…do nacional estrangeirismo
Quarta-feira, Outubro 2, 2002

Seria isso algo de muito positivo se, ao mesmo tempo, demonstrássemos pela Língua Portuguesa o mesmo encanto com que abrimos a boca a outras pronúncias e idiomas. Nesta questão estou particularmente à vontade pois, como se sabe, o Português não é a minha língua materna. Não se trata, pois, de uma posição glotoxenófoba, mas antes de apreço pela diversidade. É respeitando aquilo que somos que melhor apreciaremos a identidade dos outros e a língua é, sem dúvida, um dos elementos fundacionais desse edifício identitário.
Ora, a “nossa magna língua portuguesa”, como lhe chamou Fernando Pessoa, está particularmente sujeita ao desprezo dos seus falantes, mesmo aqueles com mais responsabilidades culturais e políticas. Não há muito tempo que, segundo me foi dado ver pela televisão, a nossa Ministra das Finanças apresentou, num Colóquio realizado em Portugal, a sua comunicação em inglês. Talvez isso não choque a maioria dos portugueses. Contudo, para quem tem por missão divulgar a língua e cultura portuguesas no estrangeiro, cada vez que um governante português aparece na televisão a falar inglês, espanhol (portunhol!) ou francês é uma machadada no nosso trabalho de ensinar que em Portugal não se fala espanhol, que o português é a terceira língua europeia mais falada no Mundo, a sexta língua materna a nível mundial (depois do mandarim, do espanhol, do inglês, do bengali e do hindi), uma língua presente em todos os continentes e que une um universo de 200 milhões de locutores.
Saberá a Ministra das Finanças que, para além do valor filológico, etnográfico e antropológico, para além de ser o capital simbólico mais importante de uma comunidade, a língua representa também um capital económico que é necessário saber multiplicar? Ao utilizar o inglês, em Portugal, dá razão àqueles que, ignorando a importância das línguas na génese e na diversidade das culturas, defendem a existência de uma língua única (que seria o inglês, ou melhor, o “americano”). O plurilinguismo, tal como o multiculturalismo não é uma doença, é uma riqueza.
Sobre a questão da língua única, Eduardo Lourenço escreve que, uma vez perdida a hegemonia do francês, motivada pelo apagamento da França como primeira potência política e ideológica, também não será o inglês a ter esse papel. Pelo contrário, uma língua única na europa esmagaria o imaginário europeu, onde a diversidade de culturas constitui a nossa matriz e a nossa maior riqueza.
Escreve o ensaísta que o inglês é, por natureza, pouco dado aos sonhos identitários, e mesmo que o tenha sido, o seu papel mediador entre as culturas europeias voltar-se-ia contra o sonho de uma construção europeia digna desse nome. Aliás, conclui, é enquanto expressão da cultura americana, da sua vontade de poder, do seu imaginário, que há muito tempo, depois da Primeira Guerra Mundial, o “inglês” se tornou a língua de comunicação também na Europa.
A discussão sobre o lugar das línguas revela, por outro lado, o conceito, o poder e a imagem dos povos ou das nações que as falam. Ora, a nossa responsabilidade histórica para com os países que, corajosamente, adoptaram o idioma de Camões como língua oficial, encontra um sério revés neste pedantismo saloio que mais não faz do que dissolver a nossa identidade numa subserviência provinciana que nem sequer é uma imposição externa. Ninguém, do exterior, pode impor uma língua. Adoptar o inglês significa apenas a derrota interna da nossa cultura, a denegação da nossa memória e da nossa identidade que, mais do que por qualquer outro instrumento, é alimentado pela língua.
Para concluir deixo estes versos de Natália Correia, do seu poema Língua mater dolorosa. Sirvam eles de deleite e de reflexão. Para que saibamos apreciar a nossa língua de outra forma que não seja guisada com ervilhas:

Tu, que foste do Lácio
a flor do pinho
dos trovadores
a leda bem-amada
de oito séculos a cal
o pão e o vinho
[…]
eis-te bobo
da corja coribântica:
a canalha apedreja-te
a semântica
e os teus verbos feridos
vão de maca.

Já não és glote és cascalho
és malho és míngua,
de brisa barco
e bronze foste a língua;
língua serás ainda…
mas de vaca.

Nice, 26 de Setembro de 2002
Por António Bárbolo