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Breves apontamentos sem sentido
Quarta-feira, Março 11, 2020

A folha branca à minha frente olha-me de soslaio. “Mais uma das tuas histórias?” parece interrogar-me. “Ou um eco…?” “Vai pentear macacos!” resmungo em surdina. Uma gargalhada esbranquiçada atinge-me o rosto. “E esses primatas penteiam-se? Pensava que se catavam!” “Que engraçadinha! Olha, sabes que mais? Vai chatear o Camões!” Zut! Quando menos esperava, levei com a folha na cara. Olhei para a porta da varanda. Estava fechada. E a porta da sala também. Olhei para a folha e vi-a cinzenta. Pensei que as sombras do entardecer começavam a invadir a sala e liguei o candeeiro de pé alto. Lá estava ela, a folha, agora a lançar-me olhares nada amigos. “Com os mortos não se brinca. Que descansem em paz!” “Ora, não recomeces. Isso foi apenas uma maneira de dizer -não me aborreças!- e tu sabes isso muito bem!” protesto. “Pode saber-se de onde vem essa disposição tão ácida? Quem te fez trepar pelas paredes?” procura saber. “Vês, agora és tu! Pensei que só o Homem Aranha trepava pelas paredes!” Não responde e começa a olhar-me fixamente, tão fixamente que parece uma verruma a perfurar-me lentamente o cérebro. Inconscientemente, levo a mão à testa e massajo-a muito ao de leve. Escalda. “Estou com febre” digo e um grande espirro escapa-se numa chuva de minúsculas gotas que molham a folha. “Ei, que porca! Não sabes tapar a boca com a mão? Porque é que tenho de apanhar com os teus micróbios? Onde está a tua boa educação? Não te ensinaram boas maneiras?” Irritada, levanto-me e procuro na gaveta da cómoda um lenço de mão. Não tenho vontade nenhuma de me voltar a sentar à mesa, mas o trabalho acumula-se e tem de ser feito. “Já tomaste os comprimidos para a rinite?” pergunta-me quando me sento. “Estás à espera de quê?” Embora não mostre sinal de concordância, acabo por lhe dar razão. Quando os medicamentos são necessários é preciso tomá-los. “Sim, sim, logo tomo-os, quando jantar…” afirmo distraída.

Absorta, não sei por onde anda o meu pensamento nem que caminhos traça… Vagueia bem longe num local nem frio nem quente, nem presente nem ausente, nem consciente nem inconsciente… Sinceramente, não sei quanto tempo estive nessa semi-inconsciência, nesse dormir em pé, nesse viver sem dar conta. Segundos, minutos, horas, dias… poderiam até ter sido séculos!

Foi uma risadinha esbranquiçada que me fez cair em mim. “Que vais fazer? Contar uma história ou redigir uma das tuas crónicas?” “Não sei” respondo.

Sou sincera. As palavras vão-se arrumando em linhas e estas em períodos manuscritos que vão formando sentido e vão ganhando uma vida própria. Não sei se constroem uma história, um conto na verdadeira aceção da palavra, nem se constituem o tal texto que reescreve uma situação do quotidiano de um modo sentido e expressivo como um recado a deixar a alguém. Que quero eu deixar? Um jogo de palavras que apenas formam sentido para mim? Uma construção complexa de frases que se seguem umas às outras sem outra função que não seja a de formarem, a de darem um significado ao conjunto de significantes mais ou menos bem escolhidos pelo autor? Não sei o que escrevi. Limitei-me a deixar a caneta seguir a mão que vai traçando a negro o que o pensamento vai mandando sem bem tomar consciência do que está a escrever.

Sinto-me cansada, vazia, mas ao mesmo tempo leve, porque dei sentido àquele instante em que, frente à irritante folha branca, não sabia em que ocupar o tempo e principalmente a mente. E a caneta risca, desenha, escreve, imbuída de uma estranha vida que recebe de um pulso comandado por impulsos nervosos do comando cerebral. “Estranha máquina o ser humano!” exclamo. “Põe verdade nisso!” contrapõe a folha. Já quase não a consigo ver por baixo do que fui manuscrevendo. A corrente parece ter acabado e as palavras deixaram de fluir. Há que pôr ponto final e partir para outra tarefa. Não sei o que fiz nem me preocupa. Aliás, hoje, nem me vou dar ao trabalho de (re)ler o texto. É tarde, vou dormir.

“Boa-noite!” digo, soltando um grande bocejo. Não recebo resposta. Completamente preenchida de garatujas negras, dorme profundamente.

Missão cumprida.