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E o legado? (II)
Quinta-feira, Dezembro 19, 2019

No último texto neste espaço questionava o que ficou do legado de Guimarães 2012. A questão crítica está no facto de, ao olhar para trás – para as promessas feitas antes do evento e as expectativas criadas por este – alguma coisa ter ficado por cumprir. É isso que causa a sensação amarga e doce sobre a qual escrevia, também aqui, há um ano. Retomo essa reflexão, porque tenho tentado perceber como chegamos até aqui.

Faço duas ressalvas, à laia de ponto prévio. O primeiro para reconhecer que há, em lugares-chave, novos e velhos resistentes, que têm feito um trabalho louvável de defesa do projecto de Guimarães como cidade que se afirma na Europa pela cultura e as artes. O segundo, para me posicionar entre os que, ainda que assumindo uma posição crítica, fazem um balanço claramente positivo do que foi 2012.

O ponto é este: o efeito de 2012 sobre a cidade não é tão intenso como chegámos a desejar. Há, em meu entender, três aspectos que o ajudam a explicar.

Primeiro, a arquitectura do projecto. O encantamento inicial e a falta de experiência nestas andanças foram responsáveis por uma montagem equívoca da estrutura que liderou a Guimarães 2012. A correcção de trajectória, bem perto do início do evento, salvou o que foi possível salvar. Mas no meio de todos os problemas, perderam-se critérios. Desde logo nas contratações de quem trabalhou na estrutura.

É evidente que era necessário chamar alguns dos melhores a trabalhar a partir de Guimarães. Mas também era suposto ter havido uma preocupação de colocar vimaranenses em lugares que permitissem qualificá-los e deixar um lastro de experiência no tecido cultural local. O facto de os poucos vimaranenses que trabalharam efectivamente no projecto terem feito, desde então, um caminho de afirmação no meio artístico, sublinha bem o impacto que poderia ter existido se este critério tivesse sido prioritário.

Na “ressaca” de 2012, muitos dos que tinham ajudado a concretizar o projecto saíram de Guimarães. Ou porque sempre foi esse o seu fito – sobretudo se com a cidade não tinham relação anterior – ou porque a cidade não foi capaz de criar as condições para os manter por aqui.

Em segundo lugar, quem ficou de fora. Por maior que fosse a retórica de envolvimento da Guimarães 2012, um processo como este deixa sempre à margem – ou, pelo menos, com um nível de envolvimento inferior ao que gostaria – um ou outro indivíduo, uma ou outra instituição. Isso também aconteceu em 2012 e gerou anti-corpos em relação ao projecto cultural em vários sectores locais que nunca deixaram de ser sentidos durante o processo e que se agudizaram nos anos seguintes – o que foi ainda mais evidente quando alguns dos excluídos foram ganhando novo poder de decisão e não se furtaram a acertar contas com o passado.

Por último, quem nunca percebeu. Há um terceiro grupo que, por falta de sensibilidade ou simples desinteresse, nunca entendeu o que era Guimarães 2012. E o que a cidade podia ter sido se tivesse aproveitado por inteiro a oportunidade que estava à sua frente. A muitas pessoas é preciso contar uma história que tem mais de 20 anos para que perceberam o caminho feito e os frutos que foi possível colher.

É talvez a pensar nessas pessoas que sou muitas vezes repetitivo neste espaço. Mas sinto que é preciso repetir o óbvio: não houve nenhum outro campo em que Guimarães se tenha posicionado internacionalmente ao mesmo nível que foi capaz de fazer na Cultura. Quando alguns destes agentes estão em lugares de decisão, percebe-se o potencial de catástrofe.