PUB
Educação e civísmo
Sexta-feira, Setembro 1, 2000

Em casa, não atiramos lixo (cascas, papéis…) para o chão, mas fazemo-lo na rua. Porquê? Falta de civismo! A «guerra ao palavrão» faz-se na escola… e em casa? Não é bonito, não se é educado quando se dizem palavrões, mas o que é que se ouve nas nossas estradas, nos nossos estádios de futebol, nas mesas dos cafés que todos frequentamos? Palavrões a torto e a direito e a toda a hora. Porquê? Como escape? Então porquê dar-lhe tanta importância noutros contextos? E chegamos ao cúmulo de berrar com os nossos filhos por dizerem palavrões em Português e o último CD que lhes oferecemos está cheio deles em Inglês!!

Lá fora o calor aperta.
Dentro do carro, o ar condicionado refresca o ambiente, tornando-o suave e acolhedor. A voz da cantora, quente e insinuante, preenche todos os cantos e recantos físicos e psíquicos da situação. Trauteio entre dentes a canção romântica (bem anos 60!) que me leva ao passado.

Todavia, uma barulheira infernal envolve-me, traz-me ao presente e, quase me enlouquecendo, força-me a uma atenção redobrada à estrada.

Quatro motonas ladeiam o meu carro e os que me precedem ou seguem na fila que, entretanto, se começara a formar. Meninos «bem» que se portam mal, motoqueiros das estradas a que a viseira do capacete, elmo de guerreiro do século XX, não permite espionar o rosto. Entre gargalhadas, ditos e dichotes vão avançando à força dos cavalos, abrandando, ziguezagueando por entre o tráfego que se obriga a parar, a abrandar, a olhar incessantemente para todos os lados, pois que surgem de onde menos se espera – da direita, da esquerda, de trás,… impedindo as viaturas mais afoitas de ultrapassarem as mais lentas…

Os nervos esfrangalhados dos condutores, enervados pela fila que se espreguiça vagarosamente a 20 km/h, pelo calor sufocante que uma bruma enevoada traz consigo e por uma tal falta de educação e de civismo, fazem-me prever o pior. A calmaria que antecede a borrasca!!

Os acordes iniciais da 9ª desviam por momentos a minha atenção para a música. Que harmonia! Que beleza! Como é que um surdo conseguiu compor tamanho monumento musical? Impaciente, desligo o rádio. Nem Beethowen me pode valer e sempre é melhor não correr o risco de me deixar envolver pela imponência da Sinfonia.

Olho irritada para o Fiat que ainda atrasa mais a marcha. Dentro, um casal de pombinhos arrulha, sem se deixar incomodar pelo trânsito. Só me faltava mais esta!

Preparo-me para o ultrapassar, mas a ronqueira de uma delas do meu lado direito faz-me suspender a manobra.

Ainda bem, porque quase me tocando no farol direito, faz um S, põe-se à minha frente e faz que ultrapassa o Fiat, colando-se do seu lado esquerdo, mesmo junto do vidro do condutor. Até eu começo a ficar irritada com tanta irreverência , com tanta inconsciência! Ainda por cima, nesta vão dois e a rapariga, quase nua, enganchada atrás, parece deliciar-se com as manobras descabidas do rapaz. Que idade mais idiota!

Suspiro e vem-me à ideia o pensamento de que estou a ficar velha. Vasculho na gaveta das minhas lembranças, mas não encontro nenhuma atitude que se pareça com esta. Diferenças de educação! Mais uma vez a palavra chave- educação- «O que há hoje é uma falta de empenhamento dos educadores- pais, família, professores- na educação dos jovens. Depois é o que se vê!» como diria a minha mãe. Mas será realmente isso? Tenho a certeza de que todos nós tentamos ensinar aos nossos rebentos as mais elementares regras de educação e de civismo. No entanto, os alunos riscam as mesas e destroem as cadeiras… Será que fazem isso em casa? Um adulto não cospe para o chão em casa, mas fá-lo na rua. Porquê? Falta de civismo! Em casa, não atiramos lixo (cascas, papéis…) para o chão, mas fazemo-lo na rua. Porquê? Falta de civismo! A «guerra ao palavrão» faz-se na escola… e em casa? Não é bonito, não se é educado quando se dizem palavrões, mas o que é que se ouve nas nossas estradas, nos nossos estádios de futebol, nas mesas dos cafés que todos frequentamos? Palavrões a torto e a direito e a toda a hora. Porquê? Como escape? Então porquê dar-lhe tanta importância noutros contextos? E chegamos ao cúmulo de berrar com os nossos filhos por dizerem palavrões em Português e o último CD que lhes oferecemos está cheio deles em Inglês!!

Será que é moda? A falta de civismo ou da chamada «educação» será a maneira que o Homem encontrou para combater o stress? A reivindicação, a greve não serão outras formas de forçar o sistema a dar-nos o que queremos? Será que o Homem perdeu o seu poder de adaptação à realidade ou a velocidade a que as coisas mudam está a ser demasiada para que ele a possa acompanhar? Será que o Homem é que vai ter o fatídico BUG que a todos assustava? Pior ainda, será que a previsão dos ficcionistas está certa e as máquinas dominarão o Homem?

De uma coisa estou segura. O ronco da máquina que por pouco me batia no farol do lado direito deixou-me sem pinga de sangue. Entretida nestas considerações filosóficas que não levam a lado nenhum, por momentos abstivera-me do motoqueiro que teimava em ultrapassar-me pela direita, mesmo em cima de uma curva apertada. Os outros já lá vão mais adiante, mas aquele está atrasado. No braço esquerdo, uma tatuagem desde a omoplata até ao cotovelo representa uma sereia, enquanto o blusão de couro me manda «àquela parte» em Inglês. Lindo ! Que bela figura! Deixei-o passar, não fosse esbarrar-me, quando um sinal seu me espantou ao perceber que me pedia desculpa. Afinal, nem tudo estava perdido.

O mundo terá de aceitar estas novas imagens e esperar que esta geração, à semelhança da que a antecedeu, venha a ganhar juízo com o passar dos anos. A geração dos anos 60, à qual pertenço, enlouqueceu os pais com as minis, as maxis, os cabelos compridos, os Beatles, o rock’n roll, … e todas as demais manifestações de inquietude e de desassossego daquela juventude contestatária que revolucionou o mundo. Hoje, trinta e tal anos depois, esses cabeludos do «make love not war» comandam os destinos das nações e andam de fato e gravata. Com a entrada no novo milénio e face à evolução da técnica e da ciência, esta juventude contesta utilizando as formas típicas do seu tempo (os piercings, por exemplo, fazem-me pele de galinha!) e fazendo a cabeça em água à geração anterior.

É o ritual da continuidade, do prolongamento do Homem, da construção da História, que se repete desde que o Homem é Homem. E, no meio de tudo isto, há que encaixar a educação e o civismo, adaptando-os ao tempo que corre, pois nada é imutável.

E com este mote, desejo-lhe umas Boas Férias esperando que, onde quer que vá, tome sempre as atitudes mais cívicas que deixarão uma boa imagem de si e do país de origem- Portugal.

Boas Férias!