Cultura e Economia
Quinta-feira, Outubro 24, 2019

O Observatório de Cidades Culturais e Criativas, editado pela Comissão Europeia no início deste mês, coloca Guimarães como a segunda cidade da sua dimensão que cria mais Novos Empregos no Sector Criativo. Só Lund, na Suécia, consegue melhor desempenho nesse indicador. O concelho vimaranense é classificado com 42,7 pontos. O município vizinho de Braga – que tem também um desempenho acima da média – obteve 29,2 pontos.

Esta capacidade de criação de Novos Empregos no Sector Criativo foi, de resto, sublinhada pela generalidade das notícias que saíram após a divulgação do estudo. Há, contudo, um outro indicador que não foi suficientemente refletido e que vale a pena observar com atenção.

Guimarães surge igualmente como a segunda cidade pior colocada (atrás de Torun, na Polónia) no indicador de Empregos Baseados no Conhecimento e Criatividade. Braga, uma vez mais, serve como comparação: tem também uma classificação abaixo da média, mas consegue 14,5 pontos, mais do dobro dos 7,2 de Guimarães.

Colocando lado a lado estes dois indicadores, percebemos a contradição. O mesmo concelho que consegue ser o segundo melhor da Europa a gerar trabalhos no sector criativo é também o segundo pior da Europa em termos de Empregos Baseados no Conhecimento e Criatividade. O primeiro mede os novos empregos criados, ao passo que o segundo avalia todos os empregos existentes no tecido económico do território.

Se o concelho demonstra capacidade de criar novos empregos no Sector Criativo, é sinal de que está em marcha uma transformação do tecido económico local. E esse é um aspecto positivo que importa realçar. No entanto, esta transformação faz-se ainda a um ritmo lento. Se assim não fosse, Guimarães não permaneceria tão no fundo da tabela no que toca aos Empregos Baseados no Conhecimento e Criatividade.

Este paradoxo não é surpreendente para quem está atento a este território. Guimarães implementou, desde há mais de 20 anos, uma política pública de valorização da Cultura e da Criatividade que está a dar frutos, com particular incidência nas gerações mais jovens. A preponderância da intervenção pública nesta matéria está expressa no mesmo estudo, quando a cidade surge muitíssimo bem classificada no indicador de Governança – o aspecto em que consegue melhor prestação.

O investimento público não tem, porém, sido acompanhado por um investimento privado minimamente comparável no sector. O tecido empresarial vimaranense permanece genericamente pouco qualificado e, seguramente, inculto. São raríssimos os empresários que demonstram abertura mínima para perceber a importância que a aposta feita durante duas décadas tem para o território ou, numa prespectiva que até lhes poderia ser benéfica, a mais-valia que uma colaboração mais próxima com o sector artístico e criativo podia gerar nos seus próprios negócios.

Este estudo é uma óptima oportunidade para repensar as suas práticas. E aprender com uma das escassíssimas áreas em que Guimarães surge entre os melhores da Europa.