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Consumo de Carne
Quinta-feira, Fevereiro 4, 2021

Declaro, desde já, um conflito de interesses: sou vegetariana e acredito que o consumo de carne é dispensável a uma alimentação saudável. No entanto, não defendo que todos abandonem imediatamente o consumo de carne, até porque, tal poderia não ser exequível.

A carne está presente numa pequena porção da nossa roda dos alimentos, ocupada também pelo peixe e pelos ovos e, como tal, é necessária moderação no seu consumo. Mais concretamente, a nova roda dos alimentos recomenda um consumo diário de 1,5 a 4,5 porções de carne (30g) ou peixe (30g) ou ovo (55g), o que se traduz, se excluído o ovo, num consumo máximo de 135 gramas de carne ou peixe por dia.

Desafio o leitor a pesar a sua posta de carne ou peixe e verificar em quantas vezes é superior ao recomendado pela DGS. Esta autoridade de saúde publicou, no mês passado, mais um manual com vista à promoção de uma alimentação saudável, desta vez com enfoque nos cuidados de saúde primários.

Prepare-se para que o seu médico de família se preocupe ainda mais e o questione sobre os seus hábitos alimentares. Um dos muitos parâmetros abordados é, como o leitor já antecipa, o consumo de carne. Este manual recomenda uma redução do seu consumo, não devendo o consumo de carne processada (chouriças, salsichas, fiambre, presunto…) ultrapassar uma porção de 50g por semana e o de carnes vermelhas 2 porções de 100g por semana.

Na base desta recomendação, está a associação entre o consumo destes tipos de carne e o aumento do risco cardiovascular e de diabetes mellitus. O seu consumo tem ainda sido associado a um risco aumentado de cancro do intestino. Para além das implicações na saúde, o consumo de carne apresenta um importante impacto ambiental.

A indústria pecuária, sobretudo o gado bovino, é responsável por uma emissão significativa de gases com efeito de estufa. A produção de carne está associada à emissão de 6 a 60 vezes mais CO2 do que a produção de vegetais, cereais ou frutos gordos. Além disso, a produção de 1kg de bife de vaca consome o triplo da água necessária para a produção de outros tipos de carne e 10 vezes mais que a necessária para a produção da mesma quantidade de cereais.

Os inquiridos do grande inquérito sobre sustentabilidade de 2018 mostravam-se globalmente disponíveis para alterar os seus hábitos alimentares, estando a maioria disposta a reduzir o consumo de carne. Tal tendência não se verificou. Aliás, os últimos dados do instituto nacional de estatística, relativos a 2019, apontam para um consumo de 119kg de carne per capita por ano, o valor mais alto desde que há registo. Cada português consome, portanto, em média, 325 gramas de carne por dia! Este consumo tem mesmo ultrapassado a produção de carne nacional, o que evidencia a sua falta de sustentabilidade.

A carne de animais de capoeira foi, pela primeira vez, a mais consumida, ultrapassando a carne de suínos, um ponto positivo, sendo o terceiro lugar ocupado pela carne de bovinos.

Aconselho o leitor a ter estes dados em conta e a refletir sobre este assunto. Alternativas ao consumo de carne são, naturalmente, o peixe e ovos mas também as leguminosas e os frutos gordos, alimentos com menor impacto ambiental e muito mais vantajosos para a sua saúde.

 

Patrícia Varela

USF de Ronfe