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  POLÍTICA   Sempre os Mesmos a Mandar
Quinta-feira, Julho 2, 2009

O Governo PS/Sócrates vai terminar o mandato com dois emblemas na lapela que lhe estragam o retrato com que gostava de ficar na história.

Vai sair com um défice orçamental superior ao encontrado quando tomou posse e tão duramente criticou e também vai sair com a mais elevada taxa de desemprego do Portugal democrático.

Todos sabemos que Sócrates e seus apaniguados não se cansam de alegar que a culpa é da crise internacional, cujas costas largas dão para tudo até para esconder as causas internas, seguindo aliás uma linha de argumentação comum aos partidos no poder por essa Europa fora, o que deixa perceber a preocupação em unir forças para salvar os cacos indispensáveis para reconstruir um projecto de integração assente na interdependência das economias nacionais, um projecto que esbate e reduz as soberanias em benefício dos centros de decisão supranacionais, onde predominam as teorias neoliberais que tantos prejuízos económicos e sociais estão a causar.

As causas do nosso atrofiamento são anteriores à crise internacional e se algumas culpas podem ser atribuídas à crise importada é do mais elementar bom senso não perder de vista e muito menos subestimar as culpas domésticas, para evitar recaídas ou para não continuar em “coma económico” assim que a crise internacional passe.

A troco de euros, fundos de coesão e lugares em Bruxelas, venderam a nossa economia. Como consequência, 80% do que pomos sobre a mesa para comer vem de fora, o que teve como preço o abandono da agricultura e o desmantelamento das pescas. Portugal tem uma imensa riqueza piscatória, uma zona económica exclusiva extensa que se bem aproveitada forneceria de muito, variado e bom peixe a dieta dos portugueses, além de sustentar empresas, maioritariamente pequenas e médias, que empregam pescadores no mar e outros trabalhadores em terra. Porém, o que acontece é os governos do PS e do PSD, com ou sem o CDS, terem cedido aos interesses espanhóis cuja frota pesca nas águas portuguesas o peixe que os portugueses não podem pescar.

Pior é se o tratado de Lisboa for aprovado, situação em que a gestão da nossa zona económica exclusiva sai de Lisboa e passa para Bruxelas. Caso para dizer que isto vai de mao a piau.

Outra decisão com efeitos negativos devastadores na nossa economia e no desemprego respeita aos têxteis. Quem assistiu sem reacção ao desarmamento alfandegário, ao fim do acordo multifibras e à plena integração da China, Índia, Paquistão e Bangladesh, entre outros, na OMC, Organização Mundial do Comércio, tem de ser responsabilizado pela morte de milhares de empresas têxteis, do vestuário e do calçado impotentes para enfrentar concorrentes onde a mão de obra ainda é mais barata e os direitos sociais e ambientais são primários.

A crise internacional vai passar. Falta saber quando.

Mas quando ela passar vai ficar à vista a nossa fraqueza, o nosso atraso, o nosso subdesenvolvimento antigo. E a taxa de desemprego permanecerá elevada. Não produzindo e importando, continuaremos a endividar-nos, tanto pelo lado das empresas como pelo lado das famílias. Até que nova crise nos bata à porta. E então serão os do costume a pagar, a apertar o cinto em nome do défice. Porque são sempre os mesmos a mandar.

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