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Crónica da Eternidade
Sexta-feira, Dezembro 16, 2016

Um dos livros que de vez em quando convoco à minha memória de leitor é o pequeno ensaio de Jorge Luis Borges História da Eternidade. Recordo especialmente, não sei bem porquê, um capítulo dedicado ao tempo circular e à doutrina do Eterno Retorno. Creio lembrar-me de uma teoria sustentada, entre outros, por Nietzsche, segundo a qual, sendo o universo formado por um conjunto finito de átomos, será impossível a existência de um número infinito de variações. E assim, de alguma forma, estamos condenados à repetição eterna!

É destas teorias que me lembro também quando ouço a frase, tantas vezes glosada, que a história não se repete. E é a elas que associo também a recente vitória do Republicano Donald Trump e ao turbilhão que se anuncia um pouco por todo o mundo e nomeadamente na Europa. Em nome de um povo enquanto entidade mítica e incerta, contra um suposto sistema em face do qual os cidadãos se sentem esmagados e impotentes, vemos emergir partidos ou grupos cujos verdadeiros programas e fundamentos são o ódio e a hostilidade, aos imigrantes, aos estrangeiros e às mulheres.

Aos poucos, de forma larvar, vão nascendo, crescendo e ganhando terreno, novas forças políticas e novos poderes, tais como a União Cívica, na Hungria, o partido Justiça e Liberdade, na Polónia, onde figuras como Viktor Orbán e Jaroslaw Kaczynski vão semeando as suas ideias antieuropeístas, muitas vezes xenófobas e racistas, à luz dos escândalos de corrupção e da estagnação do nível de vida.

Os tempos que se aproximam prometem novos sobressaltos. A 4 de dezembro, em Itália, haverá um referendo constitucional e, caso triunfe o “não”, o chefe do governo ameaça demitir-se provocando assim novas eleições legislativas nas quais poderá triunfar o movimento populista “5 estrelas” de Beppe Grillo. No mesmo dia, na Áustria, haverá eleições onde poderá ser eleito como Presidente da República Norbert Hofer, do movimento Partido da Liberdade, de extrema-direita, que se apresentou em campanha de pistola à cintura e reclamando para a Áustria antigas fronteiras do início do século XX.

Em Março de 2017 terão lugar, na Holanda, eleições parlamentares. O Partido da Liberdade, conhecido pelas suas posições inflexíveis sobre a imigração, defensor da saída da União Europeia e do encerramento de fronteiras, parece estar à frente das sondagens nomeadamente após o seu líder, Geert Wilders, estar a ser julgado por incitação ao ódio racial.

Em Abril e Maio de 2017 terão lugar as eleições presidenciais francesas. O espectro de uma segunda volta onde se poderão encontrar o recém-eleito, François Fillon, da direita da direita, e a líder da extrema-direita Marine Le Pen, é real e assustador.

Quais são as características que unem todos estes movimentos? Usando uma velha terminologia marxista, diria que, pela composição do grupo líder, se trata de movimentos pequeno-burgueses cujo programa político e objectivos são democratizar e racionalizar a sociedade e as instituições, atacar a corrupção e os privilégios, impor transparência nas acções do governo e controlar os cidadãos através da web. O sistema capitalista não é, de forma alguma posto em causa, são apenas discutidos os seus excessos e a corrupção de seus gestores políticos. O seu principal slogan é a alegação da honestidade e o seu tema político central é a luta contra os privilégios da classe política.

À partida, nada me move contra o aparecimento de novas forças políticas, assim sejam elas criadas com base nos valores e nos princípios que constituem as bases das nossas sociedades, como sejam a liberdade, a justiça e a solidariedade, ainda que se proponham “purificar” ou mesmo “salvar” os sistemas políticos vigentes. Mas os seus nomes melífluos e enganadores – Partido da Liberdade, Frente Nacional, Aurora Dourada, 5 Estrelas, Justiça e Liberdade … – não podem disfarçar que se trata de partidos racistas, xenófobos e simpatizantes das correntes fascistas que derrubaram os regimes democráticos, arrastaram a Europa para a Segunda Guerra Mundial e provocaram o Holocausto nazi.

O mal-estar instalado nas nossas sociedades, que alguns chamam pós-moderno e que, apesar dos apregoados níveis de desenvolvimento, produz uma cultura fluida e incerta, caracterizada pela precariedade, não nos pode deixar indiferentes. Numa entrevista a um jornal francês deste dia 30 de Novembro de 2016, o linguista e filósofo Noam Chomsky afirma que a única coisa previsível de Donald Trump é que ele será imprevisível. O tempo, diz Platão, é uma imagem móvel da eternidade. E esta é, afirma Borges, um jogo e uma esperança. Precisamos de compreender as causas dos votantes no populismo. Precisamos de mudar as políticas que têm conduzido ao mau funcionamento da globalização. Precisamos de acabar com a sacralização constante e contínua dos mercados. Precisamos de nos indignar. Mas precisamos também de não esquecer o pluralismo e os valores democráticos como valores essenciais da nossa civilização.

Miranda do Douro,
30 de Novembro de 2016