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  POLÍTICA   Nuvens negras no horizonte
Terça-feira, Janeiro 6, 2009

A crise que começou por ser financeira foi-se estendendo paulatinamente à esfera da economia real, afectando-a de modo devastador.

Uns após outro caiem mitos e certezas inabaláveis. Um após outro os golpes de rins sucedem-se e personagens que antes declararam solenemente que o pior da crise tinha passado ou que o nosso país estava preparado como poucos ou nenhuns outros para a enfrentar, esquecem o que anunciaram em Fevereiro, omitem o que sempre apregoaram e, com o sorriso mais seráfico que o marketing político lhes recomenda, entram pelas nossas casas dentro declarando como verdade e certeza o que antes disseram ser mentira e duvidoso.

Eles chegaram tarde à realidade. Melhor dizendo, eles só se renderam à evidência quando escondê-la por mais tempo deixou de ser possível.

Mas fazem-no da pior forma. Mentindo descaradamente.

Mentindo, quando dizem que a crise é internacional, fingindo que a crise nacional, que lhe é historicamente anterior, nunca existiu.

Mentindo, quando se auto-proclamam autores de obra que não lhes pertence, mas a outros. Quem sempre e sistematicamente disse ser um absurdo exigir ao governo que reivindicasse junto do banco Central Europeu a baixa da taxa de juro Euribor não tem autoridade política para agora vir à televisão reivindicar para si os louros dessa mesma descida.

Um governo que em muito do que fez ou tentou fazer deixou a marca do seu pouco ou nulo apego aos interesses dos trabalhadores de todos os sectores de actividade, dos professores aos juízes, dos médicos aos militares, afrontando-os depois de os proscrever perante a opinião pública, carece de autoridade política para lhes pedir compreensão e acalmia social.

Quando a sociedade portuguesa se aperceber em 2009 que os sacrifícios e provações que o governo socialista moderno lhe impôs não têm paralelo no desvelo com que trata os ricos e poderosos banqueiros e afins, sofrerá enorme desilusão.

Em 2009, muitos dos que foram para o desemprego vão perceber que este socialismo popular não lhes abre perspectivas nem a curto nem a médio prazo, prolongando a agonia. E a situação pode tornar-se mais dramática quando a essa percepção se juntar a da ineficácia real das medidas governamentais tomadas para debelar a crise e que, já não há dúvidas senão para os senhores ministros e seus ventríloquos, serviram para encher os cofres da banca.

Durante demasiado tempo, o governo e seus apaniguados esconderam a verdade ao país, injectando-lhe doses excessivas de confiança que os factos não comprovavam. Semearam ilusões que no primeiro semestre de 2009 se vão desfazer e vão potenciar uma crise social de consequências difíceis de prever.

Apesar dos contratempos saibamos ter paciência.