dá o casa-separa e da forma como se dão todos depois, à moderna, vai ver… não me admira que transformem esse acontecimento deplorável numa festa”. Não disse nem sim nem sopas. Era solteiríssima. Para quê?

Conhecedora do seu ofício, a Jacinta sabia a simbologia das flores, das cores e até aprendeu a fazer arranjos orientais. Conhecia as últimas “modas”. E não se ficou por aí. Empreendedora nata, em poucos anos, o seu negócio floresceu, não fosse ele de flores. A Jacinta inaugurou o negócio da venda por “catálogo” há muitos anos, pois fotografava o seu trabalho. O que começou por ser uma compilação de fotografias para recordar, acabou por se tornar em marketing. As noivas ofereciam-lhe fotografias com os arranjos do cabelo, os ramos, a decoração das igrejas, das quintas ou das casas particulares onde as suas mãos de fada tinham trabalhado. Depois, foram os aniversários, as comemorações de datas festivas, os festivais, os concursos florais, os eventos em que participava como decoradora floral… De florista de bairro, como teimosamente continuava a intitular-se, passara a empresária e tinha mais duas lojas na cidade às quais não dedicava a sua arte, apenas porque conhecia as miúdas que tinham feito Cursos Profissionais de Arranjos Florais, de Floricultura, de Jardinagem… e lhes deu a mão. Eram as suas herdeiras… Eu sabia isso. E permanecia ali no seu cantinho… onde trabalhava com as flores e criava, dava o seu toque pessoal nos trabalhos para as pessoas do bairro que sempre tinha conhecido e que eram a sua família.

Como eu a entendia. O contacto pessoal com os seus velhos clientes de sempre fazia-a permanecer naquela lojinha, pequena e acolhedora, o seu cantinho, onde transformava flores, pétalas e verdes em maravilhas do mundo que já não tinham número. E acompanhava os seus meninos e meninas desde que nasciam… e os adultos que com ela envelheciam. Fazia anos que criara o seu milésimo buquê de noiva e quanto ao resto… já perdera a conta…

Hoje, passei por lá para comprar um ramo de rosas para o Dia da Mãe, e ela cirandava pela loja contente como um passarinho. As flores riam-se com ela e no ar pairava um perfume inebriante e adocicado.

Quando me viu, lançando uma das suas gargalhadas bem-dispostas, falou-me do senhor Santos, um que tinha abandonado a mulher e os três filhos à conta de uma safada que morava no número quinze, segundo direito e apontou-me o prédio, como se eu não soubesse. Aquele caso fora tão badalado… Tinha vindo comprar um ramalhete para a mulher. Estava arrependido e… Já não a ouvi mais. Apercebi-me vagamente de que me contava aquela história da vida, mais uma igual a tantas outras, embora aquela viesse a ter um desfecho um tanto ou quanto diferente.

Peguei nas rosas para a minha mãe e saí a pensar na outra mulher que, mãe e esposa, estaria nessa altura a receber um ramo de rosas vermelhas, da cor da paixão.

Sorri. A Jacinta acabava de inaugurar uma nova faceta na sua loja- as reconciliações, essas sim com direito a flores. As segundas oportunidades… não abundam. Quem sabe a compreensão, a partilha, o entendimento não começam a existir com mais frequência? Pelo menos, a Jacinta espalhava-as ao vento juntamente com as suas flores.