Sobre as incoerências do Estado
Quinta-feira, Dezembro 14, 2017

Dediquei parte da minha adolescência ao CART. Treinávamos três vezes por semana e, ao fim de semana, corríamos o norte do país, de Viana a Vila Real, para jogar. O CART era uma vida. Hoje quando olho para trás não consigo deixar de ficar surpreendida com a entrega que aquelas jovens adolescentes dedicavam ao clube da terra. Admirável era igualmente a abnegação dos dirigentes que, de forma voluntária davam o seu tempo e paciência para que tudo corresse sempre bem. Não era fácil aturar-nos, mas a boa vontade do Sr. Pereira, do Sr. Maia, do Aurélio que nos preparavam os treinos, nos levavam a casa e que estavam sempre lá para o que precisássemos era formidável. Sei que hoje a dedicação das jovens atletas e dos dirigentes continua empenhada, e ainda bem. Um grande bem-haja a eles.

Este ano, e com as obras na EB 2,3, que é casa do CART há muitos anos, este ficou sem local para os treinos de voleibol. A direcção fez o que seria expectável e recorreu às instituições da vila para colmatar essa necessidade pontual. Solicitou o pavilhão gimnodesportivo da Escola Secundária para os treinos de três equipas. A direcção da Escola Secundária entendeu que três equipas era demasiado, tendo autorizado apenas a utilização por parte de um equipa, 6 horas por semana. Por esta cedência pediu ao CART 500 euros mensais, cerca de 21€/hora, um valor semelhante ao praticado pelos privados.

No mês passado ficamos a saber que a CMG irá pagar à Escola Secundária, na sequência da deslocalização dos 5.º e 6.º anos para aquela escola, um subsidio de 750€ pela utilização de “oito salas de aula normais, uma sala específica para a disciplina de Educação Visual e Tecnológica, um bloco de balneários (M/F) para a disciplina de Educação Física, uma sala de trabalho destinada a pequenos grupos para as atividades da Educação Especial e uma sala para a instalação de um gabinete de serviços de apoio (administrativo/direção)” – in reflexodigital.

À sociedade civil cabe a função de observar a gestão da coisa pública e por isso merece ser sabedora das razões que levaram o gestor público à tomada da sua decisão. Ao ler esta notícia do Reflexo, há desde logo uma série de perguntas que importava ver esclarecidas. Deixo três:
Quais foram os critérios que a Escola Secundária utilizou para chegar aos valores cobrados à CMG? E ao CART?
Qual a razão para uma discrepância tão grande de valores?
Porque é que escolas como a EB 2,3 ou a Escola de Ponte, ou de Briteiros podem oferecer o pavilhão por um valor bastante inferior ao pedido pela Escola Secundária?

É inquestionável a importância do contributo que associações como o CART dão à formação dos jovens. Desde logo a prática desportiva promove um estilo de vida mais saudável mas, a influência destas associações é muito mais abrangente. É o incutir de valores como o espírito de equipa, o respeito pelo adversário, a honra, o trabalho e dedicação. É a semente do associativismo voluntário, que permitirá que as associações atravessem gerações, perpetuando estas boas práticas. O Estado reconhece esta competência ao CART. Relembro o estatuto de Utilidade Pública do CART, que “distingue associações não lucrativas que prossigam fins de interesse geral em cooperação com a Administração central ou local”. Ora o Estado que reconhece a utilidade pública do CART é o mesmo que cobra um preço excessivo e desajustado à associação. Como explicar esta incoerência?