Guimarães mãe para uns, madrasta para outros
Quinta-feira, Maio 3, 2018

Após o anúncio que Guimarães não seria finalista a Capital Verde Europeia 2020 (CVE), a Câmara Municipal de Guimarães (CMG) tornou público os documentos de candidatura e avaliação. A leitura destes documentos mostra-nos que não foi apenas o Rio Ave que ficou esquecido.

A Capital Verde Europeia destina-se a cidades europeias com mais de 100 mil habitantes, o que significa que, para a candidatura, a CMG teve de sair da cidade e assumir as freguesias como parte deste projecto. Políticas de promoção da coesão territorial deveriam por isso ser uma prioridade.

A participação das freguesias não pode resumir-se às brigadas verdes, o município tem de considerar todo o seu território na implementação de reformas estruturais que promovam a sustentabilidade. Infelizmente, pela leitura dos documentos publicados, tal não acontece. Persiste a política do centralismo, a sobrevalorização da cidade em detrimento das freguesias. A CMG continua a governar para um terço da população, os 50 mil que habitam no perímetro da cidade.

Centremo-nos no capítulo da mobilidade apresentado na candidatura, e porque é um aspecto vital na coesão do território, para perceber a política conduzida pelo executivo camarário. A actual situação descrita pela CMG neste ponto não apresenta nenhuma medida concreta adoptada para melhorar a mobilidade fora do perímetro urbano. Na verdade, ficamos a saber que as medidas implementadas neste ponto foram a instalação de postos de carregamento para carros eléctricos, a compra de 13 veículos eléctricos, o lançamento de uma plataforma de boleias, e outra de aluguer de carros eléctricos, a Zencar, que afinal nem existe.

Os dados apresentados pelo município mostram que, entre 2001 e 2011, a utilização do carro individual como meio de transporte entre freguesias quase duplicou, em contraste com os transportes públicos e as deslocações a pé que diminuíram substancialmente. O uso da bicicleta como meio de transporte é inexistente no nosso concelho, estando a taxa de utilização nos 0%. Este cenário é exactamente o oposto ao que se pretende numa cidade/concelho verde. Importaria por isso entender o porquê dos transportes públicos estarem a perder passageiros e inverter essa situação.

O Plano de Mobilidade aponta para a necessidade do alargamento da rede e dos horários dos autocarros, para a implementação de serviços flexíveis de transportes, e para a requalificação das vias pedonais, através da substituição dos pisos degradados e irregulares, alargamento dos passeios e retirada de barreiras urbanísticas.

Apostar nos transportes públicos e requalificação das vias pedonais em todo o concelho traria benefícios e resultados imediatos ao nível da mobilidade. Aumentar as ligações das freguesias mais periféricas às vilas do concelho, ao invés de empurrar tudo para a cidade, potenciaria o desenvolvimento destes centros urbanos, aliviando os congestionamentos na cidade.

Em vez disso a CMG priorizou a construção de ciclovias na cidade. Estas resultam muito bem nos países onde há uma forte cultura de utilização de bicicletas como meio de transporte, já nós nunca tivemos esse hábito, essa mentalidade, não faz parte da nossa cultura nem tradição. Mudar esse paradigma demorará gerações. Enquanto isso os transportes públicos continuam a definhar e a perder passageiros, a mobilidade dentro do concelho fortemente constrangida e as freguesias mais periféricas a perder habitantes.

O relatório técnico de avaliação da CEV compara a candidatura de Guimarães a uma brochura turística, o mesmo é dizer que é tudo muito bonito mas espremido dá muito pouco. O reconhecimento como Capital Verde é o prémio por um caminho de sustentabilidade, não é o caminho para o prémio.