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Ernesto Martinho: “Saio de cabeça levantada, com o dever cumprido”
Ernesto Martinho: “Saio de cabeça levantada, com o dever cumprido”
Bruno José Ferreira
Sábado, Outubro 3, 2020

Ernesto Martinho, 61 anos, casado, dois filhos e um neto. É dirigente do Agrupamento taipense desde a sua fundação, em 1979, tendo também estado envolvido numa tentativa de implementar o escutismo nas Taipas por altura do 25 de abril de 1974.

É Chefe de Agrupamento à volta de três décadas, até ao corrente ano de 2020. No passado dia 4 de junho, foi substituído no cargo por Leandro Neves.

Que principais diferenças se podem apontar à prática do escutismo, ao longo de todos estes anos?

Penso que evoluiu. Temos sempre a tendência de dizer que no meu tempo é que era melhor mas, as coisa foram evoluindo e nós tivemos que seguir essa evolução. Temos de ter consciência que a coisas vão sendo diferentes e ter criatividade para nos adaptar a tudo o que é novo.

Como foi o seu percurso no Agrupamento das Taipas?

Entrei para o escutismo logo como dirigente e, à exceção dos lobitos, passei por todas as secções. Como Chefe de Agrupamento, estive os últimos 30 anos.

Como é que se processou a escolha de Leandro Neves para Chefe de Agrupamento?

Há 10 ou 15 anos que andava, ano após ano, a tentar encontrar quem me substituísse no cargo. De acordo com o que está regulamentarmente previsto, todos os anos a Direção do Agrupamento desencadeava o processo eleitoral para ver se aparecia alguém interessado em assumir o cargo. Tentei várias vezes abordar alguns colegas de Direção mas nunca ninguém quis assumir o cargo. Este ano, entendi que era a altura e fui intransigente. Não dava para andar sempre a arrastar esta questão. Coloquei um ponto final. Depois reuni com todos os dirigentes, donde resultou o nome de três ou quatro chefes. Limadas algumas arestas, ficamos em mãos com duas possibilidades, a chefe Marta Mendes, que não aceitou candidatar-se ao cargo e o chefe Leandro Neves, que acabou por avançar para a eleição. É uma substituição que ainda não é do conhecimento dos pais mas, a situação que vivemos não tem permitido reunir e, por isso, não tivemos ainda oportunidade de o transmitir oficialmente.

Parece-lhe ser a pessoa indicada para o cargo?

Só o tempo o dirá. Eu quando fui para Chefe de Agrupamento também pensei que não tinha perfil e provavelmente até nem tinha mas, com os anos, vamo-nos adaptando e criando competências para o cargo. O tempo é que dirá se foi, ou não, a escolha certa?! Eu entendo que poderá ser.

Nesta fase de transição, há algum conselho que gastaria de deixar ao seu sucessor?

Que pense no escutismo. É no escutismo que temos de nos centrar. Nos rapazes e raparigas que integram o nosso Agrupamento. Se nos desviarmos desse caminho, acho que vai ter dificuldades para a frente.

Vai continuar ligado ao escutismo?

Tenho essa convicção e desejo. Mas, o tempo dirá se será esse o caminho, ou não?! Continuarei como dirigente, como Chefe de Agrupamento Adjunto e ajudarei a trabalhar mais na área do património do Agrupamento.

Como é que pode descrever o caminho percorrido ao longo destes 41 anos de escutismo?

Um caminho realizado com muita dificuldade. Com anos bons e outros menos bons. Algumas pedras pelo caminho que acho que consegui ir retirando da frente. Neste percurso como Chefe de Agrupamento, entendo que deixei todas as condições para continuarmos a ser um dos melhores Agrupamentos local e mesmo a nível nacional. Trabalhei muito e passei muitas noites em branco mas, acho que valeu a pena. Entendo que fiz um percurso à altura e dei o meu melhor.

Consegue apontar o melhor momento vivido ao serviço do Agrupamento?

O primeiro Acampamento Nacional em que participei. Foi em 1992, na Praia do Palheirão, na Tocha.

E o pior?

Do pior, não gostava muito de falar. Entendo que toda a gente sabe qual foi o pior momento que passei no Agrupamento. Deixo isso para análise das pessoas que contribuíram para haver essa parte menos boa na minha carreira de dirigente no Agrupamento.

A pouca disponibilidade dos dirigentes é muitas vezes apontada como a maior dificuldade para o bom funcionamento de um Agrupamento escutista. Com é que conseguiu gerir essa situação?

Foi difícil. Quando entrei para Chefe de Agrupamento, reuníamos frequentemente na nossa sede, ou nalguns dos poucos cafés que existiam na altura. Era muito fácil reunir o pessoal. O tempo foi avançando, as pessoas começaram a ir para as universidades, a namorar e a casar e o tempo foi ficando cada vez menos para o escutismo. Mesmo com todas essas dificuldades, fui sempre incentivando a que, no pouco tempo que lhes sobrasse, aparecessem na sede. Tentei sempre conciliar as coisas e julgo que acabei por ser bem-sucedido.

Fora do escutismo, todos nós temos família. Sente que em algum momento pudesses ter prejudicado a tua família por caus ado escutismo?

Provavelmente. Sempre dei tudo o que podia ao escutismo. Tive anos em que só via o escutismo á minha frente. Tinha alturas de chegar a casa e alguém me perguntar por que é que não ficava lá também a dormir. Apesar da dificuldade, acabei por conseguir sempre conciliar essa situação. Quem assume uma coisa a sério, seja no escutismo, seja noutra coletividade qualquer, a parte familiar acaba sempre por ser prejudicada. Tive a vantagem dos meus dois filhos também serem escuteiros e a minha mulher também me ajudou muito. Contei sempre com a sua ajuda.

A família acabou, então, por ter um papel facilitador na sua tarefa?!

Sem dúvida. Claro que houve alturas em que era sempre escutismo, sempre escutismo que acabava por complicar um pouco a vida familiar. Mas conseguimos sempre conciliar as coisas. Agradeço muito à minha esposa que, para mim, foi o verdadeiro Chefe Adjunto de Agrupamento. Tenho também de deixar um agradecimento aos meus filhos que também contribuíram muito para que tudo corresse bem. Quando eu não podia, eles estiveram sempre disponíveis.

É do conhecimento geral o grande desejo e necessidade do Agrupamento na construção de uma nova sede. Ela esta prometida, desde 2014, pelo município de Guimarães mas, até à data, ainda tudo está no plano das intenções. Pode fazer-nos um ponto de situação desse processo?

É muito difícil falar sobre isso. Foi-nos prometida uma coisa que deve ser feita e estou convencido que se vai fazer. Sempre acreditei nisso. Quem prometeu, são pessoas de bem e penso que não faltarão ao prometido. Temos mantido contactos com a Taipas Turitermas e com a Câmara Municipal no sentido de se avançar com a obra. Estou convencido que se houver boa vontade, a obra avançará.

Este assunto é uma pedra no sapato? Um sonho por cumprir?

Depois de todo trabalho que tivemos na construção de uma sede que tivemos e nos foi tirada. Entretanto, foi-nos prometida a construção de um novo espaço que até hoje ainda não foi construído. Saio com um nó na garganta mas, espero que se desaperte em breve e que se concretize esse sonho. Sempre lutei muito para que o Agrupamento pudesse ter uma sede própria.

Quer dirigir algumas palavras a quem o acompanhou neste percurso?

Claro que sim. Tenho de agradecer, do fundo do coração, a todos os dirigentes, quer os que estão no ativo, quer aos que já saíram, bem como a todo o Agrupamento, que comigo trabalharam durante todos estes anos. Sem eles eu não teria feito nada. O Agrupamento respira saúde. Está bem financeiramente, temos duas carrinhas e muitos escuteiros no ativo. Agradecer também aos pais, empresas e particulares que sempre colaboraram connosco nestes anos todos. Finalmente, quero agradecer à minha esposa e aos meus filhos que foram sempre o meu braço direito no caminho que percorri até hoje e que continuarei a percorrer no escutismo. Saio do cargo de Chefe de Agrupamento de cabeça levantada. Com o dever cumprido.