Já não há colmeiros…
Quinta-feira, Maio 30, 2019

Casas reconstruídas na Citânia de Briteiros, com cobertura em colmo. Décadas de 1960/1970. Coleção de Fotografia da Muralha, Associação de Guimarães para a Defesa do Património.

As coberturas em colmo sugerem-nos sempre algo primitivo, bastante recuado no tempo. Aliás, é comum a expressão “palhoça” ou “cabana” para uma construção que mostra uma cobertura de palha, denotando-se uma certa resistência a chamar de “casa” o que é coberto com palha ou com giesta. Na verdade, as casas com cobertura em colmo chegaram ao século XXI, quanto mais não seja apenas como sugestão histórica ou etnográfica, de que o caso mais conhecido será talvez a povoação do Cebreiro, na província galega de Lugo. Mas também em Portugal, em várias zonas rurais, particularmente em territórios de montanha, se fala na utilização de coberturas em colmo até há poucos anos.

Acontece que, se na Antiguidade, pelo menos até à época romana, as coberturas em matéria vegetal eram a regra, daí por diante, fazia-se em colmo quando não havia meios para fazer em telha. As razões económicas passaram a determinar o modo de cobertura, sendo o colmo mais usado em estábulos do que em casas de habitação.

Antes da época romana, desde as cabanas do Neolítico até às “casas castrejas” da Idade do Ferro, o colmo era a solução mais habitual de qualquer construção. Aliás, na fase da romanização, a utilização generalizada da tegula, ou telha romana, que veio permitir a obtenção de coberturas mais duradouras, pode ter sido uma das razões para o declínio da construção em forma circular. De facto, a configuração cónica da cobertura das casas circulares não permitia a utilização de telha romana, por muito que Sarmento tenha considerado, para as casas da Citânia de Briteiros, a utilização de tegula no beiral das casas redondas.

Sendo um trabalho meticuloso, porque assim exigia a necessidade de resistência às tempestades e de isolamento do interior em relação às chuvas, a cobertura em colmo deveria ser feita por pessoas capacitadas e experimentadas nessa arte. Implicava este trabalho a utilização de palha inteira e a obtenção de pequenos molhos de palha atada, que era depois fixada à estrutura interna de madeira, em sucessivas camadas, parcialmente sobrepostas. Pelo menos assim se tem feito a reposição da cobertura das duas casas reconstruídas na Citânia de Briteiros.

Trabalho profissionalizado, portanto, quiçá um ramo mais específico da carpintaria, que a evolução da arquitetura e da construção fez praticamente desaparecer. Poderá a profissão de colmeiro ser reabilitada pela existência de “casas castrejas” reconstruídas em vários castros? Ou mesmo por um revivalismo que possa alimentar uma nova forma de alojamento turístico?