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Fernando Cunha: “Quando a Lameira jogava o ringue enchia e o resto tremia”
Fernando Cunha: “Quando a Lameira jogava o ringue enchia e o resto tremia”
Quarta-feira, Agosto 5, 2020

Fernando Cunha nasceu nas Taipas, a 24 de maio de 1951, na Praça Dr. João Antunes Guimarães, no local onde ainda hoje reside e tem o seu estabelecimento comercial há, seguramente, “mais de 70 anos”. Filho de José da Cunha e Elvira Ferreira Marques, tem uma irmã, Maria da Cunha, e foi nas Taipas que cresceu até à idade da “emancipação”, como refere, altura em que rumou “a salto” para França. Foi aí que se envolveu na vida sindical e mais tarde na política.

Casou em França com Deolinda Fernandes da Silva, que conheceu numa das suas vindas a Portugal. Dessa união resultaram os dois filhos, José Henrique Cunha e Fernando Henrique Cunha. No regresso a Portugal, em 1984, tomou conta do negócio de relojoaria – a Ourivesaria Central – que teve origem com o seu avô materno e mais tarde, seguido pelos seus pais. No seu percurso de vida, ajudou ainda a fundar o Sporting Clube taipense.

 

EMIGRANTE EM FRANÇA

Como se deu a sua ida para França?

Aos dezoito anos pedi ao meu pai para me emancipar. Fui para França, pela fronteira da Bélgica, para Clermont Ferrand. Tinha lá uma tia mas, como fui sempre uma pessoa autónoma, saí de lá e outros colegas daqui das Taipas e fomos para um apartamento, em Tourcoing. Ia e vinha constantemente, ainda era solteiro, e depois conhecia aqui a minha mulher, ela também foi, e casámos em França. Passado um ano nasceu o meu filho mais velho, o José Henrique. Passados uns cinco ou seis anos passei a dedicar-me ao sindicalismo.

Foi numa situação legal para França?

Não. Fui a salto. A primeira vez fui preso, logo em Guimarães. O taxista recusou-se a fazer o serviço e, ainda por cima, acusou-nos. Abortou ali. Fomos presos. Viemos embora, com ameaças, mas voltei a tentar. À segunda voltou-nos a aparecer a polícia, em Chaves. Aí conversaram e deixaram-nos ir. Cheguei lá em 1969 e, em 1972, casei.

 

A VIDA POLÍTICA

Como surgiu o gosto pelo sindicalismo?

Por volta do ano 1977 entrei para a CGTP francesa, que é de tendência comunista, mesmo eu sempre tendo sido socialista. Mas, sempre adorei defender as causas justas. Comecei por baixo, como delegado da empresa. Acharam que tinha qualidades e nomearam-me delegado sindical. Comecei por aí até que me convidaram para fazer parte da estrutura local. Era o sindicato têxtil de uma fábrica de tapetes. Aceitei. Fui para secretário adjunto. No fim desse mandato, os mais velhos convidaram-me para me candidatar. Aceitei, na condição de um meu colega ir comigo, como tesoureiro. O que foi aceite e, então, apresentei uma lista. Era uma cidade mais ou menos como Guimarães, já de dimensão considerável. Tomámos conta daquilo, tinha um adjunto francês.

O bichinho da política nasce aí?

Eu era contra a política misturada com o sindicalismo. Aperceberam-se que eu era socialista, algo que eu nunca tinha manifestado, numa altura em que o Partido Comunista Francês quis intervir numa fábrica que estava ocupada. Os trabalhadores decidiram, por voto, ocupar a fábrica para fazer o patrão ceder às exigências. Queriam que uma das pessoas mais representativas do Partido Comunista no norte do país fosse lá falar. Eu disse que enquanto fosse secretário do têxtil não admitia que se misturasse política com sindicalismo, fosse qual fosse o partido. A partir daí o meu trajeto começou a ser sinuoso, até que abandonei. Senti que não podia fazer o meu trabalho como devia ser, talvez em 1981. Em 1982 surgiu a ideia de formar um núcleo do Partido Socialista. Assim foi, juntamo-nos, eu já tinha os meus conhecimentos na câmara e em várias instâncias, bons conhecimentos, tivemos uma reunião com eles, o presidente da câmara era socialista, e arranjou-nos instalações para reunir quando fosse necessário. E assim foi criámos o Núcleo do Partido Socialista em Tourcoing. Quem nos apoiou muito foi o Dr. Rui Martins, secretário-geral para a Europa, e Embaixador de Portugal.

Regressa a Portugal pouco tempo depois…

Em 1984, vim embora. Cheguei aqui e comecei logo a envolver-me na questão partidária. Um primo meu, criado com a minha avó, disse-me que tinha de ir a Guimarães para me apresentar ao Dr. [António] Magalhães. A partir daí comecei a frequentar Guimarães mais assiduamente e ele incentivou-me a formar um Núcleo do Partido Socialista aqui nas Taipas. Fui, então, eu que o fundei mais meia dúzia de amigos. Sem eles não podia fazer nada. Rapidamente, ao fim de três ou quatro anos, o maior jantar partidário que havia na zona era no Piteco, do Núcleo das Taipas do PS. Já reuníamos quase todas as freguesias neste núcleo.

Daí a sua forte relação forte com Dr. António Magalhães e, posteriormente, com o Dr. Francisco Teixeira?

Fortíssima. Há, certamente, coisas que nunca poderei dizer em público que ele nos disse em privado. Isso prova que era uma pessoa que confiava muito em nós.

Passados todos estes anos continua a guardar essas coisas…

E nunca falarei. Só uma vez é que cheguei a um ponto de rotura, de tal maneira forte, que o pus em tribunal, numa causa que acabamos por ganhar. Disse que a lista alternativa à dele para a Comissão Política do partido tinha roubado as listas do placard na sede. Se fosse só em privado, mas ele disse isso numa entrevista. O Dr. Teixeira era o número um e eu era o segundo contra o Dr. António Magalhães. Tivemos uma grande votação e elegemos muitos representantes.

Passados todos estes anos, ainda existe algum tipo de relacionamento?

Existe relação, mas agora muito pouco com o Dr. Teixeira. Com o Dr. António Magalhães parou definitivamente, com contornos muito radicais. Ponto final, porque o Dr. Magalhães não autorizava que lhe fizessem sombra. Sempre disse que não tinha gente à altura para o combater nas eleições, era o melhor candidato que o PS podia ter. Mas, se alguém levantasse a crista de mais ele cortava. Depois o Dr. Teixeira tinha aspirações e os mais fiéis a ele seguiram-no. Mas, nunca fomos contra o Dr. Magalhães. Nunca o ofendemos. Nunca fomos para a praça pública, nem nunca fizemos trabalho sujo. Dedicamo-nos à oposição dentro do partido.

Foi esse acontecimento que marcou o seu afastamento da política, ou continua a acompanhar?

Nunca me desfiliei do partido. Traziam-me as cotas, pessoas de quem eu gostava, e eu pagava. Depois essas pessoas deixaram de trazer as cotas e eu arrumei completamente com isso. Nunca me servi de ninguém, servi-me muitas vezes o Dr. Magalhães para outras pessoas que precisavam, mas pessoalmente para mim nunca quis nada. Nenhum meu filho trabalhou lá e não foi por falta de oportunidade. Sempre vi a política dessa forma: fazer o máximo em prol da comunidade.

Como acompanha o que se passa localmente nos dias de hoje?

Há certas ciosas que comecei a deixar de gostar. Acompanho, leio algumas coisas no Reflexo, que é um bom meio de comunicação, e de resto desliguei-me totalmente. 

Chegou a apoiar uma candidatura independente (Unidos pelas Taipas) à assembleia de Freguesia de Caldelas, nas autárquicas de 2001, também apoiada por PSD e PP e liderada por Manuel Marques da Silva. Como foi a sua relação com Manuel Marques das Silva?

Era um bom homem, apesar de ter uma tendência de direita. Mas era um tipo bastante aberto, era democrático. Interessa é que víamos certas propostas que trazia que nos agradavam, mas não devíamos ser portadores delas em público. Então decidimos apoiá-lo quando ele se candidatou.

 

OURIVESARIA CENTRAL

Profissionalmente como surge a ourivesaria na sua vida?

Antes de regressar de França, em 1984, fiz a proposta aos meus pais para tomar conta da relojoaria. Já tinha esse bichinho porque não queria que uma coisa que o meu avô, João Vieira da Silva, abriu – a relojoaria mais antiga das Taipas – acabasse. Não posso deixar de dizer que esse meu avô teve a primeira camioneta de transportes entre a Póvoa de Lanhoso e o Porto. Depois vendeu-a. Ainda está na posse da empresa João Carlos Soares. O meu avô era Republicano e a cada passo incendiavam-lhe a camioneta. Acabou por vender aquilo e foi para o Brasil. Voltou, alugou o espaço onde hoje ainda existe a Relojoaria Central. Eu aprendi as coisas básicas, mas não executo, não tenho perícia para isso. Foi uma pessoa importante para mim, teve um percurso que me deixa orgulhoso. Por isso, espero não ver aquilo acabar. E o meu filho mais velho parece ter o mesmo vício que eu. Desconfio que não vai deixar fechar aquilo.

De todo o comércio de rua das Taipas, se não for a mais antiga, é seguramente uma das mais antigas…

É. Tem mais de setenta anos.

 

ASSOCIATVISMO

Foi sempre uma pessoa que se envolveu nas coletividades das Taipas…

Sempre gostei e quando não fazia parte apoiava. Gostava imenso de futebol de salão. Nas Taipas havia gente que se interessava muito pelo futebol de salão, como na Lameira, onde havia um bairrismo incrível. Quando a Lameira jogava, o ringue enchia e o resto tremia. Até os árbitros tinham medo. O Arquinho também tinha muito bairrismo mas, de um modo geral, nas Taipas nunca houve muita união. Falei com dois ou três amigos, o Pereira Mendes, o Zé da farmácia e também o Sr. Freitas, que nos cedeu a parte de cima do Café Trajano para fazer a sede do Sporting Clube Taipense, de futebol de salão. (ndr: Sporting Clube Taipense foi fundado a 20 de maio de 1994, dando personalidade jurídica ao já existente, mas informal, Grupo Desportivo Amigos do Alvite). Na altura não podia dizer, mas agora posso. Sem o Eng. Casalta nada tinha sido possível e ele nunca autorizou que o identificássemos, em termos de publicidade e tudo mais. É bom que as pessoas saibam que o dinheiro não era meu. Sempre que ia ele perguntava de quanto precisávamos?! Pegava nos cheques e dava aos quinhentos contos de cada vez. As pessoas admiravam-se como é que tínhamos bons jogadores. Ao fim de dois anos comecei a ficar saturado, porque há sempre quem venha chatear.

Depois disso esteve ligado ao Grupo de Benfeitores das Taipas…

Foi uma coisa pequena, mas muito boa. Quem teve essa ideia foi o José Oliveira, que depois convidou meia dúzia de amigos. Havia o único intuito de ver quem precisava das coisas e ajudar. Nessa altura mandava-se muita coisa para o estrangeiro. Foi uma pequena organização, ajudou bastante gente. O meu contributo aí não foi grande.

Fez parte de mais algum movimento associativo?

Fui várias vezes proposto. Quando criei o futebol de salão, o presidente da altura do Taipas, João Batista Ribeiro, propôs-me para levar o futebol de salão para fazer uma secção no Taipas. Disse-lhe que havia lá uns fanáticos que nunca iam concordar com isso na vida. Dediquei-me muito ao associativismo em Sande Vila Nova, e ajudei muito, o Centro Social. Cheguei a candidatar-me “contra” um homem a quem era quase impossível ganhar e eu, quase ganhei. Éramos do mesmo partido, éramos amigos, mas eu tinha algumas ideias diferentes. Ele tinha o rancho na mão e venceu.

 

CALDAS DAS TAIPAS

É um taipense de gema?

Sou, sem dúvida. Nasci aqui. Sou um taipense de gema, mas não daqueles que diz que só é das Taipas quem nasce nas Taipas. Para mim são todos os que cá moram. Nasci cá e gosto desta terra, não troco por nada. Adoro as Taipas. Adoro o rio, onde aprendi a nadar. Gosto do campo. Gostava de ir ver o Taipas de outros tempos, de grandes jogadores, que se fosse agora jogavam na 1.ª Divisão. Boas equipas de futebol, bairrismo. O hóquei em patins, um bairrismo enorme, tínhamos um grande jogador, o Zequinha da padaria, que chegou a ir à seleção. Éramos fortes. Os taipenses nisso eram muito fortes, como povo. Um bairrismo mesmo forte.

Que se foi perdendo…

Foi-se perdendo imensamente. Ainda há algumas pessoas que gostam disto, mas poucos. Se calhar perdi alguns anos bons das Taipas, mas acho que quando vim de França, e digo isto com pena, acho que as Taipas se tornou um pouco egoísta. Acho que não somos muito acolhedores. As pessoas que me desculpem. A forma de estar das Taipas tornou-se um pouco importante de mais. Acham-se superiores e eu não gosto. Gostava mais das Taipas quando não tinha perdido a humildade. Com as termas vinha para aqui muita gente importante.

Isso pode ser recuperado?

Se as pessoas quiserem, pode. Lembro-me quando era pequeno que a praia tinha barracas, e barcos. No campismo não havia lugar. Vinha para aqui gente importante. Muita gente procurava as termas e havia uma vivência enorme. Foi-se perdendo. Mas, se as pessoas quiserem, podem recuperar-se. Isso, quem tem o poder na mão é que o pode fazer. Não vamos pedir à Junta de Freguesia para fazer isso. A Junta pode, e deve, ser reivindicativa. Muito. Agora, de há uns tempos para cá, mais condições há para isso. Porque são do mesmo partido. Não me venham com coisas! Têm tudo na mão. Não há desculpa. Se não conseguem agora trazer, de novo, toda a beleza à margem do Rio Ave, nunca mais conseguem. É preciso fazer alguma coisa. Fazer coisas mínimas, sem ser grandes projetos, é urgente. Lembra-me dos barquinhos que havia. Porque é que não há? Quando se vai esperando por obras mais importantes tem de se cuidar do que há. Às vezes deixa pena olhar para a “ponte romana” e vê-la cheia de lixo. As Taipas tem história, registos a nível de fotografia, livros. E tem as pessoas, para serem consultadas. Que perguntem aos mais velhos, os pormenores que não estão nos livros. Têm o queijo e a faca para poder a dar vida a certas coisas.

Vai acabar por assistir a uma mudança que vai transformar a vila, a questão da centralidade, as obras que estão previstas para o centro cívico. Do que conhece da obra, com que ideia é que fica?

Do que conheço, e do que leio essencialmente no Reflexo, dou a minha opinião. Por muito se queira, há sempre um ponto ou outro que é criticável. Francamente, olho para parte boa. As Taipas merece uma obra desta envergadura. Deixo de parte os pequenos pormenores, de estacionamento, do trânsito, se deve ser de um só sentido por um lado ou por outro, ou o comércio fechado. Vale a pena o sacrifício. As pessoas querem as obras, querem tudo novo, mas não querem fazer um esforço? Têm de fazer o esforço. As pessoas podem ter a certeza que com o tempo vão recuperar, porque a terra torna-se muito mais bonita, mais atrativa, chama mais gente e o comércio vai beneficiar. A vila vai ganhar com isto. Temos de dizer que estamos um pouco parados no tempo. Construíram-se muitos apartamentos, mas o resto não acompanhou. Tudo que é lazer não acompanhou.