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E o legado?
Quinta-feira, Novembro 21, 2019

Li o título frio, tão frio como estas manhãs de Novembro: morreu José Mário Branco. Tardei uns minutos para confirmar que não se tratava de um erro ou de uma das cada vez mais costumeiras notícias falsas que nos assaltam os dias. José Mário Branco morreu.

Antes de me emocionar com a triste novidade, antes de voltar a ouvir as canções de que realmente nunca me desligo, ocupei a memória com uma imagem. Era um domingo e tinha ido comprar pão a um desses lugares estranhos que são padaria, pizzaria, snack-bar e o que mais calhar. Numa das mesas à entrada encontrei José Mário Branco. Estava acompanhado por Carlos Nobre (Pacman na altura, hoje Carlão) e comiam pizza, enquanto conversavam em voz baixa.

Foram precisos uns instantes para que percebesse o que faria o maior escritor de canções português vivo a almoçar num lugar tão improvável e à porta de minha casa. Era ainda o início de 2012 e não nos tínhamos acostumado por completo à ideia de que esta cidade pequena podia, afinal, ser habitada por artistas todos os dias. Por alguns dos maiores. Neste caso, pelo maior de todos.

José Mário Branco trabalhava nessa altura com a Outra Voz, o mais bonito e duradouro projecto saído de 2012, e, ao longo de mais de um ano, cruzou-se com as centenas de pessoas desse grupo e com vários outros músicos vimaranenses. Essa será uma memória muito viva em todos eles e o legado da sua passagem por cá, por certo, não se apagará tão cedo.

Contudo, quando um dia quisermos fazer a história da passagem de José Mário Branco por Guimarães, além dessas memórias (sempre falíveis), a que mais podemos recorrer? Fiz uma pesquisa online na manhã em que soubemos da sua morte e são escassíssimas as referências ao trabalho que o músico e compositor desenvolveu neste território durante a Capital Europeia da Cultura. Um céptico – ou um cínico – poderiam até argumentar que esse trabalho nunca aconteceu.

O Município emitiu uma justa nota de pesar em que faz referência a esta passagem de José Mário Branco pela cidade, em 2012. Mas o que está em causa não é a recordação em momentos evidentes; é antes a possibilidade de contarmos esta história todo o tempo.

Caso contrário, onde fica o legado de 2012 e a obrigação colectiva que temos de o preservar?

Uns dias antes, tinha sido uma entrevista publicada na The Happy Reader a outro nome maior, Laurie Anderson, a levar-me de volta a esse ano extraordinário. Foi um dia depois do meu aniversário e eu achava que me lembrava (a memória, sempre falível) de um palco cheio de pequenos pontos de luz, como uma galáxia. Não tive como confirmar. Online, não há uma única imagem que registe a passagem de uma das mais inquietantes artistas contemporâneas pela cidade. E elas existem, bem o sei. Só que não estão disponíveis.

É talvez essa a maior frustração. No momento em que queremos lembrar gigantes como José Mário Branco ou Laurie Anderson por cá, ou os projectos que eram ainda pequenos e resultaram em algo maior anos depois, faltam-nos as ferramentas. E, quem for conhecedor do processo, sabe que Guimarães gastou recursos a manter uma equipa, meses depois do final da Capital da Cultura, para organizar o arquivo do evento e disponibilizá-lo online. Onde o encontramos hoje? E a quem interessa que dele nos esqueçamos?