Crónica do Ocidente e do Oriente
Quinta-feira, Julho 9, 2009

Em Setembro de 2001, no rescaldo do horror que destruiu o World Trade Center, escrevia eu neste jornal que essa tragédia assinalaria uma mudança radical no curso da humanidade. Referia-me, nessa altura, à necessidade de olharmos para aquele acontecimento não como uma guerra entre o Ocidente e o Oriente, entre o Cristão e Muçulmanos, mas uma guerra contra a raça humana. A partir desse facto e dessa data – embora deva confessar que não descortino muito bem a verdadeira razão, ou razões, para tal – tenho-me interessado bastante mais por entender estes dois “mundos” tão próximos e tão distantes.

As razões de desconfiança mútua são muitas e são seculares. As guerras, os medos, as desconfianças, os fundamentalismos e os integrismos religiosos – depois de os muçulmanos terem arrasado Jerusalém e o Império Bizantino, em 638; depois de, a partir do século XI, se ter instalado o espírito de cruzada contra o “mouro”; e após tantos outros episódios e acontecimentos – as guerras, dizia, têm minado as relações entre povos e civilizações secularmente tão próximas e historicamente tão às avessas.

Por outro lado, é inegável que o mundo muçulmano, ou parte dele, mergulhou há muitos séculos num integracionismo que em nada tem contribuído para a aproximação com o “ocidente”. O exemplo do filósofo Averróis (Córdova, 1126 – Marrocos, 1198), cuja obra foi esconjurada e queimada pelos integracionistas, representa possivelmente um dos últimos gritos do mundo muçulmano em prol da razão, e não da fé, como caminho para o conhecimento. (A este propósito lembremos, aliás, o excelente filme do cineasta egípcio Youssef Chaine, O destino, Palma de Ouro em Cannes, em 1997, e que, infelizmente, pouca divulgação teve em Portugal).

Mas a obra de Averróis, apesar de todos os contratempos, mau grado as condenações provindas dos mais diferentes espaços onde despontava o integrismo e o fundamentalismo, acabou por chegar, em parte, até nós, demonstrando que o conhecimento humano poderá sempre abrir caminhos em direcção ao outro, em direcção ao progresso.

É por isso que também a recente visita do Presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, e o discurso, pronunciado na Universidade do Cairo, no dia 4 de Junho, poderá ser também considerado como fundador para uma reconciliação histórica entre o Ocidente e o Islão e também entre Israel e o mundo árabe. Pensar que será um caminho fácil é um juízo que ninguém se atreverá a fazer. Mas também é certo que a política dos pequenos passos apenas tem produzido sucessivos impasses e repetidos fracassos.

Talvez alguns israelitas comecem agora a reconhecer a necessidade de um Estado palestiniano. E os palestinianos aceitarão, ainda que em silêncio, que também Israel tem direito ao seu Estado. Por isso, para quê sentá-los, pela enésima vez, à mesa das conversações, quando se sabe de antemão a posição de uns e outros? Por outro lado, se é difícil encontrar bases sólidas para um diálogo israelo-palestiniano, não podemos esquecer que ele tem de ser secundado por políticas concretas e alargadas nas quais se contemplem igualmente as relações entre o Irão e os Estados Unidos, sem esquecer a situação no Iraque, no Afeganistão… Ou seja, uma política global reconciliação acompanhada de um “plano Marshall” suficientemente generoso para assegurar a prosperidade das pessoas e das nações naquele que costumamos designar por “mundo oriental”.

É verdade que, segundo Napoleão, havia apenas duas grandes “nações” no “velho mundo”: o Oriente e o Ocidente. Mas o mesmo Napoleão, na sequência das campanhas do Egipto, e uma vez chegado à cidade de Alexandria, em 1798, proclamava aos habitantes desta cidade: “Nós também somos verdadeiros muçulmanos”. Creio que o excêntrico Imperador tinha alguma razão. Na verdade, o Oriente não corresponde a nenhuma designação geográfica, mas antes a uma invenção cultural e política do “Ocidente” que assim reúne, sob o signo do exotismo e também da inferioridade, as várias civilizações a leste da Europa. Isto muito embora para os portugueses, por exemplo, o termo orientalismo reúna igualmente um conjunto de experiências históricas, configurando-se como uma das sedes mais ricas da nossa mitologia colectiva, das nossas tradições e da nossa civilização.

Por isso, merece a pena reflectirmos um pouco mais sobre esta torrente profunda e tumultuosa que quotidianamente preenche as notícias dos nossos media “ocidentais”. Sem esquecer nem escamotear os factos históricos – dos quais evoquei brevíssimos exemplos – é preciso acreditar no caminho para a reconciliação e para a paz por mais escorregadio e perigoso que ele possa ser.

Miranda do Douro, 27 de Julho de 2009