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Crónica da globalização e das pequenas virtudes
Terça-feira, Julho 17, 2018

“Num momento de ruptura, onde podemos encontrar ordem e estabilidade? Devemos olhar para os pequenos detalhes, passar do amplo mundo da política, dos mercados e do sistema internacional para o menor e mais íntimo mundo da família, do bairro e da esquina.”

Michael Ignatieff, Las virtudes del cotidiano

É comum dizer-se que foram os portugueses que inventaram a globalização. E, em certa medida, isso é verdade. Com a conquista de Ceuta, em 1415, iniciou-se a expansão territorial, marítima, política, religiosa, militar e comercial, que levou Portugal a afirmar-se como uma grande potência mundial, controlando o comércio e dando início ao nascimento da globalização. Os historiadores apontam uma lista infindável de razões que terão levado o rei D. João I a tomar a decisão de conquistar aquela cidade marroquina. Mas o mais provável é que todas elas tenham contribuído para a ofensiva a esse território estratégico. Contudo, a vocação universalista dos portugueses, se bem que possa ter raízes anteriores à própria Expansão Ultramarina, ganhou aí um novo impulso, e ainda hoje podemos retirar lições geoestratégicas quando confrontados com a questão sobre o nosso lugar na Europa e no mundo.

Vem isto a propósito do livro citado em epígrafe, do canadiano Michael Ignatieff, com o qual me encontrei recentemente na sua versão em castelhano. Trata-se de um ensaio que o autor escreveu depois de deambular durante quase três anos por alguns continentes, num esforço para encontrar a resposta para uma pergunta aparentemente simples: qual o modelo de civilização − o americano, o chinês ou outro – sobre o qual se baseará a ordem política e social do século XXI?

Mas, ao longo das mais de trezentas páginas, o autor não encontra uma solução. Ainda assim, deixa-nos inúmeras pistas de reflexão que vale a pena seguir e aprofundar.

Se o ponto de partida deste ensaio é a constatação da existência de um abismo entre a teoria e a prática, o ponto possível de chegada é a aceitação de que não tem de existir um modelo único. Ignatieff está consciente de que o reconhecimento dos direitos humanos universais é um anseio que colide com a realidade contraditória daquilo que chama as virtudes quotidianas, ou seja, o mundo que nos rodeia. O autor defende a necessidade de um quadro institucional que dê estabilidade ao progresso da democracia e garanta os direitos dos cidadãos. Mas vê-se obrigado a aceitar que, perante a abstracção dos conceitos, o que conta é a felicidade ou, pelo menos, a tranquilidade das pessoas no seio familiar, no seu bairro, na sua aldeia, na sua escola ou no seu local de trabalho. Conclui assim que, “na batalha contra os fortes, a virtude (dos fracos) é uma arma mais poderosa que a violência”.

Outra questão fundamental a que a obra procura responder é a de saber em que medida a globalização afecta negativamente a vida quotidiana das pessoas. Uma maioria de desencantados refugia o seu mal-estar na busca de identidades perdidas, e muitas vezes impostas. E aqui nos encontramos com o perigoso caldeirão no qual fervilham os nacionalismos e a xenofobia, ou seja, onde se aprende a distinguir entre o “nós” e o “eles”, as identidades mortíferas baseadas na intolerância e no confronto.

Ignatieff lembra-nos que, para muitas pessoas, a globalização é um conceito que tem pouca influência nas suas vidas diárias. A este respeito, a sua tese é clara: as leis não são suficientes, também são necessárias virtudes morais ou ordinárias. Com efeito, a linguagem dos direitos é a dos Estados e das elites liberais. Em teoria, seria a expressão perfeita para a construção de uma ética global, mas o problema é que muitos habitantes do planeta se apegam ao local porque consideram que a globalização é uma ameaça ao seu quotidiano.

É cada vez mais comum que valores universais sejam negados, pelo menos na prática, em nome de uma democracia que acaba por apoiar interesses locais, ou nacionais, de natureza egoísta. O princípio da democracia, da autodeterminação,  no sentido lato do termo, impõe-se, paradoxalmente, ao princípio da justiça para todos. A consequência, e estamos a ver isso em diferentes nacionalismos e populismos, é que os interesses de certos países com governos democraticamente eleitos, tendem a prevalecer sobre os interesses de pessoas de outros países. Neste sentido, numa era de insegurança como a nossa, virtudes como a confiança, a tolerância, o perdão, a reconciliação ou a resiliência são de importância transcendental.

Michael Ignatieff é um defensor do legado do Iluminismo, embora reconheça as suas deficiências derivadas do “eixo retorcido da humanidade”. No entanto, o autor enfatiza que o orgulho nacional e as tradições locais levam a uma forte resistência a toda a moralidade universal. Isso explica que as maiorias democráticas, ligadas a valores locais, não acreditem em obrigações universais para com os outros. Vivemos tempos de soberania à escala global, e isso não é exclusivo da Rússia e da China, mas o seu discurso soberanista encontra ecos em muitos cidadãos de países democráticos. Por isso, Ignatieff enfatiza o poder das virtudes quotidianas sobre os regimes políticos. Em qualquer sistema pode haver situações de oligarquia, corrupção e injustiça, que só podem (e devem) ser combatidas por meio de virtudes. A piedade individual, por exemplo, salvou mais vidas do que a mera linguagem dos direitos.

A recente história da Tailândia, passada no outro lado do mundo, serve para ilustrar as teorias de Ignatieff. Se a humanidade, a aldeia global, foi capaz de mostrar o seu melhor, quer na solidariedade quer na tecnologia que colocou ao serviço de uma causa nobre, nada disso teria sido possível sem a abnegação, a força moral, a capacidade de sofrimento, os princípios e os valores que aqueles jovens demonstraram possuir. Diante do pessimismo daqueles que acreditam que vivemos num mundo hobbesiano, governado por predadores, vale a pena aceitar a visão de Ignatieff que, numa perspectiva e numa moralidade kantiana, o indivíduo, o local, alcançam uma dimensão universal.

Miranda do Douro, 13 de Julho de 2018