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Consultas de Corredor
Segunda-feira, Setembro 30, 2019

Não há um único dia de trabalho de um médico de família em que o telefone não toque para coisas como “Doutora, a Dona Elisa está aqui no balcão e queria só dar-lhe uma palavrinha” ou “Doutora, o Senhor Joaquim traz um exame que foi fazer hoje e quer só mostrar-lho”.

Na perspetiva dos doentes, este é um pedido simples. É só uma palavrinha…. É só mostrar o exame. Serão 2-3 minutos. Como pode o médico não ter 2 ou 3 minutos para esclarecer uma dúvida, dar uma opinião, acalmar uma inquietação?

Na perspetiva do médico, este pedido tem muitas outras implicações. Primeiro de tudo, um médico de família gere uma lista entre 1500 a 2000 utentes. Se pensarmos que 3 ou 4 destes utentes, o que não é nada fora do habitual, precisa de uma palavrinha de 5 minutos, serão cerca de 20 minutos a acrescentar a uma manhã ou tarde de consultas que, habitualmente, por si só, já poderá levar um atraso considerável, tendo em conta que as consultas estão marcadas de 15 em 15 minutos e são raríssimas aquelas que não ultrapassam esse tempo. Mas esta é, sem dúvida, a implicação menos importante.

Nos dias de hoje, com a informatização das consultas e dos registos clínicos é cada vez mais importante e necessário que qualquer intervenção ou indicação médica fique correta e claramente registada, quer para efeitos de seguimento futuro do doente quer para defesa pessoal dos profissionais de saúde.

Para além disso, sempre que um utente necessita de um esclarecimento, de uma indicação médica, de uma opinião sobre o resultado de um exame ou de um ajuste da medicação, não é aconselhável, nem seguro para o utente, que tais decisões sejam tomadas através de uma “palavrinha” pelo telefone ou na beira da porta, muitas vezes enquanto outro utente aguarda no consultório ou então na pressa daquele instante entre consultas.

Sempre que há necessidade de uma intervenção médica é extremamente importante que o doente seja ouvido com calma, que se explorem os seus sintomas ou as suas dúvidas na tranquilidade de um momento dedicado àquele assunto.

Se um doente nos traz o resultado de um exame temos de nos preparar para a possibilidade de um diagnóstico grave ou inesperado e temos de garantir disponibilidade para esse momento. Não será na beira da porta ou encostados à parede, no meio do corredor, que iremos dizer “Dona Laura… a sua colonoscopia mostra uma lesão que à partida pode ser algo menos bom” ou “Senhor Acácio, a sua análise da próstata aumentou muito e por isso vamos ter de fazer mais exames” ou, ainda, “Dona Lurdes, é preciso pedir uma ecografia mamária porque a mamografia deixa dúvidas sobre uma lesão na mama direita e quem sabe será preciso uma biópsia”.

Mesmo em situações que nos possam parecer mais “corriqueiras” como, por exemplo, “Senhor Joaquim, a análise dos diabetes está pior, por isso, em vez de um comprimido de “X” ao jantar, vai passar a fazer um comprimido ao pequeno almoço e um comprimido ao jantar”, merece um tempo e um espaço próprios. Nesta situação seria importante relembrar ao doente dos possíveis efeitos laterais da medicação, tendo em conta o aumento da dose, seria ainda mais importante tentar perceber o porquê da descompensação da diabetes, reexplorar os hábitos alimentares, o consumo de bebidas com álcool, a prática de exercício físico, entre outros. E o que é isto se não uma consulta? Uma consulta de um grupo de risco.

É importante que os utentes e os doentes percebam que não se trata de uma questão de má vontade ou de um capricho da parte dos médicos quando estes não concordam com as palavrinhas ao telefone ou com as consultas de corredor e aconselham marcação de consulta em tempo e lugar próprios. É importante que os utentes percebam que se trata de uma questão de segurança e de boas práticas em Medicina.

Da parte dos médicos, é importante que estes não se deixem pressionar pelas grandes listas de utentes, pela dificuldade em dar resposta a todas as solicitações em tempo útil e, acima de tudo, pela difícil gestão da expectativa dos utentes e consequente desilusão destes últimos quando não lhes respondemos da forma esperada.

Ana Isabel Costa
IMGF da USF de Ronfe