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Crónica de uma pandemia anunciada
Quinta-feira, Novembro 26, 2020

Março foi mau, mas agora está a ser ainda mais difícil. Nove meses depois, estamos cansados. Sentimos falta dos afetos, dos convívios, das relações que nos fazem humanos. Na ponderação das consequências, percebemos que as medidas de prevenção propostas para combater o Covid trazem problemas talvez mais graves.  O dia-a-dia é uma montanha russa de emoções, é o medo de alguém que tosse ao nosso lado, é a revolta de não poder trabalhar, a tristeza do número de mortes que teima em crescer, a angústia pela economia que definha.

Ao desânimo juntam a melancolia de um Outono frio e propenso a gripes e contágios. É a tempestade perfeita para a propagação deste vírus maldito que, encontrou nas nossas fraquezas a oportunidade de se multiplicar a uma velocidade assustadora.

Poderia ser diferente? Acredito que sim. Acredito que poderíamos ter evitado algumas das já mais de 4 mil mortes por covid, número que infelizmente não ficará por aqui. O Verão foi de cigarra para os nossos generais, perdemos uma oportunidade de ouro para prevenir e preparar um inverno que já se adivinhava difícil.  As batalhas não se ganham com grandes exércitos, ganham-se com lideranças fortes e capazes, recordem Nuno Álvares Pereira, planeamento e estratégia é tudo.  Para nosso infortúnio, estamos órfãos de bons líderes nacionais e locais.

Não acautelamos vacinas da gripe suficientes para a população de risco, não aumentamos a capacidade dos nossos hospitais, não contratualizamos camas no setor privado, não integramos as nossas forças armadas nesta batalha, mesmo sabendo que estão preparados para cenários assim. A ida a um hospital é uma experiência traumática pelo cenário que é. Caramba, até mantas faltam para aquecer os doentes nas horas intermináveis de espera naquelas tendas frias.

Desde início de Setembro que Guimarães é dos municípios com mais novos casos. São 3 meses no topo de um ranking difícil de aceitar. Porquê? As autoridades apontam para a responsabilização individual, a culpa é do povo que não cumpre as regras! E assim vamos abrindo ainda mais fendas numa sociedade já tão dividida.  Não descurando a importância que cada um de nós tem na prevenção do contágio, eu apontaria duas razões:  falha das autoridades e desigualdades sociais.

A autoridade de saúde local, que determina a necessidade de isolamento, colapsou completamente, e não consegue dar resposta a tantas solicitações. Não se compreende como se delegam responsabilidades sem assegurar meios humanos necessários para o cumprimento das mesmas. Uma vez mais, não se preveniu, não se planeou.

São inúmeros os relatos de pessoas, IPSS’s e empresas do concelho que não conseguem contactar o delegado de saúde médica, ficando num impasse sem saber o que fazer. Esta indefinição, num município marcado pelo desemprego, pelos baixos salários e pelo elevado número de empregos, que não são possíveis desempenhar em teletrabalho, é um rastilho para o contágio.

As faltas ao trabalham implicam a perda de prémios, as horas extra compõem o magro salário, esta é a realidade de muitos vimaranenses. Além disso, as baixas médicas demoram a ser pagas. Perante este cenário e na ausência de uma ordem do delegado de saúde, que não consegue dar resposta às solicitações, as pessoas escolhem ir trabalhar, e assegurar o seu emprego e o rendimento para pagar as suas contas e colocar comida na mesa. E não as podemos julgar por isso.

Não se deixem enganar pela riqueza aparente do nosso município, os títulos pomposos de capital disto e daquilo, as obras e projetos megalómanos, o luxo dos edifícios públicos, as empresas municipais que sorvem milhões, no fim de contas, somos um concelho pobre, de políticas pobres, marcado pelas desigualdades sociais.