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De Fangio aos telemóveis
Terça-feira, Abril 2, 2002

Vamos precisar de mais três anos para que as águas se voltem a agitar. Como já dissemos, caso as eleições fossem anuais, este ano teríamos a mudança da feira resolvida, no ano seguinte a 5.ª fase da variante, depois a requalificação do parque, e terminaríamos com a inauguração da via rápida que ligará Caldas das Taipas a Guimarães.

Para outro período eleitoral ficaria a discussão do que fazer com o Parque de Ciência e Tecnologia, recomeçar uma nova discussão sobre um novo local para a feira e, por exemplo, determinar o destino do que ainda restar dos Banhos Velhos.

Como a vida política da vila continua de férias, não é fácil poder divagar neste espaço. Nem sempre aparece uma chave que nos faça abrir as portas da inspiração.

Ainda estava com esperanças no boletim do MTAC, mas não temos conhecimento de novas edições dessa publicação.

Antigamente, não há muitos anos, o tique de parte da minha geração, era o de conduzir à Fangio. Para além de uns arranques, com mais aparato do que velocidade, e de “sacar” uns piões onde estivesse algum “maralhal” (se fosse hoje em dia teria que dizer “people”), a condução à Fangio também se destacava pela posição do condutor dentro do seu bólide. Um verdadeiro Fangio dentro da sua máquina tinha que estar ligeiramente inclinado para a direita e com a mão na alavanca das velocidades, sempre pronto a meter a segunda ou terceira para ultrapassar os “lesmas” que surgiam esporadicamente na estrada, depois era só dizer adeus com a mão direita pelo retrovisor.

Os médicos é que não querem saber, mas acreditamos que muitos problemas de coluna encontram a sua origem neste tipo de condução. Nestes casos o nome da maleita poderia ser “coluna à Fangio”.

O tique da nova geração é outro. Não quer dizer que não existam os aceleras de agora, mas são mais do tipo do alemão, do Schumacher, diríamos que agora é uma condução à “Schumaça”. Eu é que sou bom, o asfalto é meu e vou por onde quero, quem se meter à minha frente é posto estrada fora, o problema é quando aparece algo mesmo à frente.

Estávamos a dizer que existe um novo tique. A pessoa vai na rua, ligeiramente inclinada para a direita, mas agora com a mão junto à orelha. Passamos na rua ou mesmo no carro, cruzamos com o “people” e, por estranho que pareça, as pessoas para além da posição já descrita abrem e fecham constantemente a boca. Pois é, vão a falar para o telemóvel.

Para qualquer lado que se vá só encontramos gente a falar sozinha. Na escola, na rua, em reuniões, em assembleias, só falta na igreja, mas não deve faltar muito. Mas acredito que já se troquem mensagens para se saber onde está o “people” conhecido.

Antigamente, quando uma pessoa queria falar ao telefone com alguém procurava um lugar recatado. Existiam cabines bem isoladas para se manter a privacidade da conversa. Se fossemos ao correio das Taipas, antes de ficar moderno, existiam essas cabines e ninguém partilhava os momentos de alegria ou tristeza das pessoas que estavam ao telefone.

Os tempos mudaram, o que é preciso é que o telemóvel toque. Imediatamente se interrompe tudo o que a pessoa estava a fazer e põe-se logo em conversa com o interlocutor. Já não há privacidade. A conversa telefónica tornou-se pública. Qualquer assunto é exposto, sem constrangimentos, na praça pública.

Melhor exemplo não podíamos ter com a publicidade das jovens todas na casa de banho, que interrompem o filme, para ver, no telemóvel, se podem ir para a casa do namorado.