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As Taipas Merecem Melhor Sorte
Terça-feira, Outubro 6, 2009

Não me lembro de nenhum ano de eleições a sério (coisa bem diferente das chamadas “eleições” no tempo do fascismo) sem que certos teóricos aparecessem em público a desenvolver raciocínios, qual deles o mais manhoso, sobre o chamado voto útil.

A coisa estava neste pé, com o cortejo de ventríloquos a repetir o lamiré dado pelos “isentos e livres pensadores do costume”, quando o primeiro-ministro (ou seria o secretário-geral do PS, os papeis confundem-se) resolveu meter a sua colherada, passando um atestado de ignorantes aos potenciais eleitores do PCP e do BE.

Disse José Sócrates, para quem o quis ouvir e para quem não o foi ouvir mas teve que o gramar nas televisões em sucessivas investidas, que “não votar no PS e votar no PCP ou no BE é o mesmo que votar no PSD”. Nos dias seguintes foi ouvir e ler os tais que se auto consideram como dos poucos que pensam pela própria cabeça falarem e escreverem variações sobre o tema, ampliando a trampolinice até à exaustão.

Na história das eleições no Portugal pós 25 de Abril de 1974 se há coisa que não deixa dúvidas é sobre a prevalência de uma maioria sociológica que, sistematicamente e em termos globais, vota nos partidos da esquerda, o que leva os estudiosos a declarar que a “esquerda” é maioritária no Portugal pós 25 de Abril de 1974.

Logo, se a maioria dos eleitores vota à esquerda, se a “esquerda” é maioritária isso quer dizer que a “direita” está em minoria, ou, por outras palavras, que a “direita” é minoritária em Portugal.

Daqui resulta claro que se os votos dos eleitores de esquerda se mantiverem fieis e os dos eleitores de direita também se mantiverem fieis, a “esquerda” continuará à frente da “direita”, salvo quando os chamados “indecisos”, os que ora votam à direita ora votam à “esquerda” mudarem de opinião votando ao contrário do que costumam fazer, ou, outra hipótese académica, se a abstenção diminuir repartindo-se desigualmente, isto é votando mais à “esquerda” ou mais à “direita”, o que poderá desequilibrar o parto a favor de um ou outro lado da balança, ou ainda, outra hipótese académica, se o número de eleitores crescer. Mas em situação normalizada e salvo mudanças abruptas de sentido de voto, a “esquerda” continuará maior que a “direita”.

Sendo assim, os votos dentro da esquerda e os votos dentro da direita não mudam o resultado final, apenas muda a qualidade da esquerda ou a qualidade da direita. Se, dentro da esquerda e como espero, a CDU crescer e o PS diminuir mas continuar com mais votos, o que muda é a relação de forças dentro da esquerda, mas em circunstância alguma implica o crescimento da “direita”. Por isso a afirmação de José Sócrates é um bluff intelectual para assustar os potenciais eleitores da CDU com o fantasma da “direita”.

O que nem Sócrates nem nenhum dos seus apóstolos esclarecem é para que serviu no passado o apelo ao voto útil à esquerda. Consulte-se a história eleitoral portuguesa em democracia e verificaremos que tais apelos por parte do PS são velhos, são de todas as eleições, sejam legislativas, europeias ou autárquicas e muitos eleitores que não querem a “direita” no Poder deixam-se enganar no conto do vigário. Mas passadas as eleições, com os votos no papo, o PS recusou sempre qualquer entendimento com a CDU ou o PCP, nomeadamente, e correu para os braços da “direita”, a mesmíssima “direita” com que assustou os eleitores de “esquerda”. Este fingimento tem de acabar!

Vamos a votos em Setembro e em Outubro. Formulo três desejos: o primeiro, que quem queira mudar o que está não procure desculpas com a falta de alternativas, porque as há e saltam à vista desarmada; o segundo, que nenhum eleitor se deixe levar pelo conto do vigário e vote sem medo dos fantasmas; o terceiro, que nas Taipas se ponha fim ao radicalismo aventureirista sem entregar a Junta ao radicalismo servilista. Merecemos melhor sorte!