Crónica de um país a arder
Quarta-feira, Outubro 30, 2013

Visto de longe, Portugal assemelha-se a um imenso braseiro, com alguns espaços de água e de praias onde as chamas ainda não puderam entrar. Os incêndios florestais consomem, em lume brando mas a uma velocidade elevada, as energias de um país desfeito pelo desemprego, pelas falências e pela crise. A verdade é que todos os anos é assim. Chega a “época dos incêndios” – tal como a época da caça, a época dos saldos ou a época dos figos – e, naturalmente, os incendiários colocam-se no terreno, dão largas à sua imaginação e tratam de fazer o seu trabalho.

Se não fosse tão trágica, a expressão teria até ter algo de caricato e de risível. Mas não tem. A tragédia, em vidas humanas, primeiro, em repercussões económicas, depois, é, de facto, enorme. A verdade é que, apesar de todos os dispositivos e meios colocados no terreno, parece não haver solução para tal tragédia que, anualmente, consome vidas humanas e reduz a cinzas hectares e hectares de floresta.
Quem são os culpados? Onde estão os responsáveis? Ninguém sabe, embora se dispare em muitas direções. Para uns os incêndios tornaram-se numa verdadeira indústria que alimenta e dá lucro às empresas privadas que combatem os fogos. Para outros, os grandes culpados são os madeireiros que pagam a madeira queimada a um terço do seu valor, uma vez que ela pode ser usada sem grandes perdas de qualidade na indústria do papel. Outros há que afirmam que a causa dos incêndios é a existência de zonas de caça, turísticas e associativas, uma vez que os caçadores quem não pretendem pagar ateiam o fogo nessas zonas pois pretendem o regresso ao regime livre. Há também quem defenda que os principais culpados são os construtores imobiliários a quem é dada a possibilidade de construir, mesmo contra o que diz a lei, logo após a passagem dos incêndios. E há também, dizem, os proveitos dos pastores, que desejam ter rebentos mais tenros e atrativos para os rebanhos, dos próprios bombeiros, dizem outros, que ganham dinheiro no combate aos fogos.

Seja como for, o certo é que, como (quase) sempre, a culpa morre solteira. Chegará o outono, virão as primeiras chuvas, e só assim se extinguirão os incêndios enquanto se prepara uma nova época, com mais meios, mais equipamentos de proteção, mais dinheiro para gastar. Virá depois o inverno e, se ele for chuvoso e as ervas crescerem em abundância, já se sabe que no verão seguinte haverá mais incêndios, arderá mais área e, possivelmente, morrerão mais pessoas. Porque, em rigor, ninguém acredita que o combate seja eficaz nem que os meios sejam suficientes.

Há cerca de trinta anos, na época estival, quando a linha do Sabor ainda chegava quase a Miranda do Douro e o comboio que nele circulava era puxado pela velhinha máquina a vapor, havia incêndios todos os dias. Cada vez que passava o comboio – o que só acontecia duas vezes por dia – atravessando os campos semeados de cereais, os sinos das aldeias começavam a repicar alertando para mais um princípio de incêndio motivado pelas faúlhas que se desprendiam da máquina. A verdade é que estes fogos eram rapidamente dominados e raramente provocavam grandes estragos. Pelos vistos, quando a linha foi desativada, a questão dos incêndios foi um dos motivos invocados para o seu encerramento! Quanto a outros incêndios, de grande dimensão, eles eram praticamente inexistentes embora os invernos fossem mais chuvosos e pudessem facilitar o aparecimento de mais matéria inflamável. A grande diferença entre esse passado e a atualidade é que o interior era povoado, os terrenos eram tratados, limpos e cuidados. Hoje, a população portuguesa concentra-se no litoral, muito dele urbanisticamente desordenado, tendo o restante território sido praticamente abandonado transformando-se num verdadeiro caos, isto é, com espaços desordenados e uma floresta que também ela abandonada.

É esta e não outra a causa principal para os incêndios que ninguém vê ou parece não querer ver: o abandono do interior, a falta de uma estratégia de ocupação do território, com consequências de empobrecimento dos recursos naturais, de que os fogos florestais são apenas uma das faces visíveis. Por isso, sem mudanças na política de ordenamento, enquanto os serviços públicos continuarem a desaparecer com regiões inteiras a ficarem cada vez mais desertas, não haverá forma de atacar as causas desta tragédia. Sem prejuízo de reconhecermos a necessidade de equipar mais e melhor todos os bombeiros e outros profissionais que combatem os incêndios, por mais meios, humanos e materiais, colocados à disposição, eles serão sempre insuficientes. Sem uma mudança de rumo que altere, pela raiz, a estratégia de ordenamento do território, dentro de algumas décadas a paisagem portuguesa será igual ou semelhante à do Norte de África.

António Bárbolo Alves
Miranda do Douro, 4 de setembro de 2013