Benjamim apresenta concerto de encerramento da temporada nos Banhos Velhos
Benjamim apresenta concerto de encerramento da temporada nos Banhos Velhos
©Vera Marmelo
Quinta-feira, Setembro 20, 2018

O concerto com Benjamim e Barnaby Keen, no dia 22 de setembro, encerrará a temporada de 2018, nos Banhos Velhos, em co-produção com o programa Excentricidade.

Luís Nunes é o nome próprio por trás de Benjamim. O compositor, letrista e produtor, tem trabalhado com inúmeros outros artistas nacionais foi o nosso interlocutor numa conversa que conta uma história muito particular, mas com um grande sentido de universalidade e respeito pelo ser português.

Além daquela cassete de Beach Boys que ouvia em miúdo, o incentivo dado em casa, com a oportunidade de aprender violino, foi decisivo para aquilo que faz hoje?
Completamente, foi o meu primeiro contacto com o mundo da música quando tinha apenas 6 anos. Apesar de não ter sido muito bem sucedido no instrumento, o violino serviu para eu perceber que andava a estudar o instrumento errado. O instrumento é uma luta constante para conseguir tirar uma nota afinada e com bom som. É preciso gostar mesmo muito para se conseguir superar as primeiras dificuldades do instrumento. Provavelmente trouxe-me humildade muito cedo, ao perceber que a música era uma coisa mágica mas que podia difícil.

Qual foi a ambição que apareceu primeiro – ser produtor ou compositor e escritor de canções?
Eu acho que comecei a querer escrever canções para as gravar. No fundo, queria mesmo era fazer música, experimentar com notas, palavras e sons. Tinha um sistema de gravação muito rudimentar com cassetes por volta dos 11 e passava as tardes a improvisar com sons e teclados baratos.

Quando saiu para Londres foi com um propósito definido ou foi pela aventura?
Fui pelas duas razões. Quis fugir e tinha a melhor razão possível, fui estudar, trabalhar, fazer música, conhecer pessoas e ver o mundo. Fui aprender e perceber o que queria fazer realmente com a minha vida. Por isso também decidi voltar.

Foi nessa aventura em Londres que conheceu o Barnaby Keen. Em que circunstâncias é que se deu esse encontro?
Sim, conheci-o em Londres. Eu era técnico de som e ele era um músico que estava dentro do circuito, fiz som para ele muitas vezes. Ficámos amigos porque ele sabe falar português com um sotaque bem brasileiro.

Acabaram por gravar um disco em conjunto, que é quase uma ponte entre o Walter Benjamin e o Benjamim. Como descreve o momento em que decidem fazer o disco juntos?
Foi muito improvável. Ele veio tocar a Lisboa e depois foi ter comigo a Alvito, no Alentejo, onde eu tinha o meu estúdio. Às tantas começámos a tocar e a gravar umas ideias só pela graça e começámos a perceber que trabalhávamos bem juntos. Surgiu a ideia embriagada de fazermos um disco em português e inglês com músicas dos dois, onde pudéssemos explorar as nossas ideias e diferenças. O incrível foi mesmo termos conseguido levar a ideia à prática, passado uns meses ele estava a aterrar em Lisboa.

Como chega à conclusão que a persona Walter Benjamin estava esgotada e que uma outra deveria surgir a seguir?
Estava absolutamente farto de cantar em inglês, deixou de fazer sentido para mim. Quis escrever na minha língua, de maneira direta, para que as pessoas compreendessem. Queria que a minha música passasse a ser de algum lugar.

O “Auto-Rádio” foi o seu primeiro disco em português. Como se deu esse processo de reaproximação tanto com o idioma (como matéria para a escrita), como com as especificidades de se ser português?
Esse foi um processo radical de transformação pelo qual passei. Acho que a nível criativo e artístico foi extremamente violento, criou uma série de inseguranças e dúvidas em relação à minha música. Mas ao mesmo tempo foi extremamente excitante começar a descobrir um novo mundo para explorar. Ir viver para o Alentejo foi a maneira mais directa de me conseguir aproximar da minha língua e de quem eu sou, apesar de ser lisboeta. Fui buscar as histórias individuais mas também a memória colectiva, fui buscar muitas coisas ao meu passado que nunca tinha conseguido explorar nas minhas canções em inglês. Não dá para falar no Ultramar ou nos retornados em inglês, precisava da minha língua para trazer para as canções quem eu realmente sou.

Esse disco foi todo ele, mesmo depois de feito, uma aventura que até deu um filme. De que forma foi determinante para os seus planos como compositor e escritor? Foi uma espécie de tudo ou nada?
Completamente. Acho que teria desistido de tentar fazer canções e discos enquanto plano de carreira caso falhasse. Não foi um sucesso estrondoso, mas acho que me abriu as portas de um público que vai crescendo de forma orgânica, já não tenho pressa para nada.

O estúdio no Alvito ainda é onde trabalha como produtor?
Já não, agora estou a viver e a trabalhar em Lisboa.

Há uma marca muito própria no som que produz – o som dos teclados e das baterias, os reverbs. Quando um tema passa na rádio é fácil acertar que foi gravado pelo Luís Nunes. Tem essa noção, isso é assumido? Já tinha esse tipo de sonoridade na cabeça ou ele surgiu por acaso?
Não tenho essa noção mas fico contente por achares isso! Eu acho que vivo obcecado à procura de um som. Vai surgindo como um conjunto confuso de influências que tento reciclar e reinterpretar de uma maneira minha. Acho que é o tempo, a experiência e a aventura que me vão moldando o som.

Como é a experiência de trabalhar com outros músicos e cantores? É um trabalho de cedências e de equilíbrio ou acaba por ajustar-se tudo naturalmente?
Eu adoro trabalhar com outras pessoas e tenho a sorte de poder fazê-lo com pessoas excepcionais. Acho que são todos bons amigos e músicos que eu respeito. Há sempre tensão e cedências de parte a parte, faz parte do processo de criar alguma coisa. Mas no geral, sinto que quem trabalha comigo também confia em mim. No fundo é preciso ouvir e fazer-me ouvir.

Gravou uma canção do Fausto Bordalo Dias, em “Auto Rádio”. Produzir um disco do Fausto está nos seus planos?
Infelizmente não sou eu que defino esse plano específico! Seria obviamente uma honra.

Esteve também a estudar Antropologia. De que forma essa sua incursão se cruza com a música?
Conseguir olhar para a sociedade é uma ferramenta extremamente importante para quem escreve canções. Acho que a Antropologia me abriu os olhos de muitas maneiras.

Continua à procura da verdade das canções (a que se referiu em várias entrevistas)? O que será de si quando a encontrar?
Vou estar sempre à procura. Quando a encontrar parto para outra canção, rumo à próxima viagem.

Conhece o local onde vai tocar – os Banhos Velhos? O que poderemos esperar do concerto?
Não conheço mas estou desejoso por conhecer, espero que seja um grande concerto.