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A escultura humana do Castro de Santa Iria
Quinta-feira, Fevereiro 7, 2019

Escultura de cabeça humana proveniente do Castro de Santa Iria. Fotografia de Martins Sarmento.

Falávamos aqui, no mês passado, de como pouco se conhece acerca do Castro de Santa Iria, localizado no Concelho da Póvoa de Lanhoso, a algumas centenas de metros do limite com Guimarães. O facto de nunca se terem realizado escavações no local priva-nos de informações acerca da fundação e evolução deste povoado castrejo, desconhecendo-se espólio arqueológico que nos possa “orientar, ou desorientar”, usando um trocadilho de Martins Sarmento.

Existe, no entanto, uma peça curiosa, em granito, que constitui o único achado proveniente deste castro a integrar a coleção reunida pelo arqueólogo no século XIX. Na verdade, não é seguro que a peça provenha exatamente do castro, posto que foi entregue a Martins Sarmento por um tal Serafim, em Maio de 1876, que afirmou ter sido a escultura encontrada em Santa Iria. Não se descobrindo outras informações nas notas de Sarmento, resta-nos confiar na única fonte que temos, parca de contextualização.

De acordo com Sarmento “A estátua é uma cabeça de mulher. (…) Está desnarigada de fresco e o nariz não appareceu – o que é pena. Tem o risco ao meio do cabello, mas o cabello nunca foi figurado. As orelhas menos mal desenhadas e em relevo – uma, porque a outra esmurrada. O formato do craneo talvez valesse alguma coisa, se acreditassemos na escrupulosidade do esculptor.” [Martins Sarmento, 26 de Maio de 1876, na Revista de Guimarães, vol. 19, 1902, p. 27]

Uma observação atual pouco mais nos poderá dizer sobre os pormenores desta escultura de cabeça humana, analisada pouco depois da sua recolha. Entretanto, ao longo dos mais de cem anos que passaram, foram muitas as esculturas do período castrejo que apareceram, quer estátuas de guerreiros, quer de figuras sentadas, além de vários exemplares de cabeças isoladas, como esta do Castro de Santa Iria. As cabeças isoladas poderão, de facto, ter pertencido a estátuas maiores, que foram “decapitadas” acidentalmente (sendo a cabeça o ponto mais frágil) ou intencionalmente, por uma qualquer vaga de iconoclastia…

Certa parece ser a produção desta escultura na Idade do Ferro, pois que os seus traços se assemelham à típica escultura castreja, particularmente os olhos em amêndoa, que lhe atribuem um certo aspeto alienígena, que o nariz fragmentado reforça ainda mais. Posto isto, o achado orienta mais do que desorienta. Um bom ponto de partida.