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…das pronúncias à portuguesa
Sábado, Fevereiro 2, 2002

A este título, veja-se com especial proveito aquilo que se escreve nos cardápios dos restaurantes. Os pratos até ficam a saber melhor quando polvilhados com uma pitada de estrangeirismos. Podemos assim escolher, entre muitos outros, a clássica truta à meunier, os camarões a la plancha ou os conhecidos bifinhos acompanhados com campinhões ou champignons (a ortografia é indiferente desde que seja estrangeira).
Mas não falemos apenas das importações lexicais que, larvar-mente, lá vão transpondo as pontes da presunção, instalando-se nos palanques da jactância para disputar o terreno às formas indígenas. Vejamos outros aspectos mais simples mas não menos característicos da na-cional propensão para o papagaismo (mesmo se as estatísticas dizem que somos os europeus que menos domina-mos outras línguas!). Esta nossa aptidão, para além de se caracterizar pela verborreia natural, leva-nos a adoptar facilmente as pronúncias alheias. Elas não são melhores que a nossa. São apenas a marca da nossa mudança e da nossa adaptação. Ainda que isso signifique renegar o passado, a região ou mesmo as origens!
Um dos exemplos mais fla-grantes deste fenómeno é o dos apresentadores e apresentadoras de televisão. Desconheço se as estações possuem algum método secreto de ensino / aprendizagem de línguas. A verdade é que, após uma breve estadia em Lisboa, qualquer apresentador que se preze troca facilmente o candeeiro pelo candeairo ou o tio pelo tiu. Isto para não falarmos de outras variações prosódicas mais subtis mas não menos marcantes.
Outra das novelas mais interessantes de seguir nos últimos anos foi a forma como o *nóbel foi rapidamente destronado pelo *nobél. Bastou que alguém se lembrasse de dizer que em estrangeiro se pronunciava de tal forma e toca a mudar o mais depressa possível, como se a outra pronúncia largasse alguma doença contagiosa.
Há uma semanas atrás a guerra ganhou novos adeptos e as batalhas eram quase diárias. De um lado os enviados especiais disparavam com *Peshawár e *Kandahar. Do outro ripostava-se com *Péshawar e *Kandajar, carregando bem neste -jar-, pronunciado à espanhola, com esse som gutural para reforçar o conhecimento de causa.
Também o universo do futebol não podia ficar imune ao colorido dos sons emitidos pelos portugueses. Ainda não consegui fixar-me na pronúncia adoptada para o nome do novo reforço grego do Sporting, mas também ainda não consegui determinar se o treinador desse clube se chama *BOLONÍ (à francesa, com acento tónico na última sílaba), *BOLONI (à portuguesa) ou *BELONI (à romena ou à húngara, uma vez que o nome é de origem magiar).
Pelo menos em matéria de sotaques ninguém nos bate. Além disso, como estamos a ver, nem precisamos de importar sons estrangeiros porque o nosso panorama já é suficientemente colorido. Então para quê tentar imitar a outra pronúncia se ela não é melhor que a nossa? Deixemos a questão em aberto, para não determinar as respostas possíveis e porque sabemos que o arco-íris das pronúncias à portuguesa continuará a ser enriquecido. Sobretudo porque os portugueses estão sempre aptos a adoptar outro sotaque. Desde que seja diferente do seu e, se possível, que tenha um cheirinho de estrageiro. Vá-se lá saber porquê?!

Nice, 23 de Janeiro de 2002

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