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As Nicolinas precisam da Unesco?
Quinta-feira, Dezembro 8, 2016

Isto é uma provocação. Mas é uma provocação séria. Faz-me bastante confusão quando uma discussão começa pelo telhado e não responde convenientemente a um conjunto de premissas de base. Escrevo-o a propósito do sempre acalorado debate acerca da classificação das festas Nicolinas como Património Imaterial pela Unesco. O que vou lendo e ouvindo sobre o tema parte sempre do pressuposto de que a classificação tem vantagens inquestionáveis – ainda que nunca se explique bem quais são.

Acompanhei este processo desde o seu início. Como cidadão, como blogger, como jornalista. Muito provavelmente por isso, a Câmara de Guimarães convidou-me a moderar as três sessões públicas a propósito do estudo dirigido pelo antropólogo Jean-Yves Durand e que teve as festas Nicolinas por objecto. Estive, por isso, muito envolvido no assunto, conheci a fundo as conclusões dos especialistas e assisti num lugar privilegiado a alguns debates públicos sobre o assunto. Este processo de reflexão tem sido, para mim, longo. E, numa década, o meu pensamento mudou.

Bastará recuperar alguns escritos meus na blogosfera, por exemplo, para perceber que era um entusiasta desta candidatura e embarcava no mesmo fervor vimaranense que leva a que a discussão esteja a esquecer a resposta a premissas de base. Hoje, tenho bastantes mais dúvidas do que certezas sobre as vantagens e mesmo as possibilidades desta classificação. Exponho-as em seguida.

Há duas listas de classificação como Património Imaterial. A lista principal e uma lista dedicada a património que necessita de salvaguarda urgente. É nesta lista que se incluem a manufactura de chocalhos ou a produção do barro preto de Bisalhães, em Vila Real, classificada na semana passada. Estas são talvez os dois elementos portugueses da lista da Unesco que podem causar mais estranheza. Mas convém sublinhas que estão classificados porque correm o risco de desaparecer e precisam de protecção especial. O que manifestamente não é o caso das Nicolinas.

As festas dos estudantes de Guimarães caberiam na lista principal, que tem como objectivo “garantir a visibilidade e consciencialização da importância do património cultural imaterial”, lê-se no site da Unesco. Ora é precisamente aqui que começam as minhas dúvidas. É preciso aumentar a visibilidade das Nicolinas? Bastará andar pela cidade na semana das festas para perceber que não. Os números habitualmente menos participados têm hoje uma energia renovada, a começar pelas Maçazinhas e as Posses.

Centro-me no exemplo do Pinheiro, há muito principal força das Nicolinas, que parece já ter ultrapassado os limites de inclusão de participantes externos a Guimarães. O cortejo está cada vez menos organizado e é mais difícil tocar como deve ser e manter algum ritmo no percurso entre o castelo e o Campo da Feira. A classificação atrairia mais gente de fora? Muito provavelmente, sim. E isso era bom? Muito provavelmente, não. Se a festa se transformar em Romaria, perde a sua identidade. Que é precisamente o que uma classificação pela Unesco deve reforçar.

A esta inquietação – que, não tenho dúvidas, é partilhada por nicolinos fervorosos — juntam-se outras, de resto identificadas pelo tal estudo antropológico. A Unesco sublinha que os bens a classificar devem ser compatíveis com valores universais de direitos humanos. Ora, uma festa que carbura à base de álcool, que permite praxes e que reserva às mulheres um lugar secundário atenta contra estes valores? Pessoalmente, penso que não. Mas não tenho a certeza que o júri da Unesco pense da mesma forma.

Eram estas as perguntas que creio que deviam estar a ser feitas e a motivar uma discussão empenhada dos vimaranenses. A discussão, parece-me, ainda está por fazer. E, antes dela, de pouco vale defender uma candidatura internacional.

Jornalista do Público