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Duas mulheres que marcam
Quinta-feira, Junho 27, 2019

Não tenho por hábito dar grande atenção às distinções honoríficas que a autarquia atribui por ocasião do feriado municipal. No mais das vezes, estes são momentos ritualísticos, que têm uma intenção política, mas pouco ou nada dizem à generalidade dos cidadãos. Este ano, porém, a lista de medalhados do 24 de Junho tocou-me de modo particular.

Sem desmerecer os restantes laureados, faço este sublinhado porque Guimarães entendeu desta vez premiar duas mulheres que em muito contribuíram para o percurso que tenho tido e para a forma como me relaciono com a cultura e as artes: a antiga vereadora da Cultura Francisca Abreu e a directora do Paço dos Duques de Bragança e Museu de Alberto Sampaio, Isabel Fernandes.

Digo muitas vezes que tive a sorte de nascer em Guimarães. Não é uma afirmação bairrista. É a constatação de um facto que nem sequer tem a ver com um apego às minhas raízes. Antes com a valorização do que tem sido a proposta mais relevante da cidade contemporânea: a valorização da Cultura. Cresci nesta cidade entre os finais dos anos 1990 e os primeiros anos do novo século, um tempo de afirmação de uma política pública de acesso às artes que moldou de forma indelével os meus gostos, a minha atenção e a minha forma de participação cívica.

Poderia perfeitamente ter nascido com as mesmas condições individuais, ter tido a mesma base familiar, e o meu caminho teria sido completamente distinto se tivesse crescido noutra cidade – ou nesta mesma cidade, num outro tempo ou com outras opções políticas. Francisca Abreu foi a principal agente política dessa ideia para o território que garantia um acesso facilitado à cultura contemporânea de grande qualidade. Devemos-lhe esse reconhecimento.

Um dia que se faça a história de Guimarães na transição do século, o mérito de Francisca Abreu talvez fique mais claro. Foi ela quem teve a capacidade – e força política – para convencer um executivo que não tinha sensibilidade para o tema a anuir a tornar a Cultura uma bandeira da sua actuação. Não era uma opção óbvia. Mais de duas décadas depois, é preciso continuar este trabalho.

Com Isabel Fernandes tenho uma ligação mais pessoal, devo dizê-lo, que se estabeleceu pelo facto de ter tido com os seus filhos algumas das amizades mais significativas da minha adolescência e juventude. Mas o que vale esta nota pública do meu apreço pelo seu trabalho foi a forma e aquilo que ela foi capaz de fazer com o Museu de Alberto Sampaio.

Isabel Fernandes mostrou-me que um museu deve ser um espaço de portas abertas à comunidade. Um sítio onde se pode brincar e aprender – viver também. Tanto que o Museu de Alberto Sampaio se tornou muitas vezes a minha segunda casa. E isso é um privilégio imenso.

Numa cidade tantas vezes sorumbática como é Guimarães, com instituições tão pesadas, a forma de liderança de Isabel Fernandes foi uma lufada de ar fresco. E com isso mudou a forma como mais do que uma geração se relacionou com os espaços de cultura. Não é coisa pouca.