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E as empresas o que fazem pelo concelho?
Quinta-feira, Julho 19, 2018

Desde há cinco anos que o Município de Guimarães faz da captação de investimento e de empresas uma das principais linhas da sua actuação política. Não é novidade para quem me possa ler neste espaço, que discordo da absoluta centralidade que é dada às questões económicas. Não é essa, no entanto, a reflexão em que me tenho detido nos últimos dias e que aqui partilho. Não é essa a questão que quero aqui colocar.

Mas comecemos pelo início. Já escrevi em 2015 que a dinamização económica de um concelho não é, nos dias que correm, uma estratégia. Uma aposta como estas não estabelece diferenças, apenas impede que estejamos a perder o barco face às apostas que são feitas pelos territórios vizinhos. É uma ferramenta. Importante, mas sem condições para ser vista como estratégica, porque não tem condições de ser diferenciadora.

Olhar para as estratégias de dinamização económica como o ponto central da actuação de uma instituição pública faz, por isso, pouco sentido. Mas é isso a que assistimos.

Por vezes é até interessante recorrer aos discursos oficiais para percebermos o que vai na cabeça dos responsáveis políticos. Atentemos na frase que retirei do site da iniciativa “Guimarães Marca”, apresentada como “uma estratégia fundamental do Município de Guimarães” (…) porque Guimarães “é mais do que cultura””.

À análise das palavras, juntemos a dos actos. A amostra é a agenda da reunião de Câmara desta semana, onde os vereadores votaram uma alteração ao Plano Director Municipal para responder às necessidades de uma empresa e uma desafectação de um terreno do domínio público para o alargamento de instalações industriais.

Decisões como estas são recorrentes nas reuniões do executivo nos últimos cinco anos. Baseadas num suposto interesse público e em critérios que têm apenas em conta o ponto de vista dos empresários, os políticos tomam estas decisões que têm custos para o erário público. São taxas que não são cobradas, são receitas de que – todos, colectivamente — abdicamos. Não é suposto, enquanto comunidade, recebermos alguma coisa em troca?

Às receitas de que a Câmara abdica, junta-se o investimento directo nesta iniciativa. A gala Guimarães Marca, no final do ano passado, custou mais de 40 mil euros. A empresa que faz a gestão de marketing da iniciativa recebe uma avença de 2000 euros mensais. E estes são só os dados que encontrei no portal da contratação pública com uma busca pouco exaustiva. Haverá outros exemplos, certamente. O que quer dizer que o município usa milhares de euros anuais que são de todos para promover os negócios que são de uns quantos.

Insisto na questão: se o dinheiro da comunidade e os esforços da comunidade são colocados em prol dos negócios privados, não é suposto que esses negócios privados retribuam à comunidade? Olhemos à volta. A Companhia de Teatro de Braga tem algumas das principais empresas do concelho vizinho entre os seus mecenas, a programação do Theatro Circo, também em Braga, tem sido parcialmente paga por apoios de empresas locais. O mesmo acontece com a companhia Comédias do Minho, no Alto Minho, ou com a Casa das Artes de Famalicão.

O que vemos acontecer em Guimarães? Olho para o último programa da cooperativa A Oficina e encontro apenas uma empresa industrial elencada nos “apoios” da estrutura. Mecenas, nem vê-los. Não pode ser assim. Se Guimarães tem feito tanto pelas empresas, não está na altura de exigir que as empresas façam mais por Guimarães?

Post scriptum: Seis semanas depois das declarações do vereador do Urbanismo sobre a tal “visão da Cidade”, já alguém a ouviu ser enunciada? Continuo à espera. Voltarei ao tema após as férias. Não é assunto que se possa deixar morrer.