PUB
Conta-me como vai ser
Quinta-feira, Julho 16, 2020

Poderá esta pandemia ter mudado hábitos, para sempre? Desde logo, eliminou abraços, censurou beijinhos e extinguiu o tradicional “bacalhau”, o aperto de mão tão característico que, agora, rivaliza com o sonoro “Olá!”. O cumprimento com o cotovelo passou a ser, pois, uma das consequências sociais mais visíveis, quando duas (ou mais) pessoas se cruzam na rua.

Depois, há o novo relacionamento entre vizinhos. Que muitos ficaram a saber que tinham. A proximidade cultivou-se no momento em que a distância continua a ser a palavra mais presente nas nossas vidas. Como o teletrabalho, que criou novas fronteiras, até para alunos e comunidade escolar. Ou a plataforma Zoom, que vai anular muitas deslocações e aumentar as reuniões de trabalho por videoconferência.

Nos restaurantes, tão cedo não iremos ver a prática de juntar mesas, por alguém ter chegado atrasado. Primeiro, porque aglomerados de pessoas devem ser evitados. Depois, porque a lotação está limitada a 50 por cento da sala. E ainda há o distanciamento social que tem de ser preservado. Aqui e ali. E acolá. E no espaço público, também, com os ajuntamentos a diluírem-se, sempre que se aproxima o agente de autoridade para restabelecer a legalidade.

Por falar em ordem pública, as filas para fazer compras ou entrar num supermercado vão continuar a parecer as esperas para comer o Pão com Chouriço, do Zé das Bifanas, nas Gualterianas. Que terão este ano um formato adaptado à realidade que vivemos. E depois vêm as Nicolinas. E a noite do Pinheiro, cuja distância temporal a que nos encontramos ainda é substancial para se imaginar um desfile com… distanciamento!

Há três ou quatro meses, distância era o que todos queríamos de uma pessoa que nos aparecesse mascarada à nossa frente. Seria um assalto, provavelmente! Hoje, entrar num espaço fechado sem máscara é um ato “criminoso” e socialmente condenável pelos olhos confinados que espreitam pelo tecido que protege. Branco ou preto. De maior tamanho ou de menor dimensão. Mas cujo modelo passa a ajudar a identificar, também, a classe social de quem a usa.

Agora que a vida vai retomando alguma normalidade, a casa foi mesmo a nossa trincheira e a granada mais perigosa que tivemos nas mãos foi a água e o sabão. O tempo vai passar a ser mais valorizado. A sociedade tenderá a optar por uma relação mais humanizada. E nada teremos a lamentar da nossa sorte. Olhemos para a quarentena e vejamos que foi o tempo de incubação necessário que todos precisamos para renascer.