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O que dirão os nossos netos?
Quinta-feira, Fevereiro 23, 2017

Foi recentemente apresentado pelo Governo o Programa de Valorização das Áreas Empresariais, que contempla uma verba de 18,4 milhões de euros para a construção da denominada via de ligação ao Avepark. São de facto muitos milhões, mas não se iludam com a grandeza do número pois esta não é uma boa notícia para Guimarães.

A via de ligação ao Avepark, no traçado proposto, poderá servir uns quantos, mas não serve a sustentabilidade do município, pondo em causa diversos sistemas ecológicos protegidos, a paisagem e a qualidade de vida das populações locais.

Já aqui dei conta da minha discordância com este projeto, por não existir qualquer estudo que justifique a necessidade de uma nova ligação com tamanhos impactes. Na altura intitulei o artigo de “O que dirá Bruxelas?”, e confesso que mantinha uma secreta esperança em que esta via de acesso não passasse do papel, pois entendia que segundo as regras do Portugal 2020, esta não era elegível para financiamento comunitário. Bruxelas diz que para o Crescimento Inteligente, Sustentável e Inclusivo não são necessárias mais estradas.

Não houve dinheiro da Europa, mas houve do orçamento do estado, arruinando, assim, a minha expetativa, mas abrindo portas a outras opções de traçado que estavam excluídas pelo facto do financiamento europeu se restringir a vias dedicadas.

Não entendo como se pode decidir realizar tamanho investimento, com impactes ambientais e sociais tremendos, e custos de manutenção que alguém vai suportar, sem que haja uma ponderação suportado num estudo aprofundado do seu contributo, atual e futuro, quer para a competitividade do Avepark, quer para o descongestionamento da nacional 101. Certamente o Avepark terá um ganho de competitividade e a nacional 101 ficará mais fluida, mas será que essas vantagens justificam os impactes negativos? E será que não existem outras soluções?

Esta via de acesso é uma má opção do ponto de vista ambiental, e não adianta pintar a coisa de verde com cortinas arbóreas ou ciclovias de utilidade questionável.

Se para um território ambientalmente sustentável o que interessa é o caminho, é bom de ver que este não se faz com palavras e intenções inconsequentes, não se faz com foguetórios, nem se faz nos gabinetes de imprensa. O caminho faz-se caminhando, e a via de acesso ao Avepark é um enorme passo na direção errada.

Desde há muito que é sabido que os problemas de acessibilidade não se resolvem com mais estradas, e por isso vou-me interrogando acerca do que dirão sobre este regresso ao passado os ilustres membros do comité externo de acompanhamento da candidatura a Capital Verde Europeia (CVE), ou o que dirá o responsável da CVE que vai analisar a mobilidade em Guimarães. Mas isso é apenas curiosidade, porque o que realmente me preocupa é o que dirão os nossos netos!