A emigração já não é a mesma, mantém-se a vontade do regresso a Portugal
A emigração já não é a mesma, mantém-se a vontade do regresso a Portugal
Paulo Dumas
Sexta-feira, Agosto 10, 2018

Manuel Freitas e José Rodrigues estão entre as dezenas de jogadores de petanca que se juntam diariamente no parque de lazer de Caldas das Taipas. Como muitos outros foram emigrantes em França. Um tipo de emigração diferente da geração dos “entroikados”.

Agosto tem um movimento próprio. Nos primeiros dias do mês vai-se notando com maior intensidade a presença dos emigrantes portugueses.

O som que se ouve nas esplanadas é diferente. Misturam-se os idiomas. Há gente com camisas de manga cava, muitas camisolas da seleção portuguesa, pessoas de calções e chinelos de praia.

As segundas-feiras, dia de feira semanal, são melhores em agosto. Pelo menos a ter em conta com a quantidade extraordinária de freguesia que se passeia entre as tendas, inigualável em qualquer outra altura do ano.

Há aldeias que se enchem de gente apenas no mês de agosto. A população da freguesia de Caldas das Taipas não está tão dependente desta população flutuante que chega no início de agosto e parte no final do mês. Mas se formos a freguesias como Longos, onde é grande e representativa a percentagem de emigrantes, as mudanças são mais notadas.

O saldo migratório é uma componente do balanço da população num território e consiste na diferença entre a população que vai para outros países e a população que o país recebe, vinda de outros países.

A outra variável é o saldo natural, entre o número de nascimentos e o número de óbitos. A população portuguesa resulta da soma destes dois saldos. A população portuguesa não se renova desde os anos 1980. Segundo um estudo demográfico da Fundação Francisco Manuel dos Santos, seriam necessários mais 54.500 nascimentos do que os atuais 85 mil registados, para que as gerações se renovassem naturalmente. Neste cenário, a balança migratória assume uma importância vital no desenvolvimento do país.

De acordo com dados do INE, trabalhados pelo portal PORDATA, em 2017 o saldo da população portuguesa foi negativo, com a perda de 18.500 habitantes. A maior quebra foi no saldo natural com menos 23,4 mil habitantes. O saldo migratório serviu de atenuante à perda de população, com a entrada no país de 5 mil indivíduos.

Portugal sempre foi um país de migrações. Nos últimos cem anos, o país assistiu a diversas vagas migratórias. Em meados do século passado emigrava-se para fugir à miséria que grassava o país. A partir de 2004, com o quinto alargamento da União Europeia, o país recebeu muitos imigrantes, vindos na sua maioria de países de Leste, como a Ucrânia. Ainda hoje, a Ucrânia, juntamente com o Brasil e Cabo Verde, são os países de onde veio o maior número de cidadãos estrangeiros que adquiriram a nacionalidade portuguesa.

Mais recentemente, com a última grande crise económica à escala mundial, muitos portugueses viram-se obrigados (e convidados) a procurar melhores condições fora do seu país. Um pico registado em 2013, quando 54 mil portugueses emigraram.

França foi o destino de muitos portugueses, durante a segunda metade do século XX. Para encontrar quem tenha emigrado para este país basta ir até ao parque de lazer, onde se joga petanca, passatempo importado daquele país.

Manuel Freitas (à esquerda) e José Rodrigues (à direita) foram emigrantes em França. Atualmente gozam o tempo de reforma em Portugal.

Foi lá que nos encontramos com Manuel Freitas, 65 anos e José Rodrigues, que faz 70 anos em outubro. Estão definitivamente em Portugal desde 2013.

Ambos partiram na procura por melhores condições de vida. Manuel Freitas saiu com o pai, em 1968, tinha 13 anos. José Rodrigues emigrou em 1973.

Fazem parte de uma geração que partiu numa altura em que Portugal vivia em regime ditatorial e as condições de vida eram miseráveis. A vida não foi fácil quando chegaram a França. Manuel começou por trabalhar na instalação de saneamento básico e José trabalhou na construção de estradas. Mas não falam com rancor do país que os acolheu. “Aqui não tinha nada e tudo o que consegui foi em França”, diz-nos de pronto José Rodrigues.

Quando emigrados, sempre visitaram o país e nunca pensaram em ficar em França depois da reforma. Hoje o tempo é distribuído de forma inversa. Passam cá a maior parte do ano e vão a França de vez em quando para visitar a família. Ambos têm filhos, nascidos em França. As relações que têm com Portugal são ténues. Os filhos de Manuel visitam o país para passar férias todos os anos.

Coisa certa é que nenhum dos descendentes destes dois emigrantes portugueses tem Portugal nos seus planos de vida. Em termos de realização pessoal e profissional, França continua a oferecer mais oportunidades para ter uma vida melhor, do que alguma vez teriam em Portugal.

Quanto aos nossos interlocutores, não trocam o país por nada. Manuel Freitas diz-nos em tom de brincadeira que Portugal também tem bom queijo e bom vinho. Já José Rodrigues diz-nos que sempre que tem saudades de França vai lá, o que faz amiúde. Continua a gostar do país porque, diz, “foi o país que deu tudo o que precisava” para ter a vida que tem hoje.

Ambos acabaram por ter profissões muito parecidas, conduzindo veículos pesados.

Há uma geração mais nova de portugueses que continua num vai e vem. Hoje há mais facilidade em viajar e as vindas a Portugal tornaram-se mais frequentes. São emigrantes que partiram já depois de 1974, normalmente seguindo as pisadas de alguém que conheciam no país de acolhimento – além da França, a Alemanha, a Suíça e os Estados Unidos da América.

A crise económica fez-se sentir em Portugal a partir de 2010. Foi nessa altura que os chamados “entroikados” constituíram a última vaga de emigração sistemática registada em Portugal. Era também “a geração mais bem preparada de portugueses” e o trabalho que procuravam fora de Portugal era mais qualificado, como enfermeiros, engenheiros e arquitetos.

Eduardo Sousa é natural de Sande (S. Martinho) e está desde 2011 em Londres, onde trabalha como gerente num bar especializado em whisky, em pleno Soho, no centro da cidade. As circunstâncias da saída do Eduardo são diferentes, mas as motivações são as mesmas – procurar oportunidades e condições de vida que não encontrava em Portugal. Resolveu aceitar o convite do então primeiro-ministro, diz-nos.

Eduardo Sousa foi para Londres em 2011. Gere um bar especializado em whisky no Soho.

Hoje, diz-se perfeitamente integrado. Financeiramente está satisfeito e diz-se compensado com a vida que consegue ter, sem ter recorrido a qualquer favor ou “cunha”, como se costuma dizer, algo que nunca alcançaria no seu país natal.

Sente-se um “imigrante puro”, que regressa a Portugal para gozar férias, aproveitando para visitar os seus locais favoritos e estar com os amigos e a família. Um dia espera poder ter condições para regressar a Portugal.

É um padrão que se vai repetindo na história de Portugal, país localizado entre o Atlântico e uma Europa ainda muito diferente entre si.

E há também o Mediterrâneo que tem sido a razão para que as migrações sejam assunto para notícias nos jornais pelos piores motivos, numa Europa que tem tido muitas dificuldades em lidar com um fenómeno que se confunde com a história da Humanidade. A mesma Humanidade que consegue os mais fantásticos avanços, mas não consegue encontrar soluções para os problemas que afligem a sua própria existência.