O ‘dinar’ de São João de Ponte
Quinta-feira, Fevereiro 1, 2018

Dinar de ouro do século VIII, recolhido em São João de Ponte. Coleção da Sociedade Martins Sarmento.

Já anteriormente tivemos oportunidade de mencionar aqui as difusas referências à passagem dos Mouros históricos, que não necessariamente os da cultura popular, por terras de Guimarães, de que se fala a propósito do martírio e sepultamento de São Torcato, Bispo de Braga, por volta do ano 719. Falávamos da escassez de testemunhos arqueológicos que sustentem esses acontecimentos, relatados pelas fontes escritas e pela tradição oral. Os vestígios materiais desse passado tão pouco conhecido a que chamamos Alta Idade Média são, de facto, muito raros. Mas, curiosamente, um estranho local, conhecido como Monte da Ínsua, na freguesia de Ponte, trouxe até nós um desses raros testemunhos, sensivelmente contemporâneo da morte do célebre Torcato Félix, infligida pelo menos célebre, mas lendário, “Muça”.

Ora, o Monte da Ínsua foi, em 1928, alvo de explorações arqueológicas dirigidas por Ricardo Freitas Ribeiro e José de Pina, diretores da Sociedade Martins Sarmento, depois de, na Quinta da Ribeira, se ter exumado o que aparenta ter sido um forno de época romana, quando se abriam valas para plantar árvores. Segundo a ampla descrição de Luís de Pina, datada do mesmo ano, os vestígios abarcarão, contudo, diferentes períodos históricos.

Mas o achado mais curioso, que nos remete para as informações que mencionámos no início, é uma moeda bastante rara. Mais rara ainda por ter sido recolhida no Norte de Portugal. Trata-se de um dinar (moeda árabe* de ouro) omíada, datado do ano 721 (ou 102 da Hégira, o evento que marca o início do calendário muçulmano). Está portanto datada de dez anos depois do início da “invasão sarracena” da Península Ibérica, e apenas dois anos após a morte de São Torcato.

Com pouco menos de 2 centímetros de diâmetro, apareceu a moeda de ouro “num rego aberto para batatas”, nas palavras de Luís de Pina, perto da casa da referida Quinta da Ribeira, e não muito distante do mencionado “forno romano”. Foi, aliás, Luís de Pina quem pediu um estudo desta moeda, ainda no ano da sua descoberta, a David Lopes, provavelmente o primeiro arabista português.

De acordo com os preceitos do Islão, a moeda não apresenta qualquer imagem, consistindo os seus elementos visíveis apenas em frases escritas, grafitadas como elemento decorativo da própria moeda. Como é comum em qualquer produção monetária, este numisma contém uma mensagem, política e religiosa, começando neste caso pela Shahadah, ou declaração de fé islâmica. Assim, segundo a leitura de David Lopes, contém no anverso as frases “Não há mais do que um só Deus” e “Maomé é o enviado de Deus. Enviou-o com a boa direção e a religião da verdade.”. No reverso “Em nome de Deus, misericordioso e clemente.” e “Foi cunhado este dinar no Andaluz no ano de 102.”.

Como ali foi parar este curioso numisma é algo que escapa ao nosso conhecimento, como nos escapam as ocupações do Monte da Ínsua, onde não mais se fizeram pesquisas arqueológicas que trouxessem à luz dados mais claros. Teriam andado mouros por Ponte?

* A palavra “árabe” talvez não seja a mais adequada para apelidar estas produções monetárias, mas utilizamo-la aqui como termo genérico, uma vez que as legendas destas moedas estão, de facto, escritas em árabe.