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Crónica do ano de 2008
Sexta-feira, Fevereiro 6, 2009

O ano de 2008 ficará para os anais como um dos mais excepcionais na nossa História recente. De todos os acontecimentos ocorridos, quer a nível internacional quer nacional, tanto quanto é possível separar, hoje, os dois campos, alguns há que merecerão, certamente, mais do que outros, o devido registo nos Anais futuros. Em meu entender, no plano internacional, ficarão para a memória a crise económico-financeira e as eleições norte-americanas. No plano nacional, não poderá ser esquecida a questão da Educação.

O primeiro impacto da propalada crise económica e financeira é aquele que sentimos, diariamente, no valor dos empréstimos (da casa ou do carro), ou seja, no preço do dinheiro que se tornou cada vez mais caro. Por outro lado, aumentam igualmente as dificuldades em contrair empréstimos, quer para os particulares, quer para as empresas, quer para as próprias instituições financeiras. Sem dinheiro nem capital chegam as falências com o seu rol de danos colaterais como o desemprego e a descida do consumo. Porém, para além destes efeitos, outros há, certamente menos visíveis, mas possivelmente, mais profundos e, por isso, mais preocupantes. A crise veio pôr em causa um dos fundamentos da modernidade ocidental que o chamado sistema capitalista adoptou como seu: a crença no desenvolvimento e no progresso como algo certo, inexorável e inquestionável. Perante esta realidade o homem duvida, tem receio, e assim se instalaram, no passado, sistemas políticos que se aproveitaram destes medos e fracturas.

Mas os diferentes escândalos de corrupção, agora com rostos visíveis e conhecidos, abalaram igualmente outro dos pilares da nossa sociedade: o individualismo, a confiança no outro, sem intermediação do Estado. Em rigor, talvez fossem estes os últimos sustentáculos da modernidade que agora, com desencanto do mundo, a desagregação das referências culturais e religiosas, o fim das utopias revolucionárias, abrem as portas da verdadeira pós-modernidade.

Curiosamente, ou talvez não, o discurso político do candidato vencedor das eleições norte-americanas, Barack Obama, é todo ele voltado para o indivíduo, para os pequenos grupos, para as minorias, para os microcosmos sociais que se assumem como confluências da humanidade. É certo que Obama é, antes de mais, uma consequência. Consequência do desgaste político dos republicanos, radicalmente acentuado pela tal crise económica e social. Mas, retirada a emoção e o espectáculo próprios do jogo político, algo tem de ficar para além da encenação. A subtileza da frase de campanha – Yes, we can – trouxe para a ribalta os verdadeiros protagonistas, “nós”, esquecendo o “eu” do candidato, encoberto para ganhar mais força nesse movimento colectivo.

Vistos de fora, os Estados Unidos parecem agora um país mais apresentável. Mais respeitável e respeitador. Contudo, mesmo se Obama possui uma abertura ao mundo sem paralelo entre os políticos americanos, não é certo que ele possa fazer aquilo que o mundo espera dele. As circunstâncias – a crise da habitação, a segurança social, o desemprego – obrigá-lo-ão a uma espécie de isolacionismo forçado e não ideológico. Por isso, o risco de decepção é bastante provável. Mas isso não nos pode impedir de saudar o momento histórico desta vitória, a carga simbólica desta eleição e o regresso, ainda que por breves instantes, da universalidade do sonho americano.

Nós por cá é que não vamos em sonhos. Em matéria de educação, pelo menos, há muito que eles se esvaneceram nas quimeras das índias. Que a educação precisava de uma boa reforma isso é inegável. Mas a consistência das reformas não se mede segundo a velocidade com que elas são implementadas. Ao contrário do discurso americano, plural, polifónico, que propõe uma construção e uma discussão partilhada, o Ministério da Educação opta por um discurso de primeira pessoa, autoritário, unívoco e portanto não sujeito a discussões nem alterações. Os actuais remendos e retrocessos começam justamente a demonstrar a fragilidade do processo, a debilidade das mudanças, a fraqueza das medidas.

Ao contrário do “nós” americano, foi contra o “nós” dos professores que se ergueu esta reforma educativa, ofensiva da dignidade de muitos e francamente discutível quanto aos verdadeiros objectivos que deveriam ser a melhoria das aprendizagens.

À escala colectiva, internacional e global, a ofensa à dignidade dos povos tem-se traduzido no renascimento dos fundamentalismos e de outros ismos, que são também a consequência, é certo, de muitos anos, décadas, mesmo séculos de opressão e de negação de direitos fundamentais. À escala nacional, na reforma do sistema educativo, a ofensa traduziu-se, entre outras manifestações, na tentativa de apagamento de muitos anos carreira, de trabalho e de entrega, reduzidos aos últimos sete (número mágico, por sinal) e ao trabalho burocrático.

Por isso, o ano de 2008 encerra sob o signo da esperança. Ela é a verdadeira mãe de todas as batalhas. A ave que, parafraseando Miguel Torga, espera o amanhecer, o tempo com asas, a Primavera e a Liberdade.

Picote, Miranda do Douro (27.12.2008)