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Crónica do Plano da Matemáticaaplicado à Linha do Tua
Quinta-feira, Outubro 30, 2008

O Plano da Matemática tem como finalidade melhorar os resultados dos nossos alunos na disciplina de Matemática, na qual, segundo alguns estudos, Portugal ocupa um dos últimos lugares entre os chamados países desenvolvidos. Segundo se pode ler num dos sítios Web do Ministério da Educação o “Plano da Matemática (…) apoia o desenvolvimento de projectos de Escolas que tenham como objectivo central a melhoria das aprendizagens e, consequentemente, os resultados em Matemática dos alunos dos 2.º e 3.º ciclos do ensino básico.” Pois bem, se os nossos resultados são assim tão maus, nada mais natural que se implemente um plano para recuperar desse atraso que parece mais atávico do que o resultado das política recentes.

Mas estes resultados devem colocar, antes de mais, um conjunto de interrogações ou de hipóteses para as quais devemos procurar resposta. Será que os nossos alunos são diferentes dos outros que obtêm melhores resultados? Serão os nossos professores piores? Serão as escolas, na sua globalidade, que funcionam mal? Serão os programas inadequados? Será a forma de ensinar ou de aprender que não é correcta? Será com mais exercícios e com mais fichas de Matemática que se melhoram os resultados? Ou será que a grande lacuna não é a inexistência de um ensino, em todas as disciplinas, que tenha por base o raciocínio e as estruturas lógico-matemáticas? Acredito que haja reformas e melhorias e fazer em todos estes níveis. Creio, contudo, que a verdadeira lacuna, a pedra-de-toque dos nossos resultados a Matemática, não está exclusivamente no ensino desta disciplina.

Pois bem, aparentemente o Plano da Matemática nada tem que ver que a Linha do Tua. Mas a aventura e as desditas desta linha poderão, creio eu, elucidar-nos sobre as razões pelas quais os resultados da Matemática ficam tão aquém dos esperados ou desejados.

A linha do Tua é uma linha de caminho de ferro, centenária, construída para unir a estação do Tua, junto o rio Douro, a Bragança, com uma extensão de 79 km. Parte dela foi desactivada em 1999 e, desde o ano 2000, foi (re)aproveitado o troço entre o Tua e Mirandela passando aí a funcionar o chamado “metro de Mirandela”. Nesta linha, no último ano e meio ocorreram quatro acidentes, sendo que em 120 anos nunca se tinha registado qualquer incidente na linha.

O último, amplamente divulgado pelos órgãos de comunicação social, aconteceu no passado dia 22 de Agosto deste ano, tendo provocado 1 morto e 35 feridos. O Ministério das Obras Públicas apressou-se a dizer que a linha não seria encerrada. Imediatamente foi constituída uma Comissão Técnica de Inquérito que tinha por missão apurar, no prazo de um mês, segundo o Ministério, as causas do acidente. O relatório preliminar, apresentado 48 horas depois, era inconclusivo, não apurando essas causas. Passado um mês os especialistas dessa Comissão, constituída por investigadores da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, vieram dizer que o prazo era demasiado escasso e só daqui a um mês seria possível apresentar esses resultados. As notícias posteriores dizem agora que, só em Novembro, será possível apresentar resultados preliminares.

Entendamo-nos. É bem provável que o referido estudo precise de três meses, ou mesmo mais, para ser minimamente credível, conclusivo e, diria, científico. O que não se entende é a razão pela qual se avança com um prazo de um mês, que afinal são dois e logo a seguir são três. Mas é igualmente incompreensível e inaceitável que os acidentes anteriores, se foram, como deveriam ter sido, investigados, não tenham produzido nem resultados nem medidas concretas.

Este é bem exemplo – apenas mais um – de que o Plano da Matemática, isto é, a implementação de um raciocínio lógico-matemático, não se aplica nem se limita às salas de aula e muito menos ao ensino da disciplina de Matemática. Exige-se uma Reforma profunda na nossa sociedade – embora, é certo, ela possa ter como ponto de partida a sala de aula –, capaz de operar essa transformação tão sabiamente anunciada por Camões, “vi claramente visto”. O conhecimento deve ser fruto da observação, da experiência e não do raciocínio dedutivo que não é mais do que uma soma de pré-conceitos. Por isso, o Plano da Matemática deve estimular a capacidade de observação, de levantar hipóteses, para que se adquira a competência de enfrentar e de resolver problemas. As implicações na governação são mais que óbvias. Inquéritos sem resultados, acidentes sem causas, só podem conduzir a uma esquizofrenia social modelada pela lógica da governação à vista, mas não pelo pensamento lógico que deve estar na primeira linha do Plano da Matemática.

Miranda do Douro, 27 de Setembro de 2008