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Cidade Pequena
Quinta-feira, Julho 25, 2019

Nota prévia. Não sou cliente de sunsets e festas brancas. Normalmente, prefiro ouvir música. Recriações históricas também não são a minha praia. Mas não fujo de festas populares e as Gualterianas são, para mim, uma dimensão intocável da identidade de Guimarães. Pareceu-me importante deixá-lo claro como ponto de partida deste texto, ainda que tudo aquilo que a seguir escrevo seja menos sobre cada uma destas festas e mais sobre a forma como os vimaranenses se relacionam com a cidade.

As discussões das últimas semanas na cidade são um tanto deprimentes. Confesso que se me afigura um pouco incompreensível a forma apaixonada como se discute a localização de festas e festinhas e a pobreza dos argumentos apresentados. E ainda mais quando não vejo o mesmo grau de envolvimento sempre que o assunto são assuntos com verdadeiro impacto no futuro da cidade – podíamos falar de transportes, mobilidade, de ambiente ou de cultura, mas parece haver pouca gente interessada.

Por mais de uma vez escrevi neste espaço sobre o excesso de ocupação a que está sujeita a zona classificada pela Unesco. Rejeito a política de espetacularização do espaço público e aquilo a que já chamei a monocultura do centro histórico. Em Guimarães, particularmente desde 2012, tudo passa por ali. Apresentações do Vitória, festas, desfiles de moda e mais um sem número de eventos que, podendo acontecer noutros lugares da cidade, são marcados para ali.

A “disneylandização” do casco antigo é o caminho mais rápido para a sua morte. E a Câmara parece, no último ano, tê-lo percebido. Esteve bem a autarquia quando inverteu a lógica da Feira Afonsina, retirando pressão das praças históricas e dando centralidade ao Monte Latito. Esteve bem a autarquia quando retirou um dos palcos da Noite Branca da praça de S. Tiago – melhor faria se acabasse com ela. E estará sempre bem a autarquia quando tomar decisões que permitam ao centro histórico retomar a função de local onde se vive e convive, sem se tornar num salão de festas.

Não compreendo que haja tão pouca sensibilidade a argumentos como estes que apresento. E se isso até podia ser compreensível entre os utilizadores dessas festas ou entre comerciantes – que são verdadeiramente os únicos beneficiários destes investimentos –, não entendo que haja responsáveis políticos capazes de dizer algumas das coisas que ouvi e li nas últimas semanas. Como, por exemplo, que tudo o que não acontece nas praças de S. Tiago e da Oliveira ou no largo do Toural está “fora do centro”. Quando é que a zona de Couros, o castelo ou o antigo mercado se tornaram periféricos?

Feira Afonsina, Noite Branca, Gualterianas. O problema é sempre o mesmo: a auto-imagem de Guimarães é um paradoxo. Os vimaranenses pensam que vivem numa grande cidade, mas não conseguem vê-la para lá de três praças. E não há nada mais pequeno do que isso.