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Dois Mil e Dezassete
Segunda-feira, Fevereiro 6, 2017

Recentemente, Mil Novecentos e Oitenta e Quatro (1984), da autoria de George Orwell, pseudónimo literário de Eric Blair (1903 – 1950), saltou de forma inesperada para o topo de várias listas de livros mais vendidos nos EUA devido a uma polémica envolvendo o número de pessoas presentes na cerimónia de tomada de posse do Presidente Donald Trump.

Numa entrevista concedida à cadeia de televisão NBC, Kellyane Conway, a directora de campanha tornada conselheira presidencial, quando confrontada com as declarações do porta-voz da Casa Branca, Sean Spicer, em que este havia defendido que a tomada de posse do Presidente Trump fora a mais concorrida da história do país (entretanto tinham surgido fotos que desmentiam a posição da Casa Branca), defendeu a versão do seu colega, dizendo que a Casa Branca se limitara a apresentar “factos alternativos”. Este facto, por sua vez, fez com que surgissem de imediato variadíssimas referências ao livro 1984 e originou a subsequente corrida às livrarias.

De facto, começa a ser tradição o recurso a esta obra de Orwell em tempos de crise democrática, particularmente nos EUA. Algo similar tinha acontecido durante as revelações de Edward Snowden, em 2013. No entanto, a ressurgência de 1984 parece-nos sobretudo interessante devido ao que esta sugere sobre o actual estado de espírito dos norte-americanos, que parecem procurar em 1984 – e em outras obras do mesmo subgénero literário, a distopia – formas de compreender uma realidade que cada vez mais escapa a qualquer tentativa de compreensão. Aliás, já houve quem sugerisse que este estado de espírito é ele mesmo distópico.

No livro A Vitória de Orwell, o falecido escritor e jornalista britânico Christopher Hitchens, que muita falta nos faz perante a actual estado de coisas nos EUA, definiu o legado de Orwell através da seguinte tríade: verdade, objectividade e verificação. Tal como tem sido notado, esta tríade funciona de maneira bastante apropriada como negativo dos princípios impostos pelo Partido em 1984. Assim, a «novilíngua» impede a verdade; o «duplopensar» reduz o pensamento à mais cruel e aleatória subjectividade; e a «mutabilidade do passado» anula qualquer possibilidade de verificação.

Estes três princípios são facilmente aplicáveis ao fenómeno Trump. Desde os esquizofrénicos “factos alternativos,” que mais não são do que mentiras; passando pela simplificação discursiva praticada pelo próprio Donald Trump, notavelmente no Twitter, com uso recorrente de termos como “sad” em frases de uma só palavra, de qualificativos pejorativos como “little” aplicados a variadíssimas pessoas ou justapondo termos insultuosos aos nomes dos seus adversários políticos directos (“Lyin’ Ted,” “Crooked Hillary”); e terminando com acusações de mentiroso a todos os que desmascaram as suas mentiras e classificando como “fake news” as notícias que não são do seu agrado. Por tudo isto e muito mais, Trump causou o aviltamento total do discurso político norte-americano. De facto, apesar das suas notórias limitações, Trump parece há muito ter percebido um facto fundamental que se encontra manifesto em 1984: O acto de falsificar a realidade é uma manifestação de poder. Tal como se diz repetidamente em 1984, quem controla o passado, controla o futuro; e quem controla o presente, controla o passado. É difícil não encontrar aqui o eco do slogan da campanha de Donald Trump, «Make America Great Again», que é ele mesmo um acto de reescrita do passado norte-americano, remetendo-nos para uns EUA idílicos, suspensos no tempo como as flores e as plantas nos Jardins da Babilónia. Pelo que se impõe a pergunta: Quando é que os EUA foram “great”? Durante os tempos da escravatura? Quando os afro-americanos eram legalmente livres mas se viam repetidamente espoliados dos seus direitos cívicos? Quando as mulheres não podiam decidir o que fazer com o seu corpo? Durante os tempos de guerra? A resposta é: não foram. Os EUA foram e são um país essencialmente contraditório, simultaneamente capaz do melhor e do pior – capaz, por um lado, de sacrifícios enormes para ajudar a Europa a combater o fascismo e, por outro, num mesmo tempo, de violentar parte da sua população; capaz dos mais extraordinários avanços tecnológicos enquanto faz guerra por causa de interesses económicos. É sobretudo por isto que uma visão maniqueísta dos EUA, um desporto bastante popular em Portugal, é totalmente inadequada.

No ensaio “A Política e a Língua Inglesa”, Orwell reflecte sobre a relação entre língua e pensamento. Para ele, a língua surge sempre como expressão directa do pensamento. Se aquela é feia ou corrupta, então é porque este é feio e corrupto. No entanto, Orwell não confere uma posição hegemónica a nenhum dos dois. Pelo contrário, o escritor britânico considera que língua e pensamento se influenciam mutuamente. Desta forma, tanto pode o pensamento corromper a língua como pode a língua corromper o pensamento. A boa notícia é que, segundo Orwell, o processo é reversível – com uma melhor linguagem, é possível pensar melhor. E a má, tal como se verifica através da existência do Presidente Donald Trump, é que a boa não tem de maneira nenhuma acontecido. Posto isto, convém deixar claro que Trump não é a doença, mas o sintoma. O caminho que o levou ao poder foi aberto por muitos outros, não apenas do Partido Republicano. É um facto que Trump e a sua trupe têm-se alimentado vorazmente de mentiras, desprezando não só a verdade, mas também quaisquer valores éticos e morais, trocando a instabilidade da verdade científica pela certeza da demagogia (aquecimento global), substituindo a evidência dos factos pela ofuscação do fanatismo (taxas de crime, economia). Aliás, a mentira como agente político do fenómeno Trump precede a própria campanha eleitoral, tal como se confirma através da polémica “birther”, que defendia que o então Presidente Barack Obama não tinha nascido nos EUA. De resto, Trump fez toda a campanha desta forma, mentindo, sendo inconsistente, insultuoso e imprevisível. Tal como salientou Adam Gopnik, esta é a política dele. Foi assim que ele chegou ao poder. E agora ninguém tem o direito de se mostrar surpreendido. Contrariando a sabedoria popular portuguesa, a mentira nos EUA não parece ter perna curta. Ao invés, a mentira, na era Trump, mais parece um velocista de uma ilha do Mar das Caraíbas.

Quanto aos que pensam que têm Trump sob controlo, bem, há na história pelo menos um bom exemplo de como as coisas às vezes fogem das nossas mãos de forma surpreendente e terrivelmente destrutiva.