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Ensino à distância no pré-escolar e no 1º ciclo só numa situação de descontrolo total da pandemia
Ensino à distância no pré-escolar e no 1º ciclo só numa situação de descontrolo total da pandemia
Sábado, Setembro 12, 2020

Adelina Pinto afirma que tudo está a ser feito para que os alunos regressem à escola em segurança. Existem funcionários nas escolas para ajudarem a cumprir os planos de contingência elaborados tendo como base as normas emanadas da DGS.

A vereadora responsável pela área da educação lamenta o facto de alguns programas do projeto educativo local terem de ser suspensos para se evitarem os contactos entre alunos. Projetos que usem o meio digital serão reforçados. A questão dos transportes escolares está a ser tratada com especial atenção e irá exigir um reforço orçamental.

Que balanço faz, enquanto vereadora responsável pela educação, do final do ano letivo 2019/20 face aos problemas causados pela pandemia?

A pandemia foi algo absolutamente inusitado e quando as escolas encerraram em março nenhum de nós tinha a menor ideia do que nos estava a acontecer! O facto de termos conseguido implementar o ensino à distância num tempo record foi algo muito meritório e deve-se ao trabalho incansável das escolas, dos professores e das famílias. É claro que nem tudo correu bem, continuaram a existir assimetrias, alunos com muitas aulas e muito sobrecarregados e alunos com mais tempo livre, mas globalmente o meu balanço é muito positivo. A utilização dos meios tecnológicos como ferramentas colaborativas e de aprendizagem foi um salto significativo para todos. Novas formas de trabalho foram pensadas, como por exemplo na Escola Básica das Taipas, com grupos de alunos diferenciados, com sessões de orientação vocacional, com apresentação de livros, um sem fim de atividades que deixaram marca em todos!

 

A Câmara Conseguiu implementar as medidas necessárias para colmatar os problemas do ensino à distância?

A nossa grande preocupação foi logo que todos os alunos conseguissem ter acesso aos meios tecnológicos necessários. Foi feito um levantamento de necessidades no imediato e verificamos que cerca de 20% dos alunos do 1º ciclo não tinham computador e/ou internet. Esta percentagem ia descendo à medida que os alunos iam ficando mais velhos e no secundário só 10% dos alunos não tinha qualquer equipamento tecnológico. No imediato distribuímos pelos alunos do 1º ciclo cerca de 500 tabletes que as escolas tinham de apoio a projetos como o Hypatiamat, o Litteratus ou a Plataforma Mais Cidadania. Como eram insuficientes, passamos logo a tratar da aquisição de mais 500 computadores, estes com ligação à Internet, para os alunos que não tinham computador nem Internet. Desta forma, terminamos o ano letivo com todos os alunos do 1º ciclo ligados. Essa era a nossa grande preocupação, termos o “radar” ligado a todos os alunos, não podíamos deixar ninguém pelo caminho. No final do ano letivo estes computadores e tabletes foram recolhidos e estão agora nas escolas do 1º ciclo, permitindo uma utilização mais sustentada das tecnologias no processo de ensino-aprendizagem.

Como também tínhamos ainda um número significativo de alunos dos 2º, 3º ciclos e secundário sem acessos, o município decidiu atribuir um subsídio de 12.500€ a cada agrupamento de escolas e escolas secundárias, para ajudar a colmatar estas faltas. Assim, podemos dizer que em todo o concelho de Guimarães os alunos tiveram acesso à educação à distância. Estes equipamentos e ligações serviram para as aprendizagens e também para o acompanhamento que algumas crianças e famílias recebiam por parte das equipas de gestores sociais do município.

 

A Câmara tem dados sobre se se verificou um aumento do insucesso escolar ou abandono escolar no último ano letivo?

As informações que temos mostram que não houve nem aumento do insucesso nem do abandono escolar. Sempre que uma criança ou jovem deixava de aparecer nas aulas virtuais ou nos contactos feitos pelos professores e/ou diretores de turma, era logo acionado o serviço de emergência, quer pelos gestores sociais, quer pela CPCJ. O trabalho da Rede Social, a sua articulação com as escolas e com as instituições locais foram de grande importância neste processo, o que nos permitiu, no imediato, irmos resolvendo as questões sociais que se iam colocando. É claro que não estamos a falar na qualidade do sucesso, acredito que muitas aprendizagens não foram feitas ou foram feitas de forma menos segura, mas acredito que rapidamente os alunos conseguirão recuperar essas lacunas no seu processo de ensino-aprendizagem. O importante era mantê-los conectados, irmos percebendo o seu estado emocional, os problemas das famílias, se havia necessidade de refeições ou outros bens de primeira necessidade, o apoio psicológico. E isso conseguimos fazer, em articulação estreita com as escolas.

 

Por outro lado, existem informações sobre as consequências psicológicas nos alunos de toda esta problemática causada pelo Covid 19?

As informações que temos são pontuais, sabemos que há crianças que não querem sair de casa, que têm medo, há crianças que não querem voltar à escola, crianças que ficaram deprimidas! No imediato as escolas colocaram os seus psicólogos escolares a apoiar estas crianças, no que foram ajudadas pela câmara, que disponibilizou também vários psicólogos para o efeito. Pusemos em campo os gestores sociais e os gestores sociais para a infância, em articulação com o Laboratório Colaborativo ProChild, que identificava crianças e agregados familiares com problemas (com COVID, com falta de rendimentos, com problemas de violência doméstica, com lutos que não conseguiam ser feitos) e acionavam todos os serviços necessários: psicólogo, entrega de refeições, entrega de cabazes, ajuda nos trabalhos de casa, apoio parental, etc.

Agora em setembro, num projeto financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia, o ProChild vai fazer um rastreio e avaliação do estado psicológico de todas as crianças entre os 3 e os 10 anos, que frequentam a escola em Guimarães. O que nos dizem os números, é que cerca de 30% das crianças pode ficar com danos emocionais por ter vivido esta situação de confinamento e de privação dos contactos sociais habituais. Além da avaliação, que será feita através duma plataforma digital, a Plataforma Mais Cidadania, já usada pelos alunos e pais do 1º ciclo, prevemos ainda uma intervenção nos alunos, quer com programas específicos, quer com apoio individualizado, feito pela Associação de Psicologia ou pela Pedopsiquiatria do Hospital Senhora da Oliveira. Este estudo é único em Portugal e vai ser muito importante para aferirmos os danos psicológicos desta pandemia nas crianças.

 

A Câmara Municipal de Guimarães tem acompanhado de perto, com as direções das escolas, o arranque deste novo ano escolar?

A Câmara Municipal trabalha sempre em proximidade com as escolas, ainda mais este ano já que exige mais cuidado e atenção no lançamento do novo ano letivo! Este ano reuni com os 14 agrupamentos, separadamente, quer porque era necessário evitar os ajuntamentos, quer porque cada agrupamento é uma realidade diferente. Organizamos os horários de entradas por causa do transporte escolar, a forma como vão decorrer as Atividades de Enriquecimento Curricular, as Atividades de Animação e Apoio à Família e a Componente de Apoio à Família. Este ano teremos uma nova forma de trabalhar, concentrando os técnicos nas escolas, evitando deslocações entre escolas, mitigando assim possíveis perigos de contágio. Com cada um vimos as necessidades de pessoal não docente, as entradas e saídas das escolas, os planos de contingência, entre outros. Agora continuamos a acompanhar a todos os níveis necessários para que a abertura do novo ano se faça de forma calma e serena, dando confiança aos pais e reduzindo ao máximo os perigos.

 

As escolas estão preparadas para receber os alunos do ensino básico e dos 2º e 3º ciclos?

As escolas estão preparadas, têm os seus planos de contingência feitos, um conhecimento profundo de todas as regras emanadas da DGS e do Ministério da Educação, todo o apoio dos vários serviços da Câmara Municipal de Guimarães. Também todos sabem as regras que devem seguir, o uso obrigatório de máscara, o distanciamento social e a higienização. Estamos a trabalhar para que tudo esteja em conformidade com todas as orientações, sendo certo que algumas serão muito difíceis de cumprir. Só para dar um exemplo, na maior parte das salas de aula não se consegue colocar o distanciamento de dois metros entre os alunos, não há espaço disponível! Mas se os alunos tiverem máscara, se souberem que não devem estar de frente para o colega, que não devem partilhar materiais e que não devem tocar no colega, o risco de possível contágio é muito pequeno. Por isso, a escola vai ter um papel muito importante e que é a sua missão maior, educar os alunos para esta nova realidade. E educar os alunos será também educar as suas famílias.

 

O que de continuidade ou de inovador, em termos de funcionamento das escolas com ensino presencial, a Câmara irá implementar neste novo ano letivo?

Este ano vamos ter de repensar muitos dos projetos que faziam parte do nosso projeto educativo local. O “Reconhecer Guimarães” com as visitas de estudo aos monumentos de Guimarães ficará em suspenso até vermos como corre a pandemia! Este projeto funciona já desde 2014, em continuidade e preocupa-nos muito que esteja suspenso já desde março. Conhecer o nosso território, a nossa história, os nossos monumentos, é fundamental para um cidadão vimaranense e cosmopolita.

O projeto “Pergunta ao Tempo”, em articulação com a Casa da Memória virou projeto “Cápsula do Tempo”. As idas constantes ao teatro, no âmbito do “Maistrês” será também difícil de manter pelo que estamos neste momento a fazer gravações de algumas peças de teatro que serão apresentadas em ambiente digital.

O projeto desportivo “Petizes Felizes” que levava várias modalidades de desporto a todos os alunos do 1º ciclo, como o judo, a ginástica, a patinagem ou o andebol, está suspenso até percebermos as limitações que a DGS está a impor.

Continuaremos numa forte aposta dos projetos que já usavam o meio digital como o “Hypatiamat” (matemática para o 1º ciclo), a Plataforma “Mais Sucesso” (com conteúdos de Estudo do Meio e de Cidadania), o “No Poupar é que Está o Ganho”, totalmente digital e em articulação com a Fundação Cupertino de Miranda.

 

Como será gerida a questão dos transportes escolares? O que está previsto para os casos em que os alunos tenham transporte, por exemplo, às 8h e somente tenham aulas às 11h? Onde ficam esses alunos?

A questão dos transportes é uma questão que nos preocupa e que estamos a gerir com o maior cuidado e atenção. Foi solicitado a cada escola que nos indicasse os horários dos alunos que necessitam de transporte para que a respetiva empresa se organize para respeitar as regras da lotação máxima (cada autocarro não pode levar mais de 2/3 da sua lotação) e para que o tempo de espera seja o menor possível. Claro que esta situação é ainda mais complicada para os alunos das zonas mais afastadas, há menos crianças e menos transportes. O mesmo se passa com os alunos transportados por táxi, agora a lotação é inferior e levanta imensos problemas. Mas tudo estamos a fazer para garantir este cumprimento porque se trata duma questão de saúde pública. Sabemos também que os custos com os transportes vão ser bastante maiores e esperamos que o governo saiba reconhecer este esforço adicional que os municípios estão a fazer.

 

As escolas vão ter funcionários suficientes para um eventual acréscimo de trabalho?

O município de Guimarães tem já um número maior de funcionários nas escolas, já não se limita ao rácio protocolado com o Ministério, pois sabe que este não é suficiente. Tendo em conta toda a situação estamos a fazer ainda um reforço maior, estamos a terminar um concurso para que tenhamos capacidade de dar uma resposta positiva à necessidade das escolas, principalmente nesta fase. Sabemos que há intervalos desfasados, almoços desfasados, espaços diferenciados para os recreios, maior controlo nas entradas das escolas, o que significa uma maior necessidade de funcionários.

 

Estão, desde já, previstas as medidas a seguir caso as escolas sejam obrigadas a seguir um caminho misto ou mesmo à distância?

Penso que o pré-escolar e o 1º ciclo não voltarão ao ensino à distância, só numa situação de descontrolo total da pandemia, o que espero não aconteça. O que pode acontecer são pequenos surtos que podem obrigar algumas turmas a ficar em quarentena. E aí temos capacidade para implementar o ensino à distância, com capacidade de equipamentos e já com um à vontade de professores e alunos.

No 3º ciclo e secundário pode haver mais necessidade de se voltar a implementar o ensino à distância, primeiro porque são escolas maiores, mais difíceis de gerir, com adolescentes que podem ser menos cumpridores das regras comportamentais que a COVID nos exige. Por outro lado, estes alunos são mais velhos, mais autónomos, mais capazes de aproveitar as potencialidades do ensino à distância.

Mas não acredito que esta situação se coloque, penso que vamos saber ser responsáveis, cumprir todas as orientações e ter um ano letivo mais fechado na escola, mais limitado nos estímulos, mais fechado na sala de aula e no grupo turma, mas um ano letivo que se vai pautar por outras aprendizagens e por comportamentos que vão ser muito corretos e responsáveis! Todos sabemos, e os alunos também, que o encerramento das escolas significa milhões de pessoas em casa sem trabalhar, sem produzir e que a economia do país não aguenta. Vamos saber lidar com isto e a escola será crucial para ganharmos esta batalha.

 

A Carta Educativa que está a ser atualizada já terá em conta esta nova realidade?

A Carta Educativa está a ser atualizada e agora com novos indicadores. A questão do acesso à Internet, dos equipamentos tecnológicos, da literacia dos pais, do número de alunos por turma tem hoje um significado diferente. De repente tudo mudou. Hoje as escolas mais pequenas, mais periféricas oferecem outras condições: menos alunos por turma permitindo cumprir o distanciamento social, menos ajuntamentos, mais espaços de recreio para dividir pelos alunos, menos problemas na hora do almoço, mais fácil a higienização dos espaços. Este é já um olhar diferente que a Carta Educativa não pode deixar de incorporar nas discussões e nos levantamentos que está a fazer!