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A intervenção na Igreja de Santa Maria de Corvite
Quinta-feira, Janeiro 4, 2018

São Brás, representado a fresco na Igreja Velha de Corvite. Imagem: Sistema de Informação para o Património Cultural. DGPC.

Tem vindo a ser noticiada, desde há alguns meses, uma intervenção do Município de Guimarães na Igreja Velha de Corvite, edifício onde não se celebra missa desde há muitos anos, mas cujas características têm chamado a atenção de alguns investigadores. O facto de ter mantido, sem grandes acrescentos ou alterações, a sua estrutura original e, sobretudo, a presença visível de várias pinturas a fresco nas suas paredes interiores (reveladas na década de 1980, com a retirada dos retábulos), fazem deste velho templo um monumento curioso, classificado como de interesse público desde 2012.

Embora haja referências à existência da igreja de Santa Maria de Corvite desde o século XIII, o edifício atualmente visível, com o seu característico portal em arco quebrado, datará do século XVI. A esta fase devem remontar os característicos frescos que revestem o interior, e que foram depois ocultados pelos retábulos posteriores, à semelhança do que deve ter acontecido em muitas outras igrejas, alteradas pelo Barroco e pelo Neoclássico. Mostram estes frescos representações da Anunciação, do martírio de São Sebastião, Santo Antão, São Brás, Santa Bárbara, Santa Catarina de Alexandria, segundo reza a nota histórica-artística da DGPC, que sustentou a classificação.

Mas há um elemento curioso, guardado no interior desta igreja. Trata-se de uma ara (pequeno altar) de época romana, com uma inscrição dedicada a Júpiter, identificada em 2008 por Carla Cruz, e atribuída por Armando Redentor ao século II. Seguramente, esta antiga peça foi recolhida no interior da igreja, em data incerta, e será proveniente das imediações, quiçá de mais um assentamento rural romano, como tantos de que ouvimos falar, mas dos quais muito pouco sabemos…

A valorização da Igreja Velha de Corvite é, além de uma intervenção de salvamento de um monumento em acentuada degradação, uma oportunidade para demonstrar o ambiente simbólico e icónico de uma igreja quinhentista. Não com a exuberância dos Jerónimos de Lisboa, ou de muitas Misericórdias espalhadas pelo país, que refletem sempre contextos extraordinários, mas com a simplicidade que caracterizaria uma igreja paroquial de uma pequena comunidade rural do século XVI. Tal intervenção implica cuidados redobrados, quer pela especificidade do contexto artístico que encerra, quer pela extrema fragilidade dos elementos decorativos do seu interior.

Sirva também esta intervenção para valorizar o pequeno monumento epigráfico romano que, ao ser guardado na igreja (embora “profanado” pelo reforço das letras com tinta) foi poupado a uma muito provável destruição.