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Como Guimarães viveu a pandemia há 100 anos
Sexta-feira, Janeiro 29, 2021

Há justamente um século, Guimarães, Portugal e o Mundo também confinaram. A Gripe Espanhola de 1918 foi um incidente que ficou inscrito no nosso imaginário coletivo, tal como vai ficar a COVID-19. E há muitas histórias que a História ironicamente se encarrega de nos recordar, quando folheamos o arquivo de memórias da maior pandemia do século XX, que matou 50 milhões de pessoas no mundo todo.

Começou a ouvir-se falar dela em março de 1918 e a Portugal chegou em fins de maio. Teve o seu ponto culminante no final do mês de junho, declinando depois subitamente! Quando se julgava que a epidemia estava eliminada, eis que em agosto começa o segundo surto, que vai atingir o seu pico em outubro-novembro. Esse, sim, “muito, muito, muito letal”, ressalva o historiador José Manuel Sobral no seu livro, lembrando a hecatombe que se verificou.

A gripe espanhola terá atingido Guimarães na segunda quinzena de setembro de 1918, altura em que os registos permitem verificar um enorme aumento dos internamentos no Hospital da Santa Casa da Misericórdia, a principal unidade hospitalar da cidade onde, até ao início de dezembro de 1918, foram internados 305 doentes com gripe, mais 290 do que o que seria expectável. A 24 de setembro, surge, pela primeira vez, uma referência inequívoca ao início da crise sanitária em território vimaranense.

Escrevia o jornal «O Commercio de Guimarães»: “Grassa com grande intensidade uma doença a que chamam grippe bronco-pneumónica. […] Essa terrível epidemia chegou também, já, até nós. Encontram-se muitas pessoas atacadas e, em o Hospital da Santa Casa da Misericórdia, deram entrada alguns soldados d’Infantaria 20”, aquartelados no Paço dos Duques.

A pandemia teve o seu ponto alto em outubro, mês em que o número de doentes internados com gripe no hospital ultrapassou 23 vezes o que era habitual em anos anteriores. Este aumento de doentes teve reflexo no número de óbitos que, no mesmo período, considerando unicamente os enterramentos no cemitério citadino de Guimarães, sofreu um aumento de 384%.

A POLÉMICA DOS FUNERAIS À NOITE
Se na cidade era grande o número de doentes, muito mais estava a ser nas freguesias rurais, havendo ali bastantes óbitos, muitas vezes originados pela relutância do povo em não querer recolher aos hospitais. As autoridades foram tomando medidas, de modo a mitigar tão grande calamidade. Assim, passou a ser examinado o leite que era fornecido ao público, sendo aplicadas multas. Foram retirados de venda todos os suínos que não estavam em condições higiénicas e proibidos os cortejos fúnebres, tendo sido ordenado que os funerais fossem efetuados depois das… 20 horas.

Há 100 anos, era esta a “polémica” em Guimarães: o horário das cerimónias fúnebres em plena pandemia. A autoridade administrativa impediu que a condução dos cadáveres ao cemitério da Atouguia se fizesse antes das oito da noite. Uma medida para não atemorizar a população que, durante o dia, via desfilar imensos cortejos fúnebres pelo centro da cidade. A evolução da epidemia, que sofreu posteriormente um agravamento, levou a que os funerais pudessem apenas ser realizados depois das… 22 horas!

Uns defendiam que esta medida assustava mais as pessoas, uma vez que o clarão das tochas indicava que estaria a decorrer mais um enterro. Havia quem achasse que o coveiro poderia deixar os caixões ao relento até de manhã, por causa do adiantado da hora. “Tudo isto é digno de ponderar-se”, escrevia o jornal vimaranense «Gil Vicente», a 27 de outubro de 1918. Em alternativa, defendeu-se efetuar os funerais antes das 08 da manhã! Assim, ninguém vinha à rua verificar quem tinha falecido e evitava-se o terror visual das tochas que, à noite, “informavam” as proporções assustadoras que a broncopneumonia estava a causar.

A todo o momento, eram vistos carros de bois a atravessar a cidade, transportando doentes aos hospitais e às Ordens Terceiras de S. Francisco e S. Domingos. Foi proibida a celebração de missas e outros atos religiosos com ajuntamento de fiéis. As igrejas foram encerradas. Foram proibidos, também, todos os tipos de espetáculos. Para que concordassem com estas medidas das autoridades, as pessoas alertaram que, assim, era também necessário fechar cafés, feiras e mercados. “Se querem impedir o contacto do povo das aldeias com o da cidade, comecem então por mandar fechar as barreiras. Não é verdade?”, questionavam-se os vimaranenses, nas páginas dos jornais.

A 03 de novembro, as autoridades administrativas e sanitárias revogaram o edital que preceituava os funerais à noite, só consentindo agora em horário diurno. “Com tal medida, reconquistam as graças deste povo que tão exaltado andava com os enterros à noite. (…) Era por isso que nós barafustávamos e continuaríamos a barafustar, se tal iniquidade não fosse posta de lado”, escrevia a imprensa vimaranense, que iniciou uma campanha conjunta para que os funerais em Guimarães passassem a ser efetuados de dia. Neste particular, teve especial relevância o bissemanário “O Commercio de Guimarães”, que se publicava aos sábados e às terças-feiras.

A DOENÇA DA “TOSSE MUITO REBELDE”
Há 100 anos, não havia a tecnologia de agora. Pouco se sabia da Gripe Espanhola. Era referida como a doença com “febre elevada, inflamações da traqueia, rouquidão e tosse muito rebelde”. Dizia-se que era contraída por contágio direto através de partículas da expetoração e do muco-nasal, podendo “dar-se também pelas roupas e pelo aperto de mão de alguns doentes benignos”. Circulava também a versão que o contágio se poderia “dar pelas poeiras”.

Como medidas preventivas, era recomendada a “lavagem repetida da boca e do nariz” com soluções antisséticas, por exemplo, o “borato de soda, insuflações mentoladas”, recomendado agasalho, um ou outro comprimido “de qualquer sal de quinino e chamar o médico ao primeiro rebate da doença”.

Com a Gripe Espanhola, morreu muita gente e os filhos ficavam sem amparo. À Câmara de Guimarães, chegavam muitos requerimentos. Entre eles, destaque para a solicitação de uma avó que pedia a admissão da sua neta no hospício (lar). Não há muita estatística a este respeito. Em Lisboa, por exemplo, 728 crianças perderam os pais, tornaram-se órfãos e foram acolhidos pela Cruz Vermelha Portuguesa. A segunda vaga da gripe pneumónica, como também era conhecida, foi a pior de todas.

Como forma de colmatar carências financeiras, os Bombeiros Voluntários de Guimarães saíam à rua, acompanhados por cavalos e pelas bandas de música do regimento e a dos Guises, para recolher donativos em dinheiro e em espécie. A 17 de outubro, o desfile rendeu “500:240 réis em dinheiro, 6 garrafas de vinho fino, 3 quilos de arroz, 3 de açúcar, e várias peças de roupa”. Há um século, os “calorosos aplausos” eram dirigidos aos bombeiros, que procuravam “minorar as condições das vítimas desprotegidas da sorte”.

Nos finais de outubro de 1918, os hospitais estavam repletos de doentes e de enfermos em período de convalescença. “Rara é a casa que não tem pessoas na cama”, lia-se na imprensa vimaranense. Às famílias mais necessitadas, eram também distribuídas senhas, com valor financeiro, para ajudar a evitar situações de fome.

Um decreto governamental ordenava a implementação do “estado de sítio” e a suspensão de garantias em todo o país. Foram mandados afixar editais que obrigavam o encerramento de estabelecimentos comerciais, cafés, restaurantes e tabernas às 21 horas, bem como se proibia o trânsito nas ruas de “qualquer cidadão”, desde as 21 às 06 horas da manhã. Mais tarde, foram afixados novos editais, alterando as disposições para as 23 horas.

UMA (ORIGINAL) MEDIDA PROFILÁTICA
As pessoas estavam cansadas. E a tudo recorriam para que a curva dos óbitos fosse invertida. A dada altura, a autoridade administrativa do concelho solicitou aos regedores das freguesias ramos de pinheiro e eucalipto para serem queimados nas ruas de Guimarães, como medida profilática. Numa outra situação, realizaram-se preces durante dois dias na Igreja de São Dâmaso, onde se pediu o “termo da terrível epidemia”. Após um “comovente sermão” do Padre Gaspar Roriz, saiu uma procissão de penitência com milhares de pessoas, que atravessou as ruas da cidade. “Nem mesmo a chuva miudinha que caiu impediu a imponência da manifestação de fé”, lê-se nos jornais da época.

Em Portugal, estima-se que a gripe pneumónica provocou 136 mil mortos, uma das taxas de mortalidade mais elevadas da Europa. Foi o maior desastre demográfico do século XX e, provavelmente, a mais grave pandemia a atingir o mundo desde a Peste Negra, ou peste bubónica, no século XIV. Diz a História que, em Portugal, o ano de 1918 foi o único em que houve mais mortes do que nascimentos! E o isolamento social foi a técnica (clássica) de lidar com a pandemia. Um recurso milenar que se impõe nas doenças infectocontagiosas. Também nos dias de hoje…