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Crónica das piranhas e dos crocodilos
Quinta-feira, Abril 16, 2009

As piranhas (lembram-se?) atacaram o rio Ave aí pelo ano de 1995 ou 96, não estou bem certo. A patranha partiu de um Jornal do Curso Tecnológico de Comunicação da Escola Secundária de Caldas das Taipas onde, a propósito da poluição no referido rio, se construía um texto, bem-humorado e jocoso, denunciando essa situação. Humor e boa disposição foi o que faltou a um jornalista que, ao ler o texto, não compreendeu esse tom chistoso, caindo no logro de noticiar como verdadeira a notícia da existência de piranhas no rio Ave.

A notícia correu célebre, saltando ainda como verdadeira para as páginas do Primeiro de Janeiro. A partir daí, descoberto o engano, fez-se notícia daquilo que não era notícia, a ganância e a cegueira jornalística por noticiar novidades sem se preocupar com a sua veracidade, por mais absurdas que sejam as fontes ou as ditas notícias.

Passados estes anos a notícia e o embuste repetem-se aqui por Terras de Miranda, com contornos ligeiramente diferentes, é certo, mas também com assombrosas semelhanças.
“Portugal proibiu os banho no Rio Douro perante o grave perigo de ataque de crocodilos.”

Assim começava a insólita notícia do jornal espanhol La Opinion, de Zamora, que surpreendeu as autoridades portuguesas, incluindo aquelas que aponta como as protagonistas da história. A prova da notícia era um sinal colocado no embarcadouro para o cruzeiro ambiental de Miranda do Douro bem visível a quem se dirige para o barco, com um fundo amarelo em que sobressai a figura de um crocodilo. Em volta do animal duas frases em inglês: “Danger Crocodiles / No Swimming” (Perigo Crocodilos/Não nadar).

Dizem as notícias posteriores que o sinal fora aí colocado e deixado por um turista australiano apenas para “tirar uma fotografia”; garantem outras que se tratou de um “golpe publicitário” por parte do empresário que assegura os ditos cruzeiros. Ambos os fundamentos têm também o seu quê de inverosímil. Aliás, o que mais interessa compreender não é por que é que o sinal aí estava mas a razão pela qual se transformou em notícia, “verdadeira”, da existência de crocodilos no rio Douro. O mesmo se pode dizer sobre o famoso episódio das piranhas do Ave. A notícia deixou de ser a poluição no rio e passou a existência, “real”, dos ditos peixes, carnívoros, e a forma como a brincadeira foi deformada para se notícia.

É fácil cair na tentação de criticar e de crucificar os jornalistas. Todos sabemos que os média são cada vez mais incendiários e manipuladores. Mas não são também os leitores a fazerem eco das não-notícias, partindo do princípio de que se foi noticiado é porque é verdade? Falta rigor, qualidade, ética e meios a quem tem tanto poder para influenciar as massas. Nestes dois episódios foi possível reconstituir o fio à meada. Mas quantos não haverá em que tal é muito mais difícil ou ninguém sequer se interrogou se isso seria bem assim?

Uma sociedade que não se interroga, que não pensa, é uma sociedade escravizada. As redes de comunicação, as tecnologias digitais, as chamadas redes sociais, estão a criar uma nova realidade, cada vez mais virtual, que tem tendência a afastar-nos do nosso mundo e da nossa identidade. Com o aumento do acesso a essas redes, vamo-nos distanciando, aos poucos, da nossa cultura, do nosso próprio mundo, para uma sociedade que não pensa o indivíduo, mas pensa nas pessoas enquanto pertencentes a uma massa. Deste modo as piranhas, carnívoras, que povoam alguns rios da América do Sul, podem perfeitamente deslocar-se para o rio Ave. E os crocodilos, que vivem nos rios ou no mar das Américas, África, Ásia, Austrália e Pacífico podem agora habitar, sem grande estranheza, o rio Douro. É por isso que a análise destas e de outras notícias não pode quedar-se pela crítica fácil. O grande desafio é o de transformar os indivíduos em meros processadores de informação, portadores de ideologias ou crenças colectivas, mas em pensadores activos, capazes de produzirem e de comunicarem soluções para as questões que lhe são colocadas e sobretudo para aquelas que eles se colocam a si mesmos.

Miranda do Douro, 27 de Março de 2009