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Desde sempre, a Lua…
Quinta-feira, Julho 25, 2019

Círculo em baixo relevo, interpretado como uma representação da Lua. Pedra Formosa do Balneário Sul da Citânia de Briteiros. Fotografia: Palimpsesto Lda.

No mês em que se assinalam os 50 anos sobre a primeira presença humana na Lua, vem a propósito uma reflexão sobre a influência do nosso único satélite natural sobre as populações que habitaram este território na Antiguidade.

A Lua, tal como o Sol, foi sempre dos elementos celestes mais diretamente presentes no dia-a-dia das comunidades do passado. Ora visível, ora total ou parcialmente oculta, a sua presença ou ausência do céu noturno influenciava ações e comportamentos humanos, a nível do estado de espírito, da motivação, da realização de celebrações, da sexualidade, mas também do trabalho, particularmente do que se relacionava com a agricultura. A constatação relativamente óbvia dos ciclos lunares influenciou também a contagem do tempo. Já o filósofo grego Anaxágoras sugeriu, no século V a. C., que o luar mais não era que o reflexo da luz do Sol, sugestão baseada apenas na simples observação.

Não temos, naturalmente, nenhum registo sobre como se interpretava a Lua, o Sol e outras estrelas, no período anterior à época romana. Contudo, a sua observação e presença no quotidiano das pessoas parece evidenciar-se em várias manifestações artísticas, como gravuras rupestres, esculturas ou decorações em cerâmica ou metal. De inspiração astronómica parece ser a decoração da Pedra Formosa do Balneário Sul da Citânia, assim  interpretada por Mário Cardozo:

Os trísceles representarão, possivelmente, a marcha ou revolução solar ou da lua; o disco, a própria imagem solar ou lunar.” (Revista de Guimarães, 1931, p. 254).

“…até os arcos de circunferência concêntricos (…), poderiam não ter apenas uma simples intenção decorativa (…), pretendendo mesmo representar a abóbada celeste, onde gravitam os astros.” (Revista de Guimarães, 1932, p. 136).

Destaca-se deste conjunto, da segunda Pedra Formosa a ser descoberta na Citânia, em Setembro de 1930, este “disco”, um círculo perfeito, que tem vindo a ser interpretado como um plenilúnio, por oposição aos trísceles, que costumam ser interpretados como possíveis representações solares.

A confirmar-se esta interpretação, sugere-se a velha oposição entre o Sol e a Lua, ou entre o dia e a noite, e a sua necessária alternância. Alternância já considerada vital por pessoas que, nesses tempos, olhavam muito mais para o céu noturno, muito mais “limpo” que o dos nossos dias.