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Guiões, cartilhas e democracia
Quinta-feira, Abril 27, 2017

Há umas semanas o futebol português envolveu-se na sua enésima polémica da época. Ficou a saber-se que os comentadores afectos ao Sport Lisboa e Benfica recebem, previamente às suas intervenções públicas, um guião com o argumentário do clube para os temas da semana. Não são os únicos. Basta estar minimamente atento ao alinhamento dos discursos dentro do mesmo partido ou corporação para perceber que as cartilhas estão por toda a parte. E isso está a matar a discussão democrática.

Não vejo os tais programas de televisão e só passo os olhos pelos jornais desportivos se tenho que matar tempo nalgum café, mas não fiquei propriamente espantado com a situação que veio a público envolvendo os comentadores benfiquistas. Porque sou um intenso frequentador das redes sociais. E não é preciso ser particularmente brilhante para descobrir as semelhanças entre o que escrevem diferentes comentadores que tenham uma organização – qualquer que ela seja – a ligá-los.

Se o argumentário que o Benfica entrega aos seus comentadores me interessa muito pouco, não posso dizer o mesmo dos guiões que circulam em grupos de e-mail ou decididos à mesa de um restaurante que modelam as intervenções dos membros de um grupo político. Esta estratégia tem-se tornado cada vez mais evidente. Daqui até 1 de Outubro, acredito que essa realidade vai ser cada vez mais notória.

É expectável que pessoas de uma mesma ideologia, partido ou grupo tenham ideias comuns. Todavia, aquilo a que vimos assistindo está muito para além disto. Porque não estamos a falar só de posições próximas, estamos a falar – muitas vezes – de frases decalcadas que aparecem, como que por magia, na boca de diferentes pessoas.

Não é difícil de encontrar exemplos de objecções a uma posição contrária que se repetem; argumentos para defesa de uma determinada ideia que parecem tirados a papel químico e até a invocação de fontes citadas uma vez atrás de outra. Chega até a ser enternecedor ver tamanho alinhamento. E isto vale tanto para os comentários nas redes sociais, como para os textos de opinião em jornais e blogues ou as intervenções em programas de rádio ou televisão. Um imenso alinhamento. Um imenso afunilamento.

É isso que me preocupa. No advento da democracia, prometeram-nos espaço para o debate público sobre ideias e projectos; no advento da internet, prometeram-nos uma ampliação dessas possibilidades: novas vozes, novos actores. O que a realidade nos trouxe é o inverso disto. O afunilamento das opiniões, suscitado por estas lógicas corporativas, diminui, na prática, o número de vozes no espaço público.

Fazem-no de duas formas. Primeiro, ocupando-o. Depois, esgotando-o. Imaginem um exemplo: alguém lança uma discussão nas redes socais. Em poucos minutos, aparecem quatro, cinco, seis comentadores, com os mesmos argumentos e um alinhamento de posições notável. Isto provoca um efeito de contágio que, em última instância, pode transformar um argumento fraco em forte. Ou uma mentira numa verdade.

Se alguém se atreve a discordar, os mesmos quatro, cinco, seis comentadores, atacam em grupo. Rotulando o “dissidente” – a estratégia clássica de fascistas e populistas – ou derrotando o argumento contrário pela força. A força do número.

Quem quer participar numa discussão assim? E quem, para além daqueles que vestem as camisolas dos grupos em confronto, quer envolver-se num debate que sabe, à partida, estar inquinado?

Samuel Silva escreve de acordo com a antiga ortografia.