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  POLÍTICA   Um cartaz dentro da vila
Quarta-feira, Dezembro 31, 2008

Aproxima-se o tempo que alguns convencionaram ser de solidariedade, de justiça e de fraternidade. Porque de tal convenção não vem mal ao mundo, salvo o de iludir uns quantos que acreditam que uma onda de paz e amor está para chegar, divaguemos sobre a quadra e as esperanças que ela representa para as crianças e os bem-aventurados.

O Mundo está de pernas para o ar.

Durante mais de trinta anos foram gastos rios de tinta e toneladas de papel na difusão de que uma época de prosperidade imensa e infinita tinha chegado e da qual todos os homens e mulheres ou já estavam a beneficiar ou em breve beneficiariam.

Com a introdução da rádio e da televisão, sobretudo esta a cores, os quadros que nos apresentavam eram sempre e invariavelmente risonhos e auspiciosos, com toda a gente a viver bem, empregos em abundância, salários com poder de compra, reformas e pensões que asseguravam o envelhecimento tranquilo.

A Europa desempenhou durante décadas o papel de exemplo que muitos países gostavam de copiar. Particularmente os países nórdicos, com a Suécia e a Noruega à frente, seguidos da Dinamarca e da República Federal Alemã, orgulhavam-se do progresso social conquistado e das sociedades equilibradas e coesas que se consolidavam pelas governações social-democratas. Mesmo nos EUA, desde os fins da segunda guerra mundial até aos anos setenta verificou-se uma partilha mais justa da riqueza produzida, com a sociedade americana a tornar-se menos desigual. Foi o tempo do sonho americano de emprego para todos e justiça social. Mas foi também o tempo em que havia no Mundo a competição entre duas concepções sociais e económicas antagónicas: o capitalismo, por um lado, e o socialismo, pelo outro.

Depois, a social-democracia abandonou o objectivo de derrotar o capitalismo, optando por o reformar gradualmente em direcção ao socialismo, para mais tarde aceitar o capitalismo e procurar dentro dele impor o Estado-Previdência e o pleno emprego. É certo que, com tais mudanças, a social-democracia foi capaz de conservar o essencial das suas bandeiras, o bem-estar social, elevados níveis de emprego, bons serviços públicos e as alavancas da economia nas mãos do Estado.

Até que de Chicago soaram as vozes de Milton Friedman e os seus apóstulos e o liberalismo económico ganhou terreno e predominância. Primeiro à força, no Chile com Pinochet, depois na Argentina e mais tarde na Inglaterra com Margaret Thatcher, até que se expandiu e atingiu a Europa, contaminando-a a partir do centro nevrálgico, a então Comunidade Económica Europeia e actual União Europeia. Uma a uma, as bandeiras da social-democracia foram sendo recolhidas, trocadas pelas bandeiras do neo-liberalismo. Hoje, na voz de alguns dos seus maiores defensores, nacionais e estrangeiros, a social-democracia define-se como defensora da democracia liberal, no plano democrático, militante do capitalismo, no domínio económico e apoiante do Estado Social, na esfera social. São estes portanto os pilares do moderno socialismo do PS português e do resto da Europa. Distantes, mesmo muito distantes da sua matriz fundadora.

O resultado deste processo histórico é a ausência de uma resposta da social-democracia para a crise que se anunciava e veio para durar. Mesmo quando, como tem sido o caso, os governos social-democratas como o do PS português, se vêm obrigados a intervir na esfera económica, como a nacionalização do BPN e o mais que está para vir, fá-lo a contra gosto, para salvar a bolsa dos capitalistas e afins, para evitar danos maiores no sistema que o deixem a nu e mostrem a sua vulnerabilidade em toda a extensão. Os partidos socialistas modernos estão reféns do capitalismo e dele não se querem livrar.

E quanto ao pleno emprego, outra bandeira esquecida, a opção agora é outra, diferente e para pior concebida em nome da eficácia económica, ou seja do lucro. E o lucro é a essência do capitalismo e como os capitalistas sabem melhor que ninguém, quanto mais lucro houver mais fica para o seu lado e menos para o lado dos trabalhadores no processo de distribuição da riqueza. É significativo que a EU apresente uma amálgama de medidas para combater a crise económica e social admitindo 2 milhões de desempregados e que o PS português seja o pai de um Código do Trabalho que deixa a democracia à porta das empresas.

Há poucas razões para festejar o Natal de 2008 e os próximos anos, como se percebe. Mesmo se a hipocrisia, como a tristeza, não tem limites.

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