Casa de tecidos do Pito: mais de cem anos de pano para mangas
Casa de tecidos do Pito: mais de cem anos de pano para mangas
Paulo Dumas
Quarta-feira, Julho 10, 2019

A Casa Martinho ou a casa do Pito, como é conhecida, está aberta há 122 anos. De tudo se vende um pouco, desde que esteja relacionado com confeção de vestuário, como tecidos e linhas. O que se desfia também na casa do José Manuel Martinho são conversas de gente que passa por ali diariamente, seja para comprar o que faz falta, seja para pôr a conversa em dia. Esta loja faz parte do património de Caldas das Taipas.

Há muito que esta conversa estava para acontecer. José Manuel Martinho é o homem que atualmente está atrás do balcão da Casa Martinho, nas Caldas das Taipas. Essa conversa foi sendo adiada porque, dizia-nos ele, não andava com cabeça. Havia um problema nos olhos que o estava a afligir.

Em ar sempre atarefado, dizia-nos que teria que ser uma conversa rápida, uma vez que há sempre que fazer na loja e há clientes a entrar e que é preciso atender.

Fomos insistindo, até que essa conversa aconteceu. O que estaria para ser uma “coisa rápida” acabou por transformar-se numa coisa de uma tarde inteira, desfiando memórias que se guardam atrás daquele balcão de madeira, que atravessa toda a loja centenária, de linhas fazendas do Zé Manuel do Pito.

Como o próprio nos dizia, a conversa teve que ser interrompida várias vezes. Mas de cada vez que tal acontecia, as memórias dos clientes “de há muitos anos” passavam a ouvir-se na primeira pessoa, avivando-as e confirmando-as quando havia dúvidas.

Ao fazer referência às alcunhas de pessoas, fica-se na dúvida se o nosso interlocutor gosta ou não da alcunha por que é conhecido. Normalmente, esses nomes têm origem no seio do povo e poderá ter uma conotação que até deixa o alcunhado feliz. Mas também pode acontecer o contrário, em que a alcunha serve como forma de gracejo ou de troça.

Neste caso, porém, a alcunha “do Pito” surgiu naturalmente na conversa – “Quem quer barato e bonito, vai ao Martinho do Pito”, disse-nos a dada altura. Foi o próprio José Manuel que nos explicou a sua origem e que vamos explicar mais à frente neste texto.

Antes de abrir a casa que hoje conhecemos, localizada bem no centro da vila de Caldas das Taipas, Francisco da Silva Martinho, avô de Manuel Martinho, era feirante e o seu negócio era percorrer as feiras da região com uma carroça que usava para se deslocar e transportar a mercadoria. Com o tempo foi amealhando dinheiro para comprar um conjunto de casas, onde se inclui aquela onde está a loja de tecidos.

A casa que hoje conhecemos abriu no ano de 1897. Antes disso, Francisco começou por ir colocando umas peças à porta. As pessoas passavam e iam comprando uns metros de cotim e outras fazendas. As feiras ainda continuaram durante algum tempo, mesmo depois de a Casa Martinho ter aberto as portas.

José Manuel Martinho faz parte da terceira geração a tomar conta do negócio iniciado pelo avô. Ele e os seus dois irmãos deram-lhe continuidade. Uma das filhas de Manuel Martinho chegou a trabalhar na loja, quando Manuel trabalhava ainda no posto médico de Briteiros.

A primeira interrupção da conversa acontece na altura em que se procurava descobrir o dia exato da abertura da Casa Martinho. José Manuel sabe que essa data está anotada algures e faz referência a um livro da família que andará perdido: “Mas eu ainda hei de descobrir onde ele está” – garante José Manuel.

Quem entra na loja nesta altura é José Adélio Gomes que lança um sonoro “boa tarde!”. Manuel Martinho põe as mãos à cintura, meio atrapalhado pela interrupção: “Eu não disse!” – exclamou. “Isto é sempre assim, sempre gente a entrar!”.

José Adélio, 86 anos, é também filho de um comerciante da vila, que tinha uma mercearia ali bem perto, antes de ser edificada a casa que agora lá existe, onde está a relojoaria e a boutique. “A mercearia era na casa do Canudo e depois é que fomos lá para baixo [para a Rua António de Barros]. Mas esta casa é mais antiga, já existia” – explica José Adélio. José Manuel Martinho acena com a cabeça, sublinhando com satisfação a veracidade da afirmação.

José Adélio Gomes recorda uma curiosidade sobre Francisco Martinho, que andava sempre uma caixinha de rapé, que volta e meia cheirava. Era um velho hábito trazido do Brasil, um sinal de elegância para os padrões da primeira metade do século XX. O cheiro intenso do rapé provocava espirros constantes em quem não estava habituado. Francisco Martinho dava rapé a cheirar à rapaziada e divertia-se quando os grupos de rapazes desatavam a espirrar.

A Casa Martinho situa-se no coração da vila, na parte superior do jardim da Avenida da República. Dali tem-se um olhar privilegiado sobre o que se passa à volta. Talvez por isso, sempre se juntou por ali muita gente, não só os clientes, mas igualmente amigos e conhecidos para deixar as conversas em dia.

Volta e meia, José Manuel Martinho sacava da sua máquina fotográfica e registava os grupos que por ali passavam. Há, por isso, um conjunto de imagens onde se percebe a casa, praticamente igual ao longo dos anos, e as pessoas que por ali passavam.

Nestas páginas publicam-se dois exemplos disso mesmo. Na fotografia mais antiga, de princípios da década de 50, transformada em postal ilustrado da vila, vê-se o jardim numa configuração diferente da atual. O que se mantém praticamente inalterado é a casa de tecidos Martinho. Nessa foto, é possível identificar José Manuel Martinho, o nosso interlocutor, seguramente com menos de 10 anos de idade, acompanhado do pai e do seu tio.

À Loja do Pito ou do Zé Manuel do Pito vem gente de toda a região. O estabelecimento tornou-se conhecido por ter um gama diversificada de fazendas, botões, fechos. O nome pelo o qual a loja e as pessoas que lá trabalham são conhecidos, tem origem no tempo em que Francisco Martinho ainda fazia feiras. A sua mãe, bisavó do José Manuel Martinho, quando enviuvou, casou com um “pito” de Santa Leocádia. Portanto, a origem da alcunha conseguiu atravessar várias gerações e hoje continua a servir como identificador.

As alcunhas são características de meios pequenos onde, dada a proximidade, as pessoas se conhecem. Essa familiaridade acaba por dar origem a um leque variado de “nomes alternativos” pelos quais as pessoas são conhecidas e que têm as origens mais variadas e caricatas.

José Adélio, aproveitou a deixa para nos explicar porque é que hoje todos o tratam por Vieira: “Toda a gente nos conhece por Vieira, mas eu não tenho Vieira no nome! O meu último nome é Gomes. O povo é que me chama Vieira. O meu pai tinha um primo com quem se dava muito bem, andavam sempre juntos. Esse tinha de facto o sobrenome Vieira e o meu pai ficou Vieira também. Se viessem às Taipas e perguntassem pelo nome do meu pai, Manuel Gomes, ninguém sabia quem era. Se perguntassem pelo Manuel Vieira, já toda a gente sabia”.

José Manuel do Pito começou a ajudar na loja por volta dos seis ou sete anos: “Eram coisas pequenas, recados que o meu avô e o meu pai pediam aos mais miúdos. Comecei a vir aos domingos, quando a loja estava fechada. No final da missa as pessoas vinham e acabavam sempre por comprar. Nessas alturas, era eu e um primo meu. Um de nós ficava à porta para ver se vinha o fiscal, já que não era permitido fazer comércio ao domingo” – recorda José Manuel. O passo seguinte foi ajudar a vender no balcão, começando por vender linhas e agulhas ao tostão. “Eram as tarefas mais simples. Nós ainda não tínhamos tamanho nem prática para vender ao metro e dedicávamo-nos mais às miudezas. Já fazíamos as contas e trocos” – acrescenta.

Há um ensinamento deixado pelo avô Francisco, que José Manuel Martinho guarda ainda hoje. Os metros – as peças em madeira que são usadas para medir, estão coçados nas pontas de tanto uso. Era com estas mesmas peças que se mediam os tecidos que eram desenrolados em cima do balcão também de madeira, consoante as necessidades dos clientes. “O meu avô dizia-me sempre que neste ofício a medida é sagrada e para cortar o tecido sempre atrás do dedo polegar” – diz-nos exemplificando enquanto corta dois metros de fita de viés, para uma cliente que entretanto apareceu. “A medida é sagrada” pode ser um ensinamento importante para várias coisas na vida, acrescentamos nós.

Os tempos livres dos mais novos eram passados a aprender o ofício. “Tínhamos escola de manhã e de tarde. No fim da escola vinha logo para aqui ajudar o meu pai e o meu avô. Depois de o meu avô e o meu pai terem falecido dediquei-me mais a isto, juntamente com os meus irmãos”.

Os estudos não foram deixados de lado, José Manuel passou pela escola do Pinheiral, nas Taipas, e depois foi para a Escola Comercial e Industrial de Guimarães, onde tirou o curso de industrial – “guardava o dinheiro que os meus pais me davam para as viagens, para dar umas voltas, comprar sandes ou uns pirolitos no Sameiro ao fim de semana. Por altura dos 15 anos já me dedicava muito à loja, como se fosse profissional”.

Houve produtos que foram variando com o tempo. “Nós hoje temos muita coisa que antigamente não vendíamos. Dantes vendíamos malas de viagem e arcas para arrumos em chapa metálica. Chegámos a vender velas. Uma atividade que era muito importante para o comércio da vila era sermos agentes de vários bancos. Eu cheguei a ir muitas vezes a Guimarães fazer recados aos bancos. Embrulhava o dinheiro num jornal e lá ia eu de camioneta”.

O aparecimento do pronto a vestir teve um impacto muito grande no negócio, que servia muitas costureiras e alfaiates da região. Costureiras ainda vão havendo, mas alfaiates desaparecerem quase todos. Nas Taipas já não há nenhum. Mesmo assim, como explica José Manuel, continua a vender-se bem o tecido ao metro: “as costureiras e os alfaiates, que eram nossos conhecidos, serviam muitas vezes de fiadores, das pessoas que vinham comprar tecido, para depois fazer uma peça de vestuário. Havia algumas dificuldades financeiras e criava-se um compromisso de confiança. Fazíamos muito isso e felizmente nunca tivemos problemas”. Chegaram a trabalhar ao balcão seis pessoas na Loja do Pito.

Outra das habilidades de José Manuel era a bola de futebol, modalidade em que se iniciou aos 16 anos. Começou a ver os treinos e “uma altura o Batista, que era um treinador de Braga, chamou-me para ir treinar, para ele ver o que valia”. Tinha 17 anos. Ao terceiro ou quarto treino entrou para a equipa e iniciou-se numa carreira como futebolista. Depois da autorização passada pelo pai, fez os testes médicos e ingressou nos seniores do Clube de Caçadores das Taipas. Quatro anos depois de servir o clube da terra foi para o Riopele, jogando na segunda divisão nacional e foi ainda jogador em Vieira do Minho.

Chegado aos 20 anos foi altura de um primeiro afastamento da loja por parte de José Manuel Martinho. A tropa obrigou-o a ir para Caldas da Rainha: “foi um período em que não podia vir cá à loja. Só vinha ao fim de semana e ainda tinha de jogar futebol” – recorda José Manuel.

O negócio já está a ser passado para as gerações seguintes. Uma das filhas de José Manuel já chegou a trabalhar na loja durante muito tempo. Era mesmo funcionária, enquanto o pai trabalhava no posto médico em Santo Estêvão de Briteiros. Agora que José Manuel já tem netos está a ver se incute o gosto pelo negócio esperançado que a loja se mantenha.

Agora que a Câmara Municipal iniciou um processo de classificação de lojas históricas, José Manuel quer conseguir a classificação pela antiguidade da loja. Faz parte dos seus planos fazer obras no edifício.

A partir das portadas altas, José Manuel vai assistindo ao dia a dia da vila. “Tiraram daqui a feira e foi uma asneira. A feira trazia muita alegria ao centro da vila” – recorda o tempo em que a feira quase que lhe entrava pela porta adentro. “O centro da vila não é nada do que já foi. Estes jardins eram tratados e estavam quase sempre floridos. Agora é esta tristeza que se vê. Dizem que vão fazer obras aqui, mas não sei o que vão fazer” – diz-nos desconfiado.

A transformação do centro da vila terá que ir além da operação urbanística, muitas vezes reduzida ao processo de modificação dos pavimentos. A vitalidade dos espaços urbanos é garantida pelas pessoas que vivem esses espaços diariamente e os comerciantes são uma peça fundamental para o sucesso das intervenções como a que repara para o centro da vila.

“Está a ver os Correios? A partir das cinco e meia deixa de haver movimento” – diz-nos apontando para o edifício que fica em frente.

Transformar espaços é alterar vivências que são alimentadas a partir de memórias como muitas destas que se partilharam nestas páginas. Muitas das inquietações seriam certamente evitadas se um processo projetual não se fizesse à revelia da população que vive, ocupa e utiliza o espaço e que à sua maneira também o transforma e alimenta.

Reportagem publicada originalmente na edição número 276, de junho de 2019, do jornal Reflexo.